quinta-feira, 21 de agosto de 2014
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Trilhos no Algarve Serrano
A minha mãe é algarvia. O meu pai é de Penafiel. Eu nasci em Lisboa.
Quem é de Lisboa não é de coisa nenhuma. Desculpem-me a franqueza, mas é verdade.
Adoro Lisboa. Lisboa é linda. Mas não a sinto como minha. Nem como sendo dela.
Pelo contrário, quando vou ao Norte do País, sinto-me de lá. Sinto porque me lembro da avó Quina que fazia café de cafeteira que era de cheirar e chorar por mais. Sinto porque recordo a alegria das dezenas de Natais passados com as dezenas de primos e as dezenas de tios. Sinto porque recordo a imagem das várias dezenas de presentinhos espalhados pela casa da avó, no topo da lareira, nos parapeitos das janelas ou no chão, ocupando toda a sala. Eram pequeninos e pouco importava. Todos recebiam qualquer coisa. Mas isso foi há muito tempo. Hoje bastar-me-iam o bacalhau cozido com todos, o tinto, as dezenas de primos, as dezenas de tios e a avó Quina. Alguns já cá não estão. Mas não deixo de me lembrar deles quando vou ao Norte. De os sentir e de saber que algures, em qualquer lado, olham pelos que por cá ficaram e sentem que sentimos falta.
Quando rumo a Sul, e faço-o inúmeras vezes, sinto os três meses de férias de Verão passados em casa dos avós, sob o calor do Algarve Serrano. Recordo a "macaca", o "mata" e as "escondidas", que me valeram uma cicatriz no joelho que nunca desapareceu. Sinto o sabor do pão saloio quente com mel e as dores de barriga que me deixava depois. Sinto as histórias da avó Clarinha, que descrevia tudo com um detalhe que nunca conheci, mas nunca perdendo o "fio à meada". E sinto o silêncio do avô Brás, sentado no alpendre, a contemplar o dia a terminar e as últimas cantatas das cigarras que dariam lugar aos "gri gri" dos grilos. Por tudo isto, sinto a Serra Algarvia como sendo um pedacinho minha.
E foi com esta saudade de tempos idos que rumei no dia 16 de agosto a Salir, deixando para trás a aldeia algarvia dos avós, que agora é dos pais, que um dia será minha, depois dos meus filhos e, se assim for o seu desejo, dos meus netos. Chegaria o dia e chegou. Estaria presente na primeira prova de trilhos no Algarve Serrano. Dotada de algum juízo inscrevi-me na prova de 25 km, mas não deixei de assistir à partida dos atletas que se aventurariam nos 50 km. Aqueles que não receavam "cozer e assar no Caldeirão", tal qual o João Ratão.
Segui tranquila, apreciando as alfarrobas e as azeitonas caídas no chão. Portugal é tão pequeno mas consegue acumular tantas diferenças, de Norte a Sul. Ainda não tinha atingido os 3 km e fui brindada com uma picada de abelha, que atrevidamente voou para dentro da minha camisola. Não foi uma experiência agradável mas quem já foi picada na boca consegue tolerar uma picadazita na barriga. Houve alturas em que pensei estar na Serra d'Arga. Apenas sem frio, sem chuva, sem vento e sem nevoeiro. Bem, em boa verdade, só as pedras eram parecidas com as de Arga. E ao longo de uns meros 1,5 km!
O calor fez-se sentir desde o primeiro momento mas, ainda assim, fomos brindados amiúde com uma brisa fresca que voou do mar até ao interior para nos refrescar. Valeu-me também a frescura da melancia nos 4 abastecimentos espalhados ao longo dos 25 km. Sorri quando acreditei ouvir aspersores de rega em pleno "nada". Concluí rapidamente que não eram aspersores, mas sim cigarras, claro. Um cano surgiu do nada, jorrando água límpida e fresca. Não hesitei em molhar o rosto, o pescoço e o buff. Se aquela água contivesse algum elemento indesejável o mais provável é que se manifestasse apenas no dia seguinte. Diz quem sabe.
Embora de altimetria bastante moderada, algumas das subiditas tiraram-me o fôlego e as forças. "Vai treinar, Susana!", ordenava eu, para dentro. Algumas falhas de marcação no percurso mas também algumas distrações da minha parte fizeram-me dar umas voltinhas extra e obrigaram a algumas paragens. Mas para quem nunca tem muita pressa estes são detalhes sem grande importância.
A meta lá estava e por lá encontrei muitas caras do costume que soube bem rever. As caras de Lisboa e não só, que aproveitaram o facto de estarem a banhos no Algarve para conhecer também o outro lado - o do sem barulho e sem néon a piscar.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Era uma vez, no Século XXI, em Óbidos
(foto de Bernardete Morita)
Numa vila pequenina, de seu nome Óbidos, um lindo castelo se
ergue sobre um monte, outrora à beira mar. Já na pré-história este castelo
despertara o interesse dos povos invasores da Península Ibérica, dada a sua
proximidade à costa atlântica, tendo sido ocupado por Lusitanos, Romanos,
Visigodos e Muçulmanos.
Ao segundo dia do mês agosto do ano de 2014, o Castelo de Óbidos foi palco de nova batalha e registou um importante marco na sua história: a reconquista por centenas de… corredores! Uns batalharam 27 km, outros 52 km, mas todos eles, do primeiro ao último a conquistar as muralhas, saíram vencedores.
Dentro de muralhas
Decorria o Mercado Medieval. Meninas, pequeninas e grandes, com
os cabelos ornamentados com coroas de flores, passeavam-se exibindo os lindos vestidos
da época. Os homens, com o seu ar rude, falavam alto, fazendo justiça pelas
próprias mãos ou com recurso a um dos carinhosos instrumentos de tortura
medieval. Confesso que me teria dado jeito, depois dos 52 km, aquele simpático “estica
o esqueleto”, puxando ambos os braços e pernas. Mas, felizmente, as “tenazes”
foram outras.
Pelas ruas, cheirinhos agradáveis de iguarias diversas a arder nas
brasas faziam as alegrias dos mais famintos (e barrigudos, também).
Tudo decorria “medievalmente” quando, de repente, centenas
de pessoas, dotadas de costumes algo estranhos, invadem a vila. Vestimentas
coloridas (e curtas, deixando as camponesas a murmurar sobre o escândalo que
seus olhos observavam), com nomes estranhos – Salomon, Asics, Kalenji e coisas
que tais, nunca antes vistas, juntaram-se e apimentaram o reboliço que já se
vivia.
Partida, largada e
fugida, na Porta da Vila!
E houve de tudo
naquela “batalha” travada pela gente colorida.
Houve tudo menos
canhões, espadas ou instrumentos de tortura medievais.
Houve terra,
cascalho, água e lama. Houve areia. Compacta e movediça. Houve a rugosidade das
pedrinhas e a macieza da caruma de pinheiro. Houve subidinhas, descidinhas e
estradões. Houve arribas junto ao mar e houve caminhos junto à lagoa. Houve
silêncio e houve música dos anos 80, oriunda de uma tal Festa de Branco, na Foz
do Arelho. Também houve o "zzzzzz" irritante das melgas e as marcas
que me deixaram. Houve calor e houve chuvinha a bater no rosto, refrescando o corpo
e despertando os sentidos, deixando os aromas mais apurados. Da terra, da
vegetação e de várias flores de cheiro que fui tentando adivinhar pelo
percurso. Houve fome e houve também "matar a fome", com os repastos
que nos foram sendo oferecidos para retemperar energias - o melão ressuscitou-me
três vezes.
Houve o escuro da
noite. Gosto da noite. Gosto de correr e caminhar de noite. Acompanhada.
"Mas... não se vê nada", muitos dirão. Estão enganados. Veem-se
coisas "que eu sei lá". Até se veem coisas que não existem! Mas houve
também para mim, para nós, o amanhecer. Recordo-me de um momento em particular,
quando o Rui seguia uns metros à frente, numa ligeira subida num estradão que
atravessava um pomar. Via apenas o seu contorno, numa manhã que acordava, com
aquela luz azulada que permite a definição de contornos como nenhuma outra.
Pena não ter registado o momento.
Por falar em
pomar... Houve furtos. Eu não sou de acusar ninguém, mas seguia apenas eu e o
Rui e posso confirmar que houve furtos. Não havia mais ninguém e uma árvore
ficou menos pesada. Eu asseguro que não colhi peras das árvores, mas comi duas.
E agora?! Quem desvendará este caso de polícia bicudo que colocará o presumível
culpado numa qualquer forca medieval?
Às 6 da manhã houve o sino da igreja. Quem leu o meu mais recente texto, "A Corrida e as Leis de Murphy", sabe do que falo. O sino da igreja, a meta quase a chegar, mas o quase a tardar. Aqueles dois últimos quilómetros foram dos mais longos da minha vida. Quando avisto as escadas que nos conduzem ao castelo sei que está quase. Já as tinha subido há um ano, na versão mais curta da batalha.
Está aqui alguém?
Chegamos à entrada,
o Rui dá-me a passagem e ofereço um "truz truz... bom dia!" aos
simpáticos resistentes que aguardam os derradeiros atletas. Antes de qualquer
coisa, olho para a direita à procura delas. Das marquesas. Era ali que estavam
há um ano e eu sabia que em 2013 a Helena e o Rui Queixada não haviam arredado
pé sem que chegassem os últimos atletas. Recebi o meu prémio de finisher, nada
comi ou bebi e segui direta para uma massagem a quatro mãos, vigorosa e penosa,
mas que sei ter permitido que no dia seguinte acordasse sem grandes mazelas.
Era uma vez…
Os "era uma
vez" dos tempos modernos são definitivamente diferentes dos de
antigamente. Tive um cavalheiro sempre, e pacientemente, a meu lado. Não o
esperei no castelo. Ter-me-iam faltado as tranças "Rapunzel" para as
lançar da torre. Em vez disso, percorri o caminho de 52 km em 10 horas e uns minutos mais, com ele, para lá chegar. E que bem que soube!
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
A Corrida e as Leis de Murphy
Há tempos havia-me debruçado sobre este assunto, mas
arrumei-o. Hoje voltou a cruzar-se no meu caminho e não consegui ficar-lhe
indiferente.
Murphy era corredor. Ninguém me disse. Não li em lado
algum.
A única coisa que por aí se diz é que Edward A. Murphy
Jr. terá sido um major e engenheiro da Força Aérea Americana na década de 40.
Eu sei mais que isso. Eu garanto que este senhor
ocupava os seus tempos livres a correr… e na montanha!
Senão, vejamos…
Um atalho é sempre a distância mais longa entre dois pontos.
A meta está ali. Bem perto. À direita. Até
ouvimos os sinos da igreja da vila a tocar. Ouvimos também os aplausos. No
entanto, é certo que alguém da organização responsável pelo desenho do percurso
nos vai colocar a "atalhar" pelo caminho mais improvável, com pelo menos mais 5 km, antes de lá chegarmos.
Tudo leva mais tempo do que todo o tempo que tens
disponível.
Sem dúvida. Eu sei disso melhor que ninguém. Faço
contas à vida, ou melhor, ao tempo, quando vou para a montanha. É certo que os
10 min/km para percorrer o percurso de rio na Serra da Freita são um absoluto
exagero quando os defino em casa. 10 min/km é um verdadeiro absurdo. No local
do crime a progressão será, na melhor das hipóteses, a 15 min/km.
Acontecimentos infelizes ocorrem sempre em série.
É certo que num mesmo dia, numa mesma prova, deixemos
cair o telemóvel ao rio porque tirávamos uma selfie. De seguida percamos parte
da sola da sapatilha porque uma raíz estava no local errado, à hora errada.
Está um calor insuportável e ficaremos sem água no camelback. E assim sucessivamente. Em série.
Em qualquer fórmula, as constantes (especialmente as
mencionadas nos manuais de engenharia) deverão ser consideradas variáveis.
Mas há dúvidas? Ultra Trail com 50 km. Pois sim. No
mínimo serão 55. Trail com 25 km. Claro. Serão no mínimo 28 para aqueles que
tiverem a sorte de não perder de vista uma fita de marcação semi-escondida. Não há dúvida quanto ao rigor e precisão científicas dos GPS utilizados pelas organizações de provas em montanha!
Encontrarás sempre aquilo que não procuras.
Vais encontrar lixo na floresta. É triste, mas é
verdade. Vais encontrar invólucros de barras de cereais, embalagens de gel,
lenços e coisas que tais. Mas a fita que te indica o caminho certo… essa já
terá sido removida!
Se te estás a sentir bem, não te preocupes. Isso
passa.
Corres a bom ritmo, estás confiante. O piso é técnico
mas estás a voar sobre as pedras. Escorregas mas consegues habilmente vencer
uma queda no chão. És um super-atleta. Tem calma. Isso passa. Ainda faltam 41
km e 3500 D+ até cruzares a meta.
A Natureza está sempre a favor da falha.
A pedra inanimada que se atravessa no teu caminho terá
sempre o movimento suficiente para saltar e te bater na canela. A rocha que
atravessas será sempre mais escorregadia do que prevês e acabarás com o nariz
esmurrado. A raíz da árvore que surge por debaixo das folhitas terá sempre mais
10 cm do que esperavas. A altura da água do rio será sempre maior do que o que previas
e o banho será inevitável. A Natureza adora pregar partidas.
Um morro nunca desce.
Não importa para onde vais. Será sempre morro acima e
contra o vento. Ou se calhar o morro até desce, mas depressa concluirás que
afinal foi mais fácil subi-lo do que descê-lo, no momento em que os teus
joelhos começarem a pedir misericórida e descanso.
O dia de hoje foi realmente necessário?
Quantas vezes te questionas “o que faço aqui?” ou “porque
não fui para a praia?”. Quantas e quantas vezes, enquanto corres na montanha, resmungas
e proferes palavras que não ensinarias às crianças? O problema… o problema é
que quando cruzas a meta, uma estranha sensação de esvaziamento de más
sensações e dores acontece, sorris e pensas na próxima!
Bom descanso, boas corridas, boas férias!
terça-feira, 15 de julho de 2014
Da Ponte de Porto Antigo até Cinfães
A foto de domingo era mesmo do Douro. Está um pouco torta porque também eu o estava depois de dormir pouco mais de 4 horas no carro.
Acho que ando a fazer as coisas certas no tempo errado. Ou as coisas erradas no tempo certo. Seja como for, alguma coisa está errada. Mas há qualquer coisa certa também.
A aventura chamou-se Trail do Douro e Paiva. Anunciaram 30 km, terminámos com 34. O problema... o problema é que era preciso subir muito para se chegar à meta. Muito mesmo.
Algures depois do segundo abastecimento, seguia num ritmo verdadeiramente estonteante (7 min/km, por aí) e pensei… “hoje vai correr bem”. Cem metros adiante cruzo-me com um velhote, coxo, de muletas. “A menina a correr assim não chega lá nem amanhã”, disse-me. Repito. O senhor era velho, coxo, usava muletas e teve a ousadia de sugerir que eu corria muito devagar.
Fiz cara feia. Mentirinha. Fiz um lindo sorriso. Um sorriso que ganharia o prémio de sorriso menos genuíno do ano. E ainda só vamos em julho.Uma vezes gostei, outras vezes gostei muito (meteu e meti muita água), outras vezes não gostei (e proferi orgulhosamente palavras feias).
Corri, caminhei. Fui subindo nas subidas. Fui descendo nas descidas. Comi melancia. Bebi coca-cola. Perfeito.Na meta, em Cinfães, muitos aplausos e palavras de incentivo. De quem acabou antes. De quem fez a prova maior. De quem fez a minha prova. De quem nem sequer correu e acha que somos uns verdadeiros heróis.Às vezes acredito que sim. Que são. Que somos.
Não precisamos da corrida para o sermos. Precisamos de fazer qualquer coisa que custe um pedacinho e no fim conquistar a medalha do sentimento de superação.
Vitória, vitória (acabou-se a história)!
quarta-feira, 2 de julho de 2014
A Montanha e as Injeções de Confiança
Há momentos nas nossas vidas em que precisamos de injeções de confiança.
Atenção. Não falo de massagens ao ego provindas de outrém. Falo de injeções de confiança resultado de atos nossos.
O que são injeções de confiança, perguntarão? Podem ser tantas e de natureza tão variada.
Uma filha sussurar-nos que somos a melhor mãe do mundo. Ou um filho responder rapidamente com "sim" a todas as questões triviais que colocamos ao telefone, mas quando perguntamos "tens saudades minhas", responde "muitas". Faz-nos acreditar que, no que respeita à educação dos filhos, alguma coisa devemos estar a fazer bem.
Pode ser um pai a dizer "gosto muito de ti, ó piruças". Faz-nos acreditar que mesmo fazendo asneiras, somos a filha que deseja.
Pode ser alguém que amamos dizer-nos que quer ficar connosco para sempre. Faz-nos acreditar que valeu a pena preparar aquela salada com 15 ingredientes, cuja combinação foi cuidadosamente estudada.
E depois...
Pode ser a montanha. A montanha tem uma capacidade imensurável de nos injetar confiança, que só apetece colar pensos rápidos para que não saia pelos poros. Chegar a "certas e determinadas" metas na montanha faz-nos acreditar que temos forças para fazer parar a Terra de girar em torno de si própria e em torno do Sol. Mesmo que acreditemos apenas por uns dias, já terá valido a pena.
Pouco ou nada me tem faltado. Sou uma afortunada.
Mas, desde a experiência na Madeira, tenho vindo a somar "fracassos" - perdi-me no Paleozóico, abandonei o Marão, abandonei a Estrela, enfim... confesso que no sábado estava a precisar de uma injeção daquelas que só uma meta a 70 km da partida e a Serra da Freita podem dar.
No fim-de-semana anterior ao UTSF (Ultra Trail da Serra da Freita, para quem me lê mas pouco quer saber de corridas) fui até ao local onde se desenvolve a prova. Tinha pedido ao Rui para percorrermos um pouco do traçado que a constitui, ficando claro que teria que visitar a Frecha da Mizarela. Sabia que muito dificilmente teria capacidade para lá chegar dentro do tempo estabelecido e, se porventura um milagre sucedesse e lá chegasse, o Sol já se teria deitado e nada veria.
Assim foi. Percorremos aquilo que é a Corrida da Freita mais uns pózinhos. E adorei. Quando chegámos ao Merujal, o Rui indicou-me onde era a meta, junto à casinha de pedra. Nada lhe disse mas cá dentro pensei "e se... e se correr bem? que bom seria!". A tal injeção de confiança.
Porque fui então ao Ultra Trail da Serra da Freita?
Porque queria experimentar as passagens no rio. Queria chegar a Drave. Queria saber se todas as pedras eram como as que vi no PR7, em tons de prata e dourado, num padrão que daria o melhor vestido. Queria ver montes e vales entrelaçados, fazendo-me acreditar que na serra também há penteados e que naquele dia a Freita havia escolhido usar uma trança. Queria molhar os pés, as pernas e o buff no Paivô. Queria, ó se queria, ver os Três Pinheiros. A partir daí... a partir daí logo se veria.
Depois dos 30 km sabia que só teria mais 10 para percorrer. Nunca chegaria dentro do tempo de controlo. Mas era impensável deixar-me ficar por ali. Eu queria a "chapa" ao lado dos Três Pinheiros. Segui com a Carla e a Anabela, esta última que, num ato altruísta, desistiu de seguir em frente, ajudando quem precisava. Rapidamente se juntaram os "rapazes-vassoura", a retirar as fitas de marcação atrás de nós e, um pouco adiante, o Miguel e a Lia, que andavam a certificar-se que ninguém ficava sem dentes naquele troço do rio.
(foto de Miguel Catarino)
De pé aplaudo todos aqueles que cruzaram a meta do UTSF. Já nos balneários, a querida Júlia Conceição dizia-me que os primeiros 40 km do UTSF eram um docinho. Sorri. Sorri e pensei como tinha ousado pensar por segundos, no Merujal, ao lado da casa de pedra, "e se?".
Há que ter humildade. Sabem bem as palavras de força e incentivo. Mas é importante reconhecermos que na vida há que batalhar muito para se alcançarem algumas metas. O UTSF deve ser isso mesmo. Uma batalha para grandes guerreiros!
Vou voltar à Serra da Freita e é certo que não vou esperar por 2015. Voltarei sem fitas de marcação, seguirei os PR traçados no mapa que guardo comigo e terei o Rui a guiar-me "besta" acima. Certo, Rui?
Quanto à injeção de confiança da montanha... essa terá que aguardar um pouquinho mais. Para já, vou desfrutando dela, como sei, como posso, como me dá prazer.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Lindo Faial, de Costa a Costa
(foto de Andreia Fontes)
Percorrer ilhas de Costa a Costa parece começar a fazer parte da minha vida. Felizmente o Faial é mais estreito do que a Madeira, poupando-me assim as alucinações que vivi há pouco mais de um mês naquela que designam de pérola do Atlântico.
Isto põe-me a pensar e a acreditar que a ilha do Faial seja a perolazinha do Atlântico, pelo simples facto de ser mais pequenita. Beleza não lhe falta. Só faltaram as hortenses "aos molhos". Infelizmente não é tempo delas.
Recuando 31 anos
As minhas amigas de sempre chamam-se Sofia. Estratégia minha. Desde cedo me rodeei de “sabedoria”. Conheci uma das Sofias com 7 anos, enquanto rebolávamos no relvado anexo ao Clube de Oficiais da Base Aérea nº 4, nas Lajes. Estávamos em setembro e ambas tínhamos acabado de aterrar a bordo de um Hercules C130. Creio que o C130 abanou demasiado, porque nem o meu pai nem o pai da Sofia pilotaram o dito aparelho. Entretinham-se antes com outros mais pequenos, mais rápidos, mais… acrobáticos!
Para quem não sabe, as Lajes ficam na ilha Terceira. A “terceira” ilha, de um conjunto de 9, que tive a sorte e oportunidade de conhecer nos dois anos que vivi e cresci nos Açores. Tenho pena de não poder oferecer à Inês e ao Diogo a liberdade de que usufruímos naquele canteirinho no meio do mar plantado. Um canteiro muito verde, sem quaisquer perigos, pelo que brincávamos livremente após a escola, até o sol se pôr, ansiando pela próxima visita ao “BX”, o famoso armazém na parte americana da base, para adquirir o modelo mais recente da Barbie, boneca que ainda não havia sequer sido descoberta pelas meninas do continente.
Fui uma criança cheia de sorte. E a Sofia também. E serve a presente introdução saudosista para dizer que 7 das 9 ilhas açorianas e suas gentes estiveram presentes enquanto fui crescendo e, por isso, nutro um carinho muito especial por elas. Continuam por conhecer as Flores e o Corvo. Lá chegarei.
Fui uma criança cheia de sorte. E a Sofia também. E serve a presente introdução saudosista para dizer que 7 das 9 ilhas açorianas e suas gentes estiveram presentes enquanto fui crescendo e, por isso, nutro um carinho muito especial por elas. Continuam por conhecer as Flores e o Corvo. Lá chegarei.
Bom voltar ao Faial
Terei visitado o Faial pela última vez em 2007, por motivos profissionais. Os aeroportos fazem parte da minha vida e o do Faial não é exceção.
Soube bem voltar agora, movida pela corrida. Foram os trilhos que me fizeram regressar. E sabe muito bem nestes moldes, com um conjunto de várias dezenas de pessoas que partiram de Porto, Lisboa e região centro, para sujar os pés, a uns milhares de quilómetros do continente.
Num grupo tão grande, reina naturalmente a diversidade. Mas é impossível não nos sentirmos bem junto de pessoas que sabemos partilharem deste gosto pela montanha e que, mais do que ninguém, entendem a razão de ser de sorrirmos desmesuradamente, quando cortamos a meta, 46 km depois de termos partido, há 8h56m atrás.
A 500 metros da meta, ouvindo o meu nome e o do Rui, acabaram-se as dores e o cansaço, e só me lembro de soltar as pernas sobre aquelas cinzas fofas, ver o mar e uma mancha de gente ao fundo, a aplaudir-nos. Não faltaram as felicitações dos amigos e também do primeiro atleta a cortar a meta, 4h30 antes de nós. Grande Armando Teixeira. Belíssimo gesto para "gente da montanha" pequenina (literal e metaforicamente falando), como eu.
46 km, "de A a Z"
Pusemos os pés a mexer na Ribeirinha, descendo até ao mar. Escusado será dizer que me apeteceu mergulhar naquelas águas. Às 9 da manhã o dia já prometia aquecer.
O Rui já me havia "briefado" e a estratégia seria seguir com calma até ao km 21, para depois tentar imprimir mais velocidade na segunda parte do percurso.
Cedo percebi que não conseguiria seguir senão com muita calma, claro! Depois de rolarmos um pedacinho, surgem diante de nós várias dezenas de degraus, aproveitando alguns socalcos, recentemente recuperados pela organização propositadamente para esta prova. Iríamos percorrer cerca de 22 km em trilhos até à Caldeira. Pela frente teríamos diversos pisos, ora em estradão, ora em pedritas, mas quase sempre subindo, subindo e subindo. Recordo particularmente o estradão aos ziguezagues, que me obrigou a "desenhar com os pés" a primeira letra do meu nome, umas várias dezenas de vezes.
Como escreveu a Anna Frost, o Azores Trail Run foi uma verdadeira experiência 360º. É de facto uma designação muito bem conseguida, esta da Frosty. Entre uma diversidade de pisos e paisagens, foram-nos sendo oferecidos cenários idílicos, do tipo "brochura férias de sonho", geralmente carregados de Photoshop. Aqui sabemos que vemos as coisas como são: o verde como só o conheço nas ilhas açorianas, um azul que só reconheço no mar que as rodeia e... vacas como não vejo em nenhumas outras paragens... e pastagens! Até as vacas são mais bonitas nos Açores. Mérito do prado, seguramente.
Na Caldeira inicia o Trilho dos 10 Vulcões, o qual percorre os 10 vulcões principais existentes no alinhamento fissural do Capelo. Pensava que conseguiria correr muito ao longo da Caldeira. A irregularidade do solo e o cansaço já acumulado nas pernas derivado das muitas subidas não me permitiu correr como desejava, pelo que lá fui seguindo como podia, tentando apanhar a minha lebre. Por vezes a lebre parava e ficava a contemplar tudo o que nos rodeava. Eu lá chegava, uns minutos depois, libertando para o ar longos suspiros.
Passamos por um casal sentado junto a umas pedras que serviam de miradouro. E por ali ficaram, porque os voltámos a ver um par de horas depois, quando o percurso voltou a passar perto daquele local. A Caldeira isso pede. Horas a contemplá-la. Horas a ver o verdadeiro "jardim botânico" que se desenvolve no seu interior. Creio que gostaria de descer lá abaixo um dia. E colocar-me sobre o exato ponto por onde começou a "festa explosiva", há muitos milhares de anos atrás. 10 mil, dizem. Poderia ter aprendido muito mais com o "wikipinho", mas o cansaço que sentia era tal, que a certa altura exclamei "quero lá saber da cn43$#%o0i5 dos 10 vulcões". Quem perdeu fui eu.
Tínhamos chegado às antenas, logo agora só poderíamos descer. Por alguns momentos somos brindados com nevoeiro. Eu que lá vivi, sei bem como os Açores são pródigos em oferecer as 4 estações do ano num único dia. A organização esteve tão irrepreensível que nem na meteorologia desiludiu. Sol e visibilidade extraordinária em quase todo o percurso, permitindo à vista alcançar o Pico e São Jorge.
Os voluntários recebem-nos em todos os postos de abastecimento como heróis, mas os verdadeiros heróis já aterraram há muito na meta. Estamos na "reta" final e não recuso a meia bifana que me é oferecida. Lá seguimos, e um pouco mais tarde vejo uma placa a indicar que faltam 5 km para os Capelinhos. Sei bem que 5 km podem demorar muito tempo a percorrer.
Apenas lamento a fadiga que já sentia na altura, porque foram os 5 km mais brilhantes do percurso. Cada qual se sensibiliza com o que lhe toca e eu comovi-me inúmeras vezes ao longo daqueles 5.000 derradeiros metros. De tudo um pouco. Trilhos onduladinhos a descer recheados de pedra-pomes. Escadas a subir o Cabeço Verde que me deixaram quase sem respiração. O verde continua a perserguir-nos. O vassoura Otávio acompanha duas brilhantes atletas uns metros atrás, que se estreiam na distância. O Rui segue na frente. Corre e volta atrás, como fez ao longo de toda a prova. Gostava de saber quantos quilómetros marcou o seu Garmin.
Chegamos à estrada. Receio que nos ponham a descer em alcatrão até lá baixo, à meta. Não. Pela frente temos 500 metros de cinzas. Cinzas fofas. Amortecem o impacto. Não receio cair sobre elas. E solto a pequenina Frosty que há em mim. Os 500 metros de corrida mais divertidos e saborosos que alguma vez vivi.
Não preciso repetir como chegámos à meta. Já o escrevi acima. Terminei feliz, com um sorriso de "Costa a Costa". E creio que o Rui também. Mesmo depois de várias horas a rebocar-me e a lidar com o meu mau feitio. Sou escorpião. É inevitável.
Até já, Faial...
Sim. Até já. Porque vou seguramente voltar. Para correr. Cheguei antes do pôr-do-sol, é certo, mas o Garmin morreu às 8 horas. Vou voltar também para petiscar no café delicioso junto à Praia do Norte. Para conhecer o que ficou por conhecer. Para rever o que tanto gostei.
Três dias depois, reconheço que mais importante que ter finalmente conhecido a Anna Frost, terá sido o trabalho herculano desta organização, muito particularmente do Mário, em garantir a sua participação no Faial Costa a Costa.
A presença da Anna Frost e a divulgação que esta atleta internacional fez desta ilha e deste Arquipélago colocaram seguramente os Açores nas bocas do mundo e mais além. Bem merecem! Aplausos, muitos, para todos os que montaram o Azores Tral Run!
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