segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Olá Lousã, que não me (des)cansas

(foto: João Pena Rebelo, a caminho de Gondramaz)

Há cerca de duas semanas que não pensava noutra coisa - que vontade de regressar à Lousã!
Esta seria a terceira participação nos Abutres. Em 2013 a estreia, nos então 23 km, e a minha terceira experiência na montanha. Em 2014, o ano passado portanto, tentei ir mais longe. Concluí os 47 km, já bem depois do cair da noite e com muito nevoeiro à mistura. Quase garanti o último lugar. Pouco faltou.

O dia 31 de janeiro de 2015 foi dia de regressar, depois de falhada a oportunidade de correr em outubro no UTAX, também na Lousã. Correram a Inês e Diogo por mim e foi igualmente fantástico. Desta vez, e à última hora, fiz "downgrade" para a prova de 25 km. Os treinos quase inexistentes e a condição física impossibilitariam seguramente a chegada com sucesso à meta.

O meu objetivo último era conseguir chegar à hora certa para tomar o antibiótico que, propositadamente, não levei comigo. Assim teria uma motivação extra para fazer algo que tão difícil é para mim conseguir concretizar - despachar-me!

Partida adiada

Depois de uma noite onde a chuva e o vento se fizeram escutar através das portadas de madeira das janelas do Quintal de Além do Ribeiro  (recomendo a visita), a organização decide adiar a partida das duas provas. A mensagem de alerta chegou já tomávamos o pequeno almoço. Não protestámos e regressámos para dormir mais um pouco, já de barriguinha cheia.

O sol lá apareceu por detrás das nuvens e abrilhantou a partida da ultra (50 km) e 30 minutos mais tarde da prova de 25 km. Muitos se estreavam numa prova de trilhos. Espero que não desistam deles, depois das várias provações que tiveram que entrentar. A montanha, na maioria das vezes, é mais meiga.

A Lousã não estava para brincadeiras. Ou, se calhar, até estava... muito brincalhona!

Despe-veste-despe o corta-vento. Rapidamente percebo que é mais prudente mantê-lo vestido. Vem a chuva miudinha. Depois as gotas gordas. Granizo. Muitos engarrafamentos, fruto da grande quantidade de atletas para um percurso pontuado de single tracks com obstáculos de natureza vária. Alguns ainda vão tentando fugir à água e lama. Nessas alturas escolho a opção mais descongestionada, até porque sei que chegará o momento em que não poderei fugir nem de uma, nem de outra. Ainda assim, nem as minhas piores previsões poderiam ter estimado algo assim. Verdadeiros banhos de lama, seguidos de charcos de água que garantiam, pelo menos, uma adequada "lavagem dos rodados". Por várias vezes penso que havia tomado a opção sensata - já teria "morrido" três vezes se tivesse seguido para os 50 km.

Uma coisa é certa. Ninguém poderia ir ao engano. Depois de anunciados os padrinhos da prova - José Moutinho e Flor Madureira - só poderíamos esperar dificuldades... e outras coisas!

Três aleluias à Nossa Srª da Piedade

"O ano passado cheguei bem mais cansada aqui", penso para comigo. Chego ao primeiro abastecimento aos 9 km, lavo as mãos, agarro em dois gomos de laranja e num quadrado de marmelada e sigo caminho. Sei que agora vou subir muito. Partes de rocha e pedra escorregadia junto a cursos de água e "escalada" que vai exigir forca das pernas e braços - este ano, depois do engano de 2014, dispensei os bastões e foi o melhor que fiz. Apesar de tudo, dúvidas não tenho - rumaria à Lousã todos os fins-de-semana só para poder percorrer este trilho.

Aquecer as mãos em Gondramaz

Embora este ano a chegada a Gondramaz se tenha feito por um percurso alternativo ao dos anos anteriores, não pude deixar de recordar a experiência de 2014 e aqueles minutos que antecederam a chegada aquela simpática Aldeia de Xisto. Não seríamos mais de 4 corredores e os vassouras, e lá do alto, elementos da organização gritavam que nos apressássemos pois estávamos no limite do tempo de corte. São momentos como aquele, de alegria, superação e partilha, que ficam registados no meu "diário da vida", deixam saudades e com vontade de regressar à montanha.

"Este ano chegou mais cedo", exclama divertida uma das simpáticas meninas da organização, que aparentemente não esqueceu o meu rosto. "É verdade", respondo, "mas este ano estou na prova mais curta", esclareço. Peço ajuda para me abrirem a mochila e retirarem a caneca, pois não sinto as mãos. Enchem-me a caneca de sopa e aguardo um pouco antes de a beber - quero voltar a sentir os dedos!

"Então e bifanas, não há? O ano passado tinham bifanas!", protesto eu. "Ainda estão a fazer, menina", respondem. Ora tudo o que eu menos esperava era sentir que tinha chegado demasiado cedo! Eu que já estava na cauda do pelotão e a ser ultrapassada por atletas dos 50!

Ai como se respira bem por aqui!

Saio de Gondramaz e faço uma grande parte do percurso sozinha. Gosto disso. Gosto muito. A Susana e os trilhos. A sopa ter-me-á feito bem, pois sigo energizada, percorrendo o percurso que no ano anterior havia feito de noite, com muita dificuldade em progredir, atendendo ao espesso nevoeiro que se misturava com a luz do frontal. Agora, porque o vejo, posso usufruir verdadeiramente do trilho.


Vou dando passagem aos rapidíssimos dos 50. Por vezes encosto e outras páro para que possam passar em segurança. Um dos super-atletas pergunta se preciso de ajuda. "Obrigada! Estou mesmo à espera que passes para não atrapalhar!", respondo.

Concluo que a montanha mata vírus. A infeção das vias respiratórias superiores que me atormentava desde o final da semana anterior parece dar tréguas. A tosse já não se faz ouvir. Por vezes o ar custa a passar, mas quanto mais subo, melhor me sinto.

Inês e Diogo, isto é tudo o que a mamã deseja que não façam, está bem?

Aquele banho de lama que nos espera depois de Espinho, já perto do final, custaria 500.000 euros num qualquer SPA luxuoso da capital. Lama por todo o lado. Pisei lama. Enterrei-me na lama. Comi lama. Saplicos de lama a voar por todo o lado. Uns caem. Outros riem-se. Todos perderam a "pressa" que levavam.

É neste momento que sou ultrapassada pela Ester Alves, a primeira senhora da prova dos 50 km. Saiu 30 minutos antes de mim e leva o dobro dos km nas pernas. Não sei se me deva envergonhar. Talvez não. Talvez deva aceitar que uns treinam para serem excelentes atletas. Outros, como eu, não treinam para serem excelentes atletas, nem tão pouco atletas medianos. Vou andando pela montanha desta forma. Andando, literalmente. Talvez seja esta a forma que me permitirá manter até mais tarde por estes trilhos que tanto bem me trazem.

Trouxe o par!

Chego à meta quase com 6 horas de prova e bem para lá da hora de toma do antibiótico. Recolho a minha sapatilha dos 25 km, que assim se junta à dos 47 km de 2014. Curiosamente, não fosse a diferença de "tamanhos", formariam precisamente um par! Gosto mesmo daquelas sapatilhas. São o único prémio de provas de corrida em que participei que merecem um lugar numa das mesinhas da minha sala.


Parabéns a todos aqueles que se meteram a caminho. Chegando ou não ao fim, a Lousã apresentou-se dura a cada metro que nos ofereceu. Mais do que uma prova para as pernas, foi seguramente um teste a tantas cabeças obstinadas que por lá andaram.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A pensar na Lousã




Não sei o que me apetece mais... se ir buscar o par deste, se comer as maravilhosas bifanas no pavilhão.

Uma coisa é certa. O local para se estar no sábado é a... Lousã.

A 5 dias, tempo para recordar a experiência abútrica de 2014: Abutres para Totós

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bai miúda feliz boando



Na dúbida, leba. Repito. Na dúbida, leba o traje típico da região onde bais correr.
É certo que inicialmente te olharão de soslaio, mas depois... depois concluirás que sabe bem "pertencer à terra" onde corres. "Olhá minhota"! "Força bianense"! "A minhota mai linda de Portugal" (a sinhôra foi muito simpática, mas é claramente míope)! Oubirás isto e muito mais. E desta forma também correrás mais, te garanto.

Corri a minha primeira meia-maratona em setembro de 2011, na nossa capital. Tinha dado os primeiros passos na corrida cerca de 6 meses antes. Na altura demorei 2h17 para chegar à meta e achei que era a maior do mundo. Também achei que dificilmente recuperaria das dores musculares que a "proeza" me havia deixado. Mas recuperei. Recuperei e continuei a correr.

Um ano depois, 2012 portanto, corri a minha primeira maratona. Em Amesterdão vi meninas-borboleta e corredores mascarados de super-heróis. No momento em que passei a barreira dos 32, mais coisa, menos coisa, decidi que correria mascarada na maratona seguinte. E assim foi. Cinco meses depois, lá estava em Sevilha, pronta para correr 42 km usando uma saia de Sevilhana.

Creio que foi das mais sábias ideias que tive em todo o meu percurso de corredora (aquela que corre, portanto). Quatro horas e dois minutos depois cortava a meta ao "sabor" das palavras de incentivo dos verdadeiros Sevilhanos e Sevilhanas. Acredito verdadeiramente que aquela saia vermelha pontuada de bolinhas pretas fez a diferença.

Isto explica porque corri com lenço e brincos de Minhota na Meia Maratona Manuela Machado, em Viana do Castelo, no domingo passado. Quis, uma vez mais, "pertencer à terra".

Depois de uma lesão que me "atirou para canto", preguiça à mistura, zanga com a corrida e outras razões desconhecidas, regressei no domingo. E vinha animada por estar de volta.

No bolso, que curiosamente não tinha, não levava o desejo de bater o meu melhor tempo na distância, que guardo no Douro Vinhateiro. Não poderia ousar ambicionar tal coisa, atendendo à baixa forma em que me encontro e da qual me vou libertando aos poucos. Levava sim, o desejo secreto de correr com prazer, algo que não sucedia há muito.

Bai miúda feliz boando... boando tanto quanto pude. Certo é que não me recordo da última vez em que corri 21,198 km como corri no domingo. A chuva miudinha e a temperatura fresca ajudaram. Ajudaram também os sorrisos e palavras de incentivo de amigos, conhecidos e desconhecidos à corredora de lenço de Minhota em substituição do tradicional buff.

Se estou feliz? Claro que estou. Feliz por ter feito sorrir as gentes minhotas. Feliz por ter corrido sem sirenes e outros sinais de alarme do corpo. Feliz por ter feito as pazes com a corrida. Porque ela merece. Tem-me dado mais ela a mim, do que o inverso.

A corrida, como a vida, é assim mesmo. Por vezes é necessário o afastamento para sentir saudades. Só por isto, Biana ficou no coração. As deliciosas bolas de berlim do Zé Natário também o ficaram. No coração e nas coxas.

Bemo-nos na saudosa Lousã. Veijinhos!

sábado, 15 de novembro de 2014

"Truz, truz, cheguei", disse o 39




Acho que já vos tinha dito. Gosto de fazer anos. É sinal que estou viva.

Gostava de fazer anos quando eram só 7 e convidava para a festa de aniversário 2/3 dos meninos da Base Aérea nº 4, nas Lajes, onde vivi quando era criança. Gostei de fazer 10 anos porque cheguei aos 2 dígitos. Gostei de fazer 12 porque pude começar a assistir a quase todos os filmes nas salas de cinema. Gostei de fazer 16 porque assim já poderia conduzir a vespa 50 CC que nunca tive. Gostei de completar 18 anos porque atingi a maioridade (e ganhei uma carta do meu pai debaixo da almofada). Gostei de fazer 25 porque representava um quarto de século. Gostei de fazer 33 porque gosto do algarismo 3 e consegui dois de uma vez. Em suma, sempre consegui encontrar encanto em todas as idades que por mim foram passando.

Tenho uma teoria. Desenvolvi-a nos últimos dias. Para ser mais precisa, ocorreu-me no duche, enquanto o jato de água me despertava de um sono de 7 horas, povoado de sonhos turbulentos. Se hoje completo 39 anos, então a vida começa hoje (depois das 10:30, hora em que nasci) e não no ano que vem.

Passo a explicar.

Todos dizem que a vida começa aos 40. Errado. A vida começa quando completamos 39 anos de existência e entramos no quadragésimo. Completando 39, concluo que já entrei nos 40 e, portanto, a vida começa agora. Hoje mesmo.

Mas então, se assim é, sou obrigada a concordar com a Mafaldinha (sim, a do cartoonista Quino) - se começa agora, porque raio vim a este mundo tantos anos antes? Será que a vida só agora começa? Só agora é que vai ser a valer? Não sei o que me reservará a vida que não me tenha oferecido ainda nestes 39 anos que já passaram.

Nem sempre foi bom, mas foi precisamente por não ter sido sempre bom que soube valorizar quando o foi. Não mudaria nada do que vivi. As alegrias e as tristezas. As conquistas e os fracassos. As certezas e os enganos. As opções tomadas e as não opções, mas resoluções que outros tomaram por mim. Os caminhos desbravados e os caminhos a direito, sem obstáculos. Não mudaria nada. Até a vespa 50 CC que nunca tive. Ainda bem que o meu pai não o permitiu. Também não será o tipo de presente que pretenda oferecer aos meus filhos.

O segredo do meu "sucesso"? Depender de muita coisa para fazer por ser feliz. Sim, muita coisa mesmo.

A família. É com parte dela que escolhi estar neste dia 16 de novembro, a 229 km de casa. A minha querida família. Desde sempre comigo. E para sempre, sei-o bem.

Os amigos. Os com quem joguei ao mata na noites de verão na Serra Algarvia. Os que cresceram com a "canina" no colégio. Os que vieram mais tarde e com quem partilhei os momentos mais desafiantes da vida escolar - os integrais triplos e a transferência de energia e massa no IST. Os com quem partilho o gosto pelos aviões e aeroportos. Os que encontrei por aí, porque a vida assim determinou. E os mais recentes, que partilham o gosto pela corrida.

A corrida. Sim, é verdade. Faz-me feliz e creio que já tinham desconfiado. Trouxe-me muita coisa boa. E levou-me a outras melhores ainda.

O polvo à lagareiro da Zé. O risotto do Di Casa. O cheesecake da Sofia. Os croissants d'A Padaria Portuguesa. O tinto. As framboesas.

Os romances no papel. As gerberas. Os vestidos.

A música. Que bom poder ouvir a M80 e vibrar com temas como "Boys of Summer" ou "Karla with a K". Não vibraria se não contasse já com estes 39 que carrego comigo.

Não me importo de envelhecer. O único problema em "crescer" é que há pessoas que nos levam algum avanço e que crescem também. E não queremos que "cresçam" mais porque, se assim for, terão que nos deixar mais tarde. Mas eles partem e nós também. E fica a saudade. A saudade e a lembrança. E recordar é viver, pelo que continuam vivos. Mesmo que apenas através da lembrança. Ou na moldura lá em casa. Ou na imagem que temos de nós próprios ao volante do primeiro automóvel que conduzimos e que os avós nos presentearam com um laço no capot. Ainda hoje me lembro daquele dia de Natal, em que acordei ainda antes das 8 da manhã e desci para a rua para sintonizar a Rádio Cidade no meu VW Polo azul. O que me levaria a tantos sítios depois. A minha liberdade. Curiosamente, alguns anos mais tarde, viria a descobrir que me bastam duas pernas para dela poder usufruir.

Queridos 39 anos, estes. Agora, para ser perfeito, falta apenas a carta debaixo da almofada do meu pai com os ensinamentos e as recomendações para os próximos 30 anos. Quem sabe lá apareça esta noite.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Mamã, quero ir para uma escola de corrida!



“Mamã, quero ir para uma escola de corrida”, disse-me a Inês, depois de concluir os 1.000 metros no AXTrail Kids na Serra da Lousã e arrecadar um brilhante segundo lugar. Sorri. Que bom é quando as alegrias dos filhos são as alegrias dos pais, mas quando o contrário também se verifica. Levei a Inês para uma versão “kid” de montanha e a Inês quer continuar. Falo da Inês, mas o Diogo também lá estava. Não foi ao pódio, mas pouco faltou. No entanto o Diogo prefere o ténis à corrida e não fico menos satisfeita por isso.

As mulheres-mães não são melhores do que as que não o são. Mas são mulheres diferentes, dotadas de uns quaisquer super-poderes especiais. Ainda há dias li um artigo sobre empresas que recrutavam mamãs com bebés pequenos. Aparentemente está provado que são as melhores gestoras em planeamento e tempo no mercado de trabalho.

Não cresci a desejar ser mãe. Só descobri como era bom ser mãe depois de o ser. Não ficava derretida com os bebés dos outros. Só quando eram bebés verdadeiramente bonitos. Rechonchudos e carequinhas. Que fazer? Sou sensível a bebés bonitos. Mas depois fui mãe. Uma vez e mais outra. E, quando somos mães, somos todas iguais. Ficamos acordadas a ver se o bebé respira. Provamos a sopa para ver se está quente. Limpamos os cocós e xixis dos nossos bebés sem complexos porque são os únicos que não cheiram mal. Rapamos os restinhos que deixam no prato sem “mete nojo”. Falamos “bebéês” com os nossos filhos e não nos importamos que pensem que somos tontas por o fazermos. Ficamos nervosas no primeiro dia de escola. Ficamos deprimidas quando começamos a ouvir falar em qualquer coisa terminada em “ite”. Desabafamos com as amigas-mães sobre o que nos inquieta. Sobre as coisas maravilhosas que os nossos filhos fazem ou dizem. Sobre as coisas menos boas que fizeram ou disseram. Sobre o quão maravilhoso é ser mãe mas também o quão difícil é conseguir chegar a todo o lado. Mas uma coisa é certa. Balanços feitos, no final do dia, quando estão deitados e os observamos nas caminhas com a sua respiração suave, concluímos que não mudaríamos nada e que não saberíamos estar nesta vida não sendo mães.

Serve este texto para dizer que não corri, não me cansei, não contraí qualquer empeno (exceção feita ao já adquirido há meses no joelho e que me obrigou a parar por uns tempos contra vontade). Não revi a beleza que a Serra da Lousã oferece. Não subi nem desci montes. Desta vez não precisei. O entusiasmo a equipar a Inês e Diogo com as minhas meias de compressão, vê-los a correr e sujar os pés na lama e no final devorarem gomos de laranja… devolveu-me a alegria de viver a montanha e de cortar uma meta!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Trilhos no Algarve Serrano



A minha mãe é algarvia. O meu pai é de Penafiel. Eu nasci em Lisboa.
Quem é de Lisboa não é de coisa nenhuma. Desculpem-me a franqueza, mas é verdade.
Adoro Lisboa. Lisboa é linda. Mas não a sinto como minha. Nem como sendo dela.

Pelo contrário, quando vou ao Norte do País, sinto-me de lá. Sinto porque me lembro da avó Quina que fazia café de cafeteira que era de cheirar e chorar por mais. Sinto porque recordo a alegria das dezenas de Natais passados com as dezenas de primos e as dezenas de tios. Sinto porque recordo a imagem das várias dezenas de presentinhos espalhados pela casa da avó, no topo da lareira, nos parapeitos das janelas ou no chão, ocupando toda a sala. Eram pequeninos e pouco importava. Todos recebiam qualquer coisa. Mas isso foi há muito tempo. Hoje bastar-me-iam o bacalhau cozido com todos, o tinto, as dezenas de primos, as dezenas de tios e a avó Quina. Alguns já cá não estão. Mas não deixo de me lembrar deles quando vou ao Norte. De os sentir e de saber que algures, em qualquer lado, olham pelos que por cá ficaram e sentem que sentimos falta.

Quando rumo a Sul, e faço-o inúmeras vezes, sinto os três meses de férias de Verão passados em casa dos avós, sob o calor do Algarve Serrano. Recordo a "macaca", o "mata" e as "escondidas", que me valeram uma cicatriz no joelho que nunca desapareceu. Sinto o sabor do pão saloio quente com mel e as dores de barriga que me deixava depois. Sinto as histórias da avó Clarinha, que descrevia tudo com um detalhe que nunca conheci, mas nunca perdendo o "fio à meada". E sinto o silêncio do avô Brás, sentado no alpendre, a contemplar o dia a terminar e as últimas cantatas das cigarras que dariam lugar aos "gri gri" dos grilos. Por tudo isto, sinto a Serra Algarvia como sendo um pedacinho minha.

E foi com esta saudade de tempos idos que rumei no dia 16 de agosto a Salir, deixando para trás a aldeia algarvia dos avós, que agora é dos pais, que um dia será minha, depois dos meus filhos e, se assim for o seu desejo, dos meus netos. Chegaria o dia e chegou. Estaria presente na primeira prova de trilhos no Algarve Serrano. Dotada de algum juízo inscrevi-me na prova de 25 km, mas não deixei de assistir à partida dos atletas que se aventurariam nos 50 km. Aqueles que não receavam "cozer e assar no Caldeirão", tal qual o João Ratão.

Segui tranquila, apreciando as alfarrobas e as azeitonas caídas no chão. Portugal é tão pequeno mas consegue acumular tantas diferenças, de Norte a Sul.  Ainda não tinha atingido os 3 km e fui brindada com uma picada de abelha, que atrevidamente voou para dentro da minha camisola. Não foi uma experiência agradável mas quem já foi picada na boca consegue tolerar uma picadazita na barriga. Houve alturas em que pensei estar na Serra d'Arga. Apenas sem frio, sem chuva, sem vento e sem nevoeiro. Bem, em boa verdade, só as pedras eram parecidas com as de Arga. E ao longo de uns meros 1,5 km!

O calor fez-se sentir desde o primeiro momento mas, ainda assim, fomos brindados amiúde com uma brisa fresca que voou do mar até ao interior para nos refrescar. Valeu-me também a frescura da melancia nos 4 abastecimentos espalhados ao longo dos 25 km. Sorri quando acreditei ouvir aspersores de rega em pleno "nada". Concluí rapidamente que não eram aspersores, mas sim cigarras, claro. Um cano surgiu do nada, jorrando água límpida e fresca. Não hesitei em molhar o rosto, o pescoço e o buff. Se aquela água contivesse algum elemento indesejável o mais provável é que se manifestasse apenas no dia seguinte. Diz quem sabe.

Embora de altimetria bastante moderada, algumas das subiditas tiraram-me o fôlego e as forças. "Vai treinar, Susana!", ordenava eu, para dentro. Algumas falhas de marcação no percurso mas também algumas distrações da minha parte fizeram-me dar umas voltinhas extra e obrigaram a algumas paragens. Mas para quem nunca tem muita pressa estes são detalhes sem grande importância.

A meta lá estava e por lá encontrei muitas caras do costume que soube bem rever. As caras de Lisboa e não só, que aproveitaram o facto de estarem a banhos no Algarve para conhecer também o outro lado - o do sem barulho e sem néon a piscar.