quarta-feira, 15 de abril de 2015

Reencontro com a Pérola do Atlântico


Parei e fotografei... o Risco


Começa a história

A noite já caiu, e com ela aterro no Funchal. Um táxi leva-me até ao Machico. Ainda na estrada, vejo-o. Vejo o monte que subi o ano passado, o monte que me fez dar mil voltas, acima e abaixo, debaixo do nevoeiro, sem nada ver, desesperar, ansiar pela meta. Facho é o seu nome. Um ligeiro arrepio, mas feliz por estar de volta.

Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há

Dirijo-me ao secretariado em Machico para levantar o meu dorsal. As meninas da organização entregam-me o material. “Tem aqui tudo o que vai precisar. Não preciso explicar, pois já sabe como é”, diz-me uma simpática madeirense. “Já sei como é? Como sabe que sei?”, pergunto intrigada. “Toda a gente na Madeira leu o seu texto, há um ano”, esclareceu, sorrindo. “Ninguém quer ir correr à noite por causa das bruxas”, acrescentou. Desta vez sorrio eu e esclareço que estou cá este ano precisamente para clarificar esse assunto. “Venho tirar a pratos limpos essa história das bruxas”, respondo. Agarro no meu saco de “atleta” e saio para apanhar os raios de sol que aparecem pela primeira vez nessa manhã.

Contagem decrescente

A imagem de marca por estes dias na Madeira era uma pulseirinha laranja, com chip identificador. Quem a usava, teria oportunidade de frequentar um verdadeiro resort de trilhos de luxo - versão "tudo incluído" nos 115 km, "meia pensão" nos 85 km, "alojamento e pequeno-almoço", nos 40 km e "só alojamento" nos 17 km.  Para alguns, os do regime TI, sábado chegou exatamente pelas 00 horas, com a partida em Porto Moniz para 115 km de trilhos, veredas, levadas e… escadas, muitas escadas. Sete horas mais tarde, os hóspedes em regime MP partiriam para os ondulados 85 km. Três horas mais tarde, pelas 10 horas portanto, seria a minha vez, e a de umas centenas mais, em regime APA, de rumar ao Machico, com partida no Pico do Areeiro. Os hóspedes em regime “só alojamento” sairiam à hora certa para um brunch pelos trilhos, pelas 12 horas, na zona da Portela, a 17 km da meta.

E assim se desenrolou esta peça de teatro, onde a Madeira foi palco, e centenas de atores e atrizes encarnaram as mais variadas personagens, facetas, vivências e experiências. Os felizes e os tristes. Os lúcidos e os alucinados. Houve quem festejasse a vitória, outros conheceram o sabor da derrota. Uns foram conquistadores, outros renderam-se. Uns acreditaram que iam conseguir para minutos depois dizerem que não conseguiam mais. Uns insultaram a montanha para mais tarde a contemplarem com admiração. Para atores e atrizes, esta peça de teatro é de facto inolvidável pela miscelânea de sentimentos que faz despertar. A Madeira não urbanizada é sem dúvida uma ilha de rara beleza e dureza. Mais do que as marcas das sapatilhas nos trilhos, são estes trilhos que deixam marcas em quem os percorre.

Madeira em APA

Embora tivesse hesitado no momento da inscrição, a fraca condição física e a necessidade de ver de dia o que tinha visto há um ano de noite, aquando da prova dos 85 km, levou-me a avançar para o regime “alojamento e pequeno almoço”. São 40 km totalmente invulgares, onde o desnível negativo supera o positivo. Mas desenganem-se… descer não é fácil. As dificuldades fizeram-se sentir ainda a prova ia a meio, com os joelhos a “relinchar” e os quadríceps a gritar “socorro”.
A pequena subida ao Areeiro terá sido seguramente programada pela organização para garantir um adequado aquecimento para o que se seguia. O percurso era-me familiar, ainda que este ano se apresentasse muito mais apetecível. As pernas ainda estavam frescas. A novidade veio com o desvio para o Poiso, permitindo percorrer novos trilhos, alguns em modo “onduladinho”, como tanto gosto. Foi neste troço que fui ultrapassada pelo primeiro atleta dos 115 km, o madeirense Luís Fernandes. Já antevia este momento, apenas não o esperava tão cedo, pelo que, parando no trilho, boquiaberta, exclamei “já?!”. O Luís nem me terá ouvido, pois corria a velocidade a que nunca corri sequer em alcatrão. E segui caminho, em direção ao Poiso, cruzando atletas, turistas e elementos da organização.

A vereda das Funduras

É agora. Chegou o momento. Inicia o percurso da serra das Funduras e pela vereda no interior da floresta Laurissilva. Aqui vivi verdadeiros momentos de alucinação há um ano. Agora vejo pela frente um imenso verde. Um verde que é floresta indígena da Madeira e Património Mundial Natural. Os trilhos são mesmo ao meu gosto, mais uma vez onduladinhos, pontuados de escadinhas aqui e ali. Não resisto e vou parando para tirar algumas fotografias. Alguns atletas ultrapassam-me e eu sorrio. Não há nada para sorrir, devem pensar, mas eu sei bem porque sorrio! “Eu vi bruxas aqui há um ano e os seus braços pareciam querer agarrar-me, percebem?”, dizia eu para comigo, quando passavam. Vejo-me agora num sitio de extrema beleza, onde nada mais sinto do que satisfação em pôr as pernas a mexer. O inferno virou paraíso. Que coisa boa!

O estradão depois das Funduras

Este seria mais um marco da minha aventura. Estava ansiosa por descobrir o que vinha depois das Funduras. Mais uma vez, há um ano, a noite e o nevoeiro cerrado nada me permitira ver, obrigando-me inclusivamente a usar o segundo frontal, como se de uma lanterna se tratasse. Mas pouco ajudou, porque a luz nada mais fazia do que se dispersar no nevoeiro, impossibilitando a visualização das marcações do trilho. Recordo que levei uma eternidade a finalizar aquele percurso, receando o que se esconderia, ora à direita, ora à esquerda, conforme o zigue-zague que a montanha me ia oferecendo. E ali estava ele à vista. Soltei uma valente gargalhada quando me deparei com um interminável estradão, com não menos do que 6 metros de largura. Ai se eu soubesse!

O Risco

O terceiro grande momento da minha tarde de sábado. Deverá ser um dos locais mais fotografados da Madeira e nada mais conseguira do que ouvir o mar lá em baixo em 2014. Uma vez mais parei, desviando-me para não perturbar a passagem dos atletas, que arriscavam no risco, destemidos, para oferecer aos meus olhos aquela que deve ser uma das mais bonitas vistas da Pérola do Atlântico.

A levada que nos leva à meta

Mesmo antes do monte que não iria subir este ano, encontro três elementos da organização e por lá fico um pouco a conversar e a relatar a minha experiência do ano anterior. “Não me digam que tenho que subir de novo esta coisa”, exclamei eu, sabendo que não teria que o fazer. “Não menina. Este ano não é por aí. É mais fácil. É sempre pela levada”, esclareceram. “E onde acaba a levada?”, perguntei divertida, não vendo o fim do vale e antevendo que não teriam “furado” a montanha para fazer passar a levada. “É já ali, é já ali”, responderam, procurando tranquilizar-me. Assim que entrei na levada, não mais parei, num trote muito ligeiro, acreditando que Machico estava próximo e com ele a meta e um merecido mergulho no mar.

A meta

Deixo a levada e entro no prado que já conheço. Mas agora vejo-o e consigo distinguir o trilho que devo pisar. Ao contrário da chuva e do vento que brindaram a minha chegada há um ano, espera-me um sol radioso. Lá em baixo, centenas de pessoas se passeiam e recebem com entusiasmo os atletas. Assim que coloco o primeiro pé no passadiço que me conduzirá à meta, vou recebendo aplausos e palavras de incentivo. Serpenteio por entre alguns dos transeuntes, não conseguindo evitar umas quantas lágrimas e o queixo a tremer.

Os aplausos, este ano também do Rui, há um ano à distância de um telemóvel

Era de noite. Hoje é de dia. Não se via vivalma. Hoje vejo tanta gente! O vento havia destruído o pórtico. Hoje está à minha espera, e diz-me que passaram 6 horas e 33 minutos desde que parti de manhã.

Fazer estes 40 km em 2015 foi das mais brilhantes decisões que tomei. Agora sei onde pisei. Agora, porque sei, poderei, se assim desejar, voltar para saborear o sentimento de superação vivido em 2014.

Digo muitas vezes que há a Susana antes dos 85 km da Madeira e a Susana depois deles. E o regresso este ano só veio comprovar isso mesmo. A Madeira deixou a sua marca e voltarei ali para (per)correr… os quilómetros que o corpo permitir.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Maraturista em Vila de Rei


(texto redigido originalmente para o JN Running)

Há dois anos consegui o meu primeiro pódio na classificação geral – terceiro lugar nos 60+ em Vila de Rei. Nada de “hip hip hurrays”, por favor. Éramos três senhoras na prova de maior distância. Uma vitória anunciada, portanto.
Foi também há dois anos que conheci o Paulo Garcia, um dos principais motores da Organização Horizontes, e quem me deu a conhecer o conceito de “maraturista” (adaptação de maratonista), o qual não poderá encontrar melhor personificação do que eu própria. Sim, perdoem-me a imodéstia, mas acredito que sou uma verdadeira turista na montanha. Maraturista, porque sempre que posso e consigo, corro um bocadito.
Sábado foi tempo de voltar ao Picoto da Milriça. O “meiomaismeionãohá” de Portugal Continental. Se desenhassem uma cruz sobre o nosso País, o cruzamento seria o centro geodésico, mais coisa, menos coisa. Esse centro fica em Vila de Rei. Antes de lá chegar percorri 3 km. Depois, e para chegar à meta, mais 64 km. Estou certa que nenhum GPS, Google Maps ou qualquer outra tecnologia conhece este percurso e o oferece como alternativa “otimizada” aos seus utilizadores, para regressar ao ponto de partida. Nestas coisas da montanha, o léxico tem muitas particularidades.
Todos estarão recordados da grande prosa que nos escreveu aqui o Rui Pinho, há precisamente uma semana, depois da sua aventura dos 118 km no Sicó. Se dúvidas ainda tivesse quanto ao sentido das suas palavras, ontem tê-las-ia dissipado. Amei e odiei o trail. Morri e renasci dezenas de vezes. Viajei ao meu interior, com todas as revelações mais ou menos boas de mim mesma. Vivi a descoberta de reservas de energia que desconhecia existirem. Ouvi a palavra amiga, que por vezes me acariciou como mimo e noutras me fez querer exclamar “deixa-me em paz”. Como nos contava o Rui, somos nós no nosso mundo. Vamos de crianças a velhos num ápice. E fui tudo isso. A criança que, contrariada, chorava, para depois rir vigorosamente, resultado de um mergulho na cascata do Penedo Furado. Mas sobretudo fui uma velhinha, procurando forças onde já não existiam, como se repente os meus 39 anos virassem 89. E dos 89 renasci para os 20, debaixo de um céu estrelado e lua cheia, um teto em forma de mar de estrelas, onde parece que mergulhava. Vontade de desligar a luz do frontal para melhor o apreciar.
O prenúncio de Primavera no início da semana prometia um sábado fantástico. As promessas de São Pedro não saíram defraudadas – o protetor solar teve mesmo que sair da gaveta. O buff na cabeça teve que ser rapidamente substituído pelo boné, para proteger o rosto já de si franzido, reação à contrariedade imposta ao resto do corpo, demasiado exigente para o que as pernas conseguiam oferecer.
Depois de atingir o Picoto da Milriça aos 3 km de prova, veio a visão daquilo que sabia que iria encontrar cerca de 35 km adiante. Antes de lá chegar seria ainda presenteada com uns deliciosos nacos de melão no Aivado e, alguns quilómetros depois, nas Trutas, gomos de tomate com sal, o melhor hidratante natural que conheço. Mas a visão da cascata continuava a pairar, avolumando-se quando começaram a surgir os primeiros riachos e cursos de água, onde alegremente molhava os pés, mergulhava as pernas e refrescava o rosto. Entro finalmente na zona das Bufareiras, que oferece um enquadramento maciço rochoso extraordinário, pontuado de diversas cascatas. E ali estava ela. A cascata do Penedo Furado. A última que antecedia a subida em direção à praia fluvial com o mesmo nome.
Cascata do Penedo Furado
“São só 5 minutos, prometo”, disse eu ao Rui. Há dois anos ainda me havia descalçado e retirado as meias. No sábado já não havia tempo para esses detalhes. Como vinha com o corpo quente, mergulhei calmamente as pernas dentro daquela água cristalina e gelada. O meu assistente de reportagem nem um dedo pôs na água. Tirou a mochila e dorsal, e tal como eu previa, lançou-se num mergulho olímpico naquela lagoa azul. Com tamanho incentivo, mais todos os salpicos que me molharam, entre 50 gritos que se terão feito ouvir por todo o vale do Zêzere, mergulhei também e ofereci ao meu corpo uma revigorante sessão de crioterapia. A alma essa, encheu-se com o graal que buscava desde o km 1.
Não fosse o sentimento de necessidade de concluir toda a jornada, confesso que poderia ter terminado a minha aventura por ali. Queria aquele mergulho. Dei o mergulho. Estava feliz. Mas nestas coisas da montanha, por mais que o corpo nos diga que quer descansar, há um qualquer desafio da mente que nos empurra para diante e que teima em dizer que a aventura deve terminar na meta. Mesmo que custe um pedacinho. Ou mais que um pedacinho.
E assim foi. Do Penedo Furado a Água Formosa e às suas casas de xisto, serpenteamos ribeiros que ecoavam pelos vales. Nas margens viam-se antigas minas de exploração de ouro (conheiras) e evidentes vestígios de povoamentos de outrora. Quais garimpeiros, descobrimos ouro ao chegarmos ao abastecimento dentro do tempo limite, devidamente recompensados por uma saborosa sopa de feijão. Uma taça não chegou. Duas foram precisas para recarregar as pilhas, já há muito com o “red alert” e ameaçando vigorosamente o “power off”.
48 km estavam feitos. Seguimos para os 19 km que faltavam. Chegámos a Poios, último abastecimento, de frontal ligado, e rapidamente nos pusemos a caminho para o Trilho das Cascatas, ouvindo o som relaxante da água a precipitar-se de poço em poço. A grande escarpa lá estava. Não saiu do lugar em dois anos, mas está agora dotada de cordas para se escalar em maior segurança. Um pouco acima, avistamos a EN 2 e um carro abranda vendo as luzes dos nossos frontais. “Força”, gritam lá do alto, e com mais forças me sinto para os 2 km que nos faltam.
“Está mesmo quase”, penso. Recuo dois anos e imagino a Inês e o Diogo a brincar junto à linha da meta esperando orgulhosamente a mãe, a derradeira de três atletas femininas.
Um dia depois, sinto o corpo mal tratado, mas o coração cheio. A visão romancista do texto do Rui relativamente às aventuras na montanha justifica tudo o que vivemos e a procura de o reviver. Hoje dei comigo a pensar numa visão menos romanceada. Estou para a montanha como os homens anafados e desengonçados dos jogos “solteiros e casados” de domingo estão para o futebol. Sabem que estão mal preparados fisicamente, vão castigar o corpo durante aquela hora de jogo com os amigos, sofrerão um pouco, mas no final… no final estarão muito mais satisfeitos, prontos para enfrentar a semana e ansiando pelo empeno do fim-de-semana seguinte.
A versão mais científica deste fenómeno é a que nos dá o Victor Hugo Teixeira, no seu amplamente divulgado vídeo youtube, sobre nutrição no desporto. O desporto não é saudável. Desidrata. Inflama. Oxida. A recuperação do exercício, essa sim, é saudável e torna-nos mais fortes. E digam-me então – queremos ou não queremos ser fortes?
Fotos: Paulo César Borges

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A serra, uns dias depois



(Eu, na Cascata Abútrica)

és tão linda e melhor designação não te poderia ter dado o José Moutinho, tu Lousã, a terra do petróleo verde, já somos ricos, é o que é, ai não que não somos ricos,
és tão linda e já cá venho pela terceira vez, duas vezes na versão curta, no ano passado a versão longa, mas mesmo as experiências curtas são sempre demoradas, ai não que não são demoradas,
és tão linda, mesmo com chuva, vento, granizo e frio, lindos é que não nos deixas, encharcados e enlameados até à raiz dos cabelos, ai não que não nos deixas
és tão linda em todo o lado, mas tão linda mesmo depois da Nossa Srª da Piedade, já te vou conhecendo de cor, aquele sobe-sobe que não pára, tento andar mais depressa, ai não que não tento,
és tão linda, e quero vir cá com tempo quente, aproveitar estas cascatas, ai que fresquinho, os músculos vão gostar, ai não que não vão gostar,
és tão linda, e melhor que chegar ao fim é o percurso que faço até lá chegar, não fosse isso não fazia sentido, e para o ano (ou mesmo antes) cá estarei, ai não que não estarei.



[baseado num texto sobre amores e desamores de Pedro Chagas Freitas, “ai não que não (qualquer coisa)”]

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Olá Lousã, que não me (des)cansas

(foto: João Pena Rebelo, a caminho de Gondramaz)

Há cerca de duas semanas que não pensava noutra coisa - que vontade de regressar à Lousã!
Esta seria a terceira participação nos Abutres. Em 2013 a estreia, nos então 23 km, e a minha terceira experiência na montanha. Em 2014, o ano passado portanto, tentei ir mais longe. Concluí os 47 km, já bem depois do cair da noite e com muito nevoeiro à mistura. Quase garanti o último lugar. Pouco faltou.

O dia 31 de janeiro de 2015 foi dia de regressar, depois de falhada a oportunidade de correr em outubro no UTAX, também na Lousã. Correram a Inês e Diogo por mim e foi igualmente fantástico. Desta vez, e à última hora, fiz "downgrade" para a prova de 25 km. Os treinos quase inexistentes e a condição física impossibilitariam seguramente a chegada com sucesso à meta.

O meu objetivo último era conseguir chegar à hora certa para tomar o antibiótico que, propositadamente, não levei comigo. Assim teria uma motivação extra para fazer algo que tão difícil é para mim conseguir concretizar - despachar-me!

Partida adiada

Depois de uma noite onde a chuva e o vento se fizeram escutar através das portadas de madeira das janelas do Quintal de Além do Ribeiro  (recomendo a visita), a organização decide adiar a partida das duas provas. A mensagem de alerta chegou já tomávamos o pequeno almoço. Não protestámos e regressámos para dormir mais um pouco, já de barriguinha cheia.

O sol lá apareceu por detrás das nuvens e abrilhantou a partida da ultra (50 km) e 30 minutos mais tarde da prova de 25 km. Muitos se estreavam numa prova de trilhos. Espero que não desistam deles, depois das várias provações que tiveram que entrentar. A montanha, na maioria das vezes, é mais meiga.

A Lousã não estava para brincadeiras. Ou, se calhar, até estava... muito brincalhona!

Despe-veste-despe o corta-vento. Rapidamente percebo que é mais prudente mantê-lo vestido. Vem a chuva miudinha. Depois as gotas gordas. Granizo. Muitos engarrafamentos, fruto da grande quantidade de atletas para um percurso pontuado de single tracks com obstáculos de natureza vária. Alguns ainda vão tentando fugir à água e lama. Nessas alturas escolho a opção mais descongestionada, até porque sei que chegará o momento em que não poderei fugir nem de uma, nem de outra. Ainda assim, nem as minhas piores previsões poderiam ter estimado algo assim. Verdadeiros banhos de lama, seguidos de charcos de água que garantiam, pelo menos, uma adequada "lavagem dos rodados". Por várias vezes penso que havia tomado a opção sensata - já teria "morrido" três vezes se tivesse seguido para os 50 km.

Uma coisa é certa. Ninguém poderia ir ao engano. Depois de anunciados os padrinhos da prova - José Moutinho e Flor Madureira - só poderíamos esperar dificuldades... e outras coisas!

Três aleluias à Nossa Srª da Piedade

"O ano passado cheguei bem mais cansada aqui", penso para comigo. Chego ao primeiro abastecimento aos 9 km, lavo as mãos, agarro em dois gomos de laranja e num quadrado de marmelada e sigo caminho. Sei que agora vou subir muito. Partes de rocha e pedra escorregadia junto a cursos de água e "escalada" que vai exigir forca das pernas e braços - este ano, depois do engano de 2014, dispensei os bastões e foi o melhor que fiz. Apesar de tudo, dúvidas não tenho - rumaria à Lousã todos os fins-de-semana só para poder percorrer este trilho.

Aquecer as mãos em Gondramaz

Embora este ano a chegada a Gondramaz se tenha feito por um percurso alternativo ao dos anos anteriores, não pude deixar de recordar a experiência de 2014 e aqueles minutos que antecederam a chegada aquela simpática Aldeia de Xisto. Não seríamos mais de 4 corredores e os vassouras, e lá do alto, elementos da organização gritavam que nos apressássemos pois estávamos no limite do tempo de corte. São momentos como aquele, de alegria, superação e partilha, que ficam registados no meu "diário da vida", deixam saudades e com vontade de regressar à montanha.

"Este ano chegou mais cedo", exclama divertida uma das simpáticas meninas da organização, que aparentemente não esqueceu o meu rosto. "É verdade", respondo, "mas este ano estou na prova mais curta", esclareço. Peço ajuda para me abrirem a mochila e retirarem a caneca, pois não sinto as mãos. Enchem-me a caneca de sopa e aguardo um pouco antes de a beber - quero voltar a sentir os dedos!

"Então e bifanas, não há? O ano passado tinham bifanas!", protesto eu. "Ainda estão a fazer, menina", respondem. Ora tudo o que eu menos esperava era sentir que tinha chegado demasiado cedo! Eu que já estava na cauda do pelotão e a ser ultrapassada por atletas dos 50!

Ai como se respira bem por aqui!

Saio de Gondramaz e faço uma grande parte do percurso sozinha. Gosto disso. Gosto muito. A Susana e os trilhos. A sopa ter-me-á feito bem, pois sigo energizada, percorrendo o percurso que no ano anterior havia feito de noite, com muita dificuldade em progredir, atendendo ao espesso nevoeiro que se misturava com a luz do frontal. Agora, porque o vejo, posso usufruir verdadeiramente do trilho.


Vou dando passagem aos rapidíssimos dos 50. Por vezes encosto e outras páro para que possam passar em segurança. Um dos super-atletas pergunta se preciso de ajuda. "Obrigada! Estou mesmo à espera que passes para não atrapalhar!", respondo.

Concluo que a montanha mata vírus. A infeção das vias respiratórias superiores que me atormentava desde o final da semana anterior parece dar tréguas. A tosse já não se faz ouvir. Por vezes o ar custa a passar, mas quanto mais subo, melhor me sinto.

Inês e Diogo, isto é tudo o que a mamã deseja que não façam, está bem?

Aquele banho de lama que nos espera depois de Espinho, já perto do final, custaria 500.000 euros num qualquer SPA luxuoso da capital. Lama por todo o lado. Pisei lama. Enterrei-me na lama. Comi lama. Saplicos de lama a voar por todo o lado. Uns caem. Outros riem-se. Todos perderam a "pressa" que levavam.

É neste momento que sou ultrapassada pela Ester Alves, a primeira senhora da prova dos 50 km. Saiu 30 minutos antes de mim e leva o dobro dos km nas pernas. Não sei se me deva envergonhar. Talvez não. Talvez deva aceitar que uns treinam para serem excelentes atletas. Outros, como eu, não treinam para serem excelentes atletas, nem tão pouco atletas medianos. Vou andando pela montanha desta forma. Andando, literalmente. Talvez seja esta a forma que me permitirá manter até mais tarde por estes trilhos que tanto bem me trazem.

Trouxe o par!

Chego à meta quase com 6 horas de prova e bem para lá da hora de toma do antibiótico. Recolho a minha sapatilha dos 25 km, que assim se junta à dos 47 km de 2014. Curiosamente, não fosse a diferença de "tamanhos", formariam precisamente um par! Gosto mesmo daquelas sapatilhas. São o único prémio de provas de corrida em que participei que merecem um lugar numa das mesinhas da minha sala.


Parabéns a todos aqueles que se meteram a caminho. Chegando ou não ao fim, a Lousã apresentou-se dura a cada metro que nos ofereceu. Mais do que uma prova para as pernas, foi seguramente um teste a tantas cabeças obstinadas que por lá andaram.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A pensar na Lousã




Não sei o que me apetece mais... se ir buscar o par deste, se comer as maravilhosas bifanas no pavilhão.

Uma coisa é certa. O local para se estar no sábado é a... Lousã.

A 5 dias, tempo para recordar a experiência abútrica de 2014: Abutres para Totós

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bai miúda feliz boando



Na dúbida, leba. Repito. Na dúbida, leba o traje típico da região onde bais correr.
É certo que inicialmente te olharão de soslaio, mas depois... depois concluirás que sabe bem "pertencer à terra" onde corres. "Olhá minhota"! "Força bianense"! "A minhota mai linda de Portugal" (a sinhôra foi muito simpática, mas é claramente míope)! Oubirás isto e muito mais. E desta forma também correrás mais, te garanto.

Corri a minha primeira meia-maratona em setembro de 2011, na nossa capital. Tinha dado os primeiros passos na corrida cerca de 6 meses antes. Na altura demorei 2h17 para chegar à meta e achei que era a maior do mundo. Também achei que dificilmente recuperaria das dores musculares que a "proeza" me havia deixado. Mas recuperei. Recuperei e continuei a correr.

Um ano depois, 2012 portanto, corri a minha primeira maratona. Em Amesterdão vi meninas-borboleta e corredores mascarados de super-heróis. No momento em que passei a barreira dos 32, mais coisa, menos coisa, decidi que correria mascarada na maratona seguinte. E assim foi. Cinco meses depois, lá estava em Sevilha, pronta para correr 42 km usando uma saia de Sevilhana.

Creio que foi das mais sábias ideias que tive em todo o meu percurso de corredora (aquela que corre, portanto). Quatro horas e dois minutos depois cortava a meta ao "sabor" das palavras de incentivo dos verdadeiros Sevilhanos e Sevilhanas. Acredito verdadeiramente que aquela saia vermelha pontuada de bolinhas pretas fez a diferença.

Isto explica porque corri com lenço e brincos de Minhota na Meia Maratona Manuela Machado, em Viana do Castelo, no domingo passado. Quis, uma vez mais, "pertencer à terra".

Depois de uma lesão que me "atirou para canto", preguiça à mistura, zanga com a corrida e outras razões desconhecidas, regressei no domingo. E vinha animada por estar de volta.

No bolso, que curiosamente não tinha, não levava o desejo de bater o meu melhor tempo na distância, que guardo no Douro Vinhateiro. Não poderia ousar ambicionar tal coisa, atendendo à baixa forma em que me encontro e da qual me vou libertando aos poucos. Levava sim, o desejo secreto de correr com prazer, algo que não sucedia há muito.

Bai miúda feliz boando... boando tanto quanto pude. Certo é que não me recordo da última vez em que corri 21,198 km como corri no domingo. A chuva miudinha e a temperatura fresca ajudaram. Ajudaram também os sorrisos e palavras de incentivo de amigos, conhecidos e desconhecidos à corredora de lenço de Minhota em substituição do tradicional buff.

Se estou feliz? Claro que estou. Feliz por ter feito sorrir as gentes minhotas. Feliz por ter corrido sem sirenes e outros sinais de alarme do corpo. Feliz por ter feito as pazes com a corrida. Porque ela merece. Tem-me dado mais ela a mim, do que o inverso.

A corrida, como a vida, é assim mesmo. Por vezes é necessário o afastamento para sentir saudades. Só por isto, Biana ficou no coração. As deliciosas bolas de berlim do Zé Natário também o ficaram. No coração e nas coxas.

Bemo-nos na saudosa Lousã. Veijinhos!

sábado, 15 de novembro de 2014

"Truz, truz, cheguei", disse o 39




Acho que já vos tinha dito. Gosto de fazer anos. É sinal que estou viva.

Gostava de fazer anos quando eram só 7 e convidava para a festa de aniversário 2/3 dos meninos da Base Aérea nº 4, nas Lajes, onde vivi quando era criança. Gostei de fazer 10 anos porque cheguei aos 2 dígitos. Gostei de fazer 12 porque pude começar a assistir a quase todos os filmes nas salas de cinema. Gostei de fazer 16 porque assim já poderia conduzir a vespa 50 CC que nunca tive. Gostei de completar 18 anos porque atingi a maioridade (e ganhei uma carta do meu pai debaixo da almofada). Gostei de fazer 25 porque representava um quarto de século. Gostei de fazer 33 porque gosto do algarismo 3 e consegui dois de uma vez. Em suma, sempre consegui encontrar encanto em todas as idades que por mim foram passando.

Tenho uma teoria. Desenvolvi-a nos últimos dias. Para ser mais precisa, ocorreu-me no duche, enquanto o jato de água me despertava de um sono de 7 horas, povoado de sonhos turbulentos. Se hoje completo 39 anos, então a vida começa hoje (depois das 10:30, hora em que nasci) e não no ano que vem.

Passo a explicar.

Todos dizem que a vida começa aos 40. Errado. A vida começa quando completamos 39 anos de existência e entramos no quadragésimo. Completando 39, concluo que já entrei nos 40 e, portanto, a vida começa agora. Hoje mesmo.

Mas então, se assim é, sou obrigada a concordar com a Mafaldinha (sim, a do cartoonista Quino) - se começa agora, porque raio vim a este mundo tantos anos antes? Será que a vida só agora começa? Só agora é que vai ser a valer? Não sei o que me reservará a vida que não me tenha oferecido ainda nestes 39 anos que já passaram.

Nem sempre foi bom, mas foi precisamente por não ter sido sempre bom que soube valorizar quando o foi. Não mudaria nada do que vivi. As alegrias e as tristezas. As conquistas e os fracassos. As certezas e os enganos. As opções tomadas e as não opções, mas resoluções que outros tomaram por mim. Os caminhos desbravados e os caminhos a direito, sem obstáculos. Não mudaria nada. Até a vespa 50 CC que nunca tive. Ainda bem que o meu pai não o permitiu. Também não será o tipo de presente que pretenda oferecer aos meus filhos.

O segredo do meu "sucesso"? Depender de muita coisa para fazer por ser feliz. Sim, muita coisa mesmo.

A família. É com parte dela que escolhi estar neste dia 16 de novembro, a 229 km de casa. A minha querida família. Desde sempre comigo. E para sempre, sei-o bem.

Os amigos. Os com quem joguei ao mata na noites de verão na Serra Algarvia. Os que cresceram com a "canina" no colégio. Os que vieram mais tarde e com quem partilhei os momentos mais desafiantes da vida escolar - os integrais triplos e a transferência de energia e massa no IST. Os com quem partilho o gosto pelos aviões e aeroportos. Os que encontrei por aí, porque a vida assim determinou. E os mais recentes, que partilham o gosto pela corrida.

A corrida. Sim, é verdade. Faz-me feliz e creio que já tinham desconfiado. Trouxe-me muita coisa boa. E levou-me a outras melhores ainda.

O polvo à lagareiro da Zé. O risotto do Di Casa. O cheesecake da Sofia. Os croissants d'A Padaria Portuguesa. O tinto. As framboesas.

Os romances no papel. As gerberas. Os vestidos.

A música. Que bom poder ouvir a M80 e vibrar com temas como "Boys of Summer" ou "Karla with a K". Não vibraria se não contasse já com estes 39 que carrego comigo.

Não me importo de envelhecer. O único problema em "crescer" é que há pessoas que nos levam algum avanço e que crescem também. E não queremos que "cresçam" mais porque, se assim for, terão que nos deixar mais tarde. Mas eles partem e nós também. E fica a saudade. A saudade e a lembrança. E recordar é viver, pelo que continuam vivos. Mesmo que apenas através da lembrança. Ou na moldura lá em casa. Ou na imagem que temos de nós próprios ao volante do primeiro automóvel que conduzimos e que os avós nos presentearam com um laço no capot. Ainda hoje me lembro daquele dia de Natal, em que acordei ainda antes das 8 da manhã e desci para a rua para sintonizar a Rádio Cidade no meu VW Polo azul. O que me levaria a tantos sítios depois. A minha liberdade. Curiosamente, alguns anos mais tarde, viria a descobrir que me bastam duas pernas para dela poder usufruir.

Queridos 39 anos, estes. Agora, para ser perfeito, falta apenas a carta debaixo da almofada do meu pai com os ensinamentos e as recomendações para os próximos 30 anos. Quem sabe lá apareça esta noite.