quarta-feira, 1 de julho de 2015

Serra da Freita depois do Pôr-do-Sol




Uma peregrinação (do latim per agros, isto é, pelos campos) é uma jornada realizada por um devoto de uma dada religião a um lugar considerado sagrado. Com as devidas adaptações, fui peregrina na Serra da Freita. A família representava a minha religião. O lugar sagrado seria a meta, 65 km e muitas horas depois, mergulhada, literalmente, na montanha que podia ser o paraíso que dizem existir depois de sairmos deste mundo. Um sacrifício muito mais prazeroso do que penoso para mim, como sabem.

Acabei de chegar ao abastecimento da Lomba, depois de um maravilhoso mergulho na cascata que o antecede. Pousei a mochila. Mergulhei. Nadei até à cascata. “Caramba, como sou uma pessoa com sorte”, pensei. Demorei-me um pouco. Revigorada, subi os metros que faltavam até ao abastecimento, onde sou simpaticamente recebida. Enquanto mordo meia bifana, surge o primeiro atleta dos 100 km, de seu nome Marcolino Veríssimo. Felicito-o e pergunto: “mas não tomaste banho ali em baixo, pois não?”. O Marcolino responde que sim, e antes também, e que não prescindiria dos banhos que já leva consigo. Sorri e rapidamente caiu por terra a teoria que os “cá de trás” é que se divertem e desfrutam dos trilhos. Afinal, os supersónicos também mergulham. Saiu do abastecimento antes de mim. E eu segui depois o meu caminho. Faltavam 22 km e a fantástica, mas também penosa, subida da Lomba.

Cerca de 11 horas antes, o José Moutinho anunciava a largada para as provas dos 65 e 100 Km, lá longe, em baixo, em Arouca. Uma multidão de gente e garanto desde logo o último lugar. A Júlia Conceição vem ter comigo – logo aqui penalizei fortemente o meu tempo de chegada à meta - e dá-me um beijo de boa sorte. Continuo pela estrada de alcatrão pensando que o mundo anda mesmo todo trocado – ora então a super-atleta vem ter comigo e não o contrário? Obrigada, Júlia! És muito mais querida que a Querida Júlia da TV (e não preciso de conhecer a outra pessoalmente).

Descobri como pode ser diferente a Freita, consoante o São Pedro nos brinde com chuva ou sol. Há um ano, a chuva e as pedras molhadas haviam sido o meu maior calvário. Este ano, não perdi um único charco, tanque, ribeiro, “Sr. Teixeira” ou cascata. Pasmem-se: consegui deitar-me numa levada e garantir um banho quase integral!

Sempre na cauda do pelotão (só passei para o brilhante antepenúltimo lugar, depois dos 35 km), fui partilhando os primeiros quilómetros com a Patrícia, que prescindiu de correr como tão bem sabe fazer, para me acompanhar. Só em Manhouce, já com 35 km de prova, consegui que seguisse o seu caminho. O passo seguinte era a ameaça com os meus bastões, pelo que creio que se pôs em sentido e percebeu que posso ser perigosa.

Mas antes disso, antes de Manhouce, da sua fantástica equipa de voluntários (bem vistas as coisas, não consigo indicar voluntários que não o tenham sido!), do tomate com sal e do café da Carmen, antes disso, escrevia eu, tínhamos vivido 35 km de trilhos variados, marcados por muitas subidas, muitas pedras, as pedras que tanto gosto e que dariam um lindo padrão para vestidos, as pedras que devem ter um nome que desconheço, mas que são em tons de prata e dourado, lindas pedras, e ainda outras pedras… as pedras da Besta.

Não. Não fui eu quem chamou besta à Besta. De resto, foram 65 km sem palavras indignas, sem insultos à montanha ou a mim própria, sem questionar o que ali tinha ido fazer. Creio que os Acordos de Paz se deveriam fazer na Serra da Freita. Impossível sair dali sem uma desmesurada vontade de praticar bem e melhor. Impossível.

Mas falava eu das pedras da Besta. Levava comigo a grande vontade de a subir. Tantas perguntas fiz ao Rui sobre a Besta. “E tenho altura de perna para subir?”, “e escorrega?”, “e posso cair?”, “e está muito exposta ao sol”?, “e se (…)?”. Obtive todas as respostas, 1 hora depois de iniciar a sua subida. Repito. Sessenta minutos para percorrer 1,5 km, pedra após pedra, usando todas as partes do meu corpo – como gostaria de ter um registo fotográfico da minha elevação numa delas, demasiado alta para o curto tamanho das minhas pernas! Se na meta me tivessem apresentado um livro de dedicatórias, teria pedido aos confrades da Confraria Trotamontes que tanto gostam de surpreender todos os anos com as suas inovações, que levassem o que quisessem do UTSF 65 km, mas não a Besta! Deixem-me subir a Besta de novo!




Tinha sido avisada que a subida da Lomba me cansaria mais do que a Besta. Cansou sim, é verdade. Fazendo algumas pausas pelo caminho, ia vendo pela frente o que me faltava, espreitando atrás o que já havia percorrido. Estou cansada, mas o que vejo é tão bonito! O telemóvel dá sinal de alerta. A Ivete do lado de lá, chegando no exato momento para me dar o empurrão que falta. Logo a seguir, chega o segundo atleta, literalmente de elite, o João Oliveira. Pergunto-lhe se é mais difícil do que a Spartathlon e deixa-me com um sorriso, subindo, correndo, Lomba acima.

Depois disso, o caminho começa a ser familiar, com o PR7 debaixo dos pés, a Mizarela desta vez lá longe à esquerda, as vertigens que não tenho habitualmente a darem o ar da sua graça, o trilho que me conduzirá ao Merujal e à sua casa de pedra. Este ano a casa de pedra não representa a meta, mas recebo os aplausos simpáticos de quem lá está, e que me felicita como se fosse a primeira classificada de qualquer coisa fantástica. A medalha e mais aplausos viriam depois, pelas mãos e sorriso da fantástica Flor, em Arouca, 13 km adiante.

Senti saudade dos Incas, dos três pinheiros e depois dos Aztecas, confesso. Mas não eram saudades que quisesse matar. A saudade sabe bem e o UTSF esteve perfeito assim. E ficaram as duas civilizações e as três árvores alinhadas ao topo do monte registadas nas memórias de 2014.

No Merujal recarrego baterias e cruzo-me com um casal que repousa no parque de campismo. Haviam feito a caminhada, esclareceram. Respondo que também fui caminheira, apenas numa distância um pouco mais longa. Coloco o frontal para o que falta, uma viagem com o sol a pôr-se, e os contornos na montanha com definição HD.

Pelo caminho, fui recordando as histórias que já nos escreveram o Rui Pinho e o João Paulo Meixedo sobre a Serra da Freita. As palavras a fazerem sentido. As experiências relatadas agora vividas por mim. Lembrei-me também do texto de um autor cujo nome não me recordava, e que agora sei tratar-se do Miguel Serradas Duarte, escrito em 2013, intitulado “Eu não fiz a Freita, a Freita fez-me a mim”. Não sei o que tinha o Miguel em mente, mas eu não escolheria melhor título para esta minha aventura.

Diz-nos o dicionário da língua portuguesa que fazer significa, entre outras coisas, “dar existência” e “levar alguém a perceber ou sentir algo”. Pois bem. A Serra da Freita deixou em mim um conjunto de sentimentos bons, de sensação de esvaziamento do que não faz bem, de agradecimento. Creio ter sido das minhas mais fantásticas “peregrinações” fora dos “palcos” habituais para o efeito (que nunca usei, confesso), e com a melhor das motivações, que encontrei logo na fase inicial do meu percurso, na manhã de dia 27 de junho.

Mãe, mamã, Zezinha, sendo difícil, porque sou realmente uma “bem equipada mas fraca atleta”, chegar à meta nunca foi tão fácil, por te saber curada.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Susana vai ao engano, perdão, triatlo



Até eu tenho dificuldade em acreditar, mas… estou ali!

A Marta Andrade, que anunciou hoje a sua participação no Triatlo de Oeiras daqui a dias, fez-me lembrar aquela “fatídica” data em Junho de 2012.

Um grupo de amigos desafiava-me para aquilo que eu julgava ser uma brincadeira. Até o nome na altura era… simpático. Triatlo do Ambiente, chamava-se.

Antes da prova dos “supra-sumos”, os triatletas portanto, haveria o “super-sprint”. O super-sprint, enganaram-me eles, era para iniciados como eu. Melhor. Era para quem eventualmente pretendesse iniciar-se na modalidade.

A última vez que tinha nadado fora no Verão anterior. Na praia. Bruços. Para trás e para diante. Sempre ao longo da costa, como mandam as regras.

Nado bruços porque sim. Gosto de nadar crawl mas rapidamente me perco na respiração. Mariposa é o estilo que mais me fascina, mas não dou uma braçada sequer. Costas? Entra-me água no nariz.
Nesse grupo – o Pedro Vicente, o Pedro Quina, a Marta Quina, a Ana Guimarães, o José Guimarães e o Luís Trindade – creio que todos sabiam ao que iam. E depois havia eu.

Um ano se havia passado desde que me iniciara na corrida. Na pior das hipóteses, conseguiria correr como deve de ser. Até nisso me enganei.

300 metros de natação na praia da Torre. Creio ter engolido 456.782 pirolitos. “Jesus, gente bruta”, pensava eu assustada. “Não vêem por onde nadam?!”, continuava. Experimentei todos os estilos. Nadar-à-cão incluído. Vi o bote ao fundo e juro que pensei levantar o braço para me acudirem. E ainda não tinha chegado à primeira bóia. Nem 100 metros, imaginem! Mas continuei. Saí da água ao lado de um velhinho com mais 50 anos do que eu. No mínimo. Chegada ao parque de transição foi fácil localizar a bicicleta. Não porque fosse um estonteante último modelo do mercado – era uma BERG, de 60 euros, se tanto – mas porque só restavam 3. Todos os outros já tinham partido. Os braços tremiam e creio ter demorado mais de 3 minutos para conseguir vestir os calções e fechar o capacete. Seguiam-se 10 km de bicicleta. Felizmente, funcionando como massagem ao ego, consegui ultrapassar alguns atletas. Os pneus da bicicleta tinham pouco ar – nem disso havia tratado – mas lá me esforcei para terminar e chegar rápido ao segmento de corrida – seria “a minha praia”. Iria ultrapassar dezenas de atletas, pensava eu, confiante. De volta ao parque de transição, saio da bicicleta e preparo-me para correr. As pernas não mexem. Parecem dois troncos de árvore com raízes profundas. Raízes fortes e vigorosas. As pernas simplesmente não me obedeciam. Foram os 2,5 km com 0,02 m de D+ mais longos da minha vida. Cheguei ao fim. E nunca mais voltei.

Digo muitas vezes que aquela foi a experiência desportiva que mais me marcou. Deve ser. Três anos depois ainda escrevo sobre ela.

É também por isso que tanto me fascina a modalidade. Fico assim. A observar. Ao vivo. À distância.  Tentar perceber como sabem o caminho a tomar com a cabeça dentro de água. Como saem da água aos “S” e encontram equilíbrio na bicicleta. E correr depois mais rápido do que alguma vez correrei. Há coisas que merecem ficar assim nas prateleiras - fascinantes e… intangíveis.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Plebeia na Prova Rainha do Reino da Dinamarca



Esta não era uma viagem para correr. Era sim uma viagem para passear. Com calma. Era a viagem das três esses em Copenhaga - Sandra, Sofia e Susana.


Acontece que, cerca de três semanas depois de tudo marcado, uma conversa me remeteu para corrida. Corrida levou a maratona, e... "Copenhaga há-de ter uma maratona, pois então", pensei. Fui ver. Se não foi um sinal dos astros, não sei o que terá sido - a maratona acontecia precisamente nos dias em que por lá estava. Sem hesitar, apesar do preço proibitivo, inscrevi-me. Estávamos a 8 semanas do dia "C".


A minha última maratona de estrada havia acontecido em novembro de 2013, no Porto - lá muito longe, portanto. Teria que, em oito semanas, tentar fazer o que pudesse para tornar a experiência o menos sofrida possível. Sofrida porque, como bem sabemos, 42 km em estrada são para fazer sem paragens. Não há momentos de contemplação da paisagem ou pausas para sandwiches de presunto. Isso é lá na montanha, para que não tem pressa como eu.


A maratona não era prioridade nesta viagem. Não era a causa. E por isso, rolando sobre uma bicicleta, procurei que os dias que a antecederam fossem bem recheados - e não falo exclusivamente da gastronomia! A cidade é lindíssima, os seus habitantes muito prestáveis e, contra todas as expectativas, até o São Pedro nos brindou com um sol que já fazia aquecer as costelas sobre a bicicleta. Uma vez mais confirmei que viveria numa cidade onde as duas rodas e os pedais são dos meios de transporte que mais adeptos reúnem.


A história que se segue é efetivamente da maratona. Aquela que designam de Prova Rainha. Curiosamente, cerca de 3 dias antes da data, havia recebido um e-mail da organização, dando conta da possibilidade de associarmos ao nosso BIB NUMBER (vulgo, dorsal) um conjunto de mensagens, que seriam publicadas na página da conta pessoal do FB. A cada 5 km teríamos o controlo (do chip, entenda-se) e nessa mesma altura, seria publicada a referida mensagem. Como adoro escrever e praticar futurologia, acabei por tratar do assunto. Feliz ou infelizmente, ninguém acabou por ser bombardeado com as referidas mensagens que, por erro meu ou da organização - inclino-me para a primeira hipótese, já que, apesar de licenciada em engenharia, tecnologia não é o meu forte - nunca chegaram a ser publicadas.


Como as guardei, e porque fizeram efetivamente sentido - antecipei de forma quase precisa o que me sucedeu na prova - listo-as abaixo, agora com o devido enquadramento.



5 km
Ved langt, så godt!

De facto, 5 kms depois, corria tudo bem e esperava que o google translator fosse uma fonte fidedigna de tradução. O pelotão seguia junto e ainda avistava os balões vermelhos que deveria perseguir, para garantir o tempo de chegada à meta de 4h00. Ligeira brisa a refrescar, anulando um pouco o calor que já se fazia sentir. O do sol e o humano!

10 km
Mais rápida do que a minha própria sombra!

Certa, certinha. 28 minutos para os primeiros 5 km. Outros 28 minutos para os segundos 5 km. Abaixo da 1 hora, portanto, sentindo-me bem. Nesta altura o sol encontrava-se diante de mim, aquecendo-me o rosto, e projetando efetivamente a sombra atrás. Estava de facto mais rápida do que a minha própria sombra!

15 km
Estes dinamarqueses têm pernas demasiado compridas!
Já não vejo o balão das 4 horas!

E não o via, de facto. Aos poucos a dúzia de balões encarnados desapareceu no horizonte. "Daqui a pouco recupero", pensei. Enganei-me. Mas continuei na minha passada certinha. 30 minutos para cada 5 km, apreciando outros dinamarqueses, os que se encontravam na beira dos passeios e ciclovias, apoiando cada corredor como se do mais importante atleta se tratasse.

20 km
Quero uma pasteleira daquelas!

Quero sim. Em outubro de 2012, quando relatei a minha primeira maratona em Amesterdão, já fazia referência à pasteleira preta com selim camel. Três anos se passaram. Acho que está na hora de investir e tentar a sorte nas ruas de Lisboa.

21,198 km
Ainda só fiz metade, na perspetiva do copo meio vazio.
Mas só falta metade, na perspetiva do copo meio cheio!

Meia estava feita e cerca de 1 km depois, oiço um "Susana" familiar. Vozes familiares. Sofia e Sandra, o meu boost inesperado ao km 22, quando as julgava a visitar museus! Que boa surpresa! A média ao km melhorou nos metros seguintes. E o sorriso foi o da foto acima, imagem captada pela objetiva da Sandra na máquina da Sofia!

25 km
Olha, olha... A pequena sereia!
Da última vez que a vi era maior do que eu!

Na realidade, não a vi. Mas como tem 1,29 metros é certo que desta vez estou um pouco mais crescida do que ela. Tenho também mais juízo. Aos 6 anos, quando a visitei, ainda acreditava em histórias de príncipes que resgatavam sereias do mar e que as escamas e caudas eram substituídas por lindos vestidos-balão e sapatinhos de cristal. Essa história já não pega! Mas é boa de ver nos filmes.

30 km
Já era raptada por um simpático viking, levada para um navio dragão, descia o mar Báltico e rumava a Constantinopla!
(bati no "muro", foi o que foi)

2h57m se passaram. Ainda havia luz ao fundo do túnel. Um reforço energético repentino. Quem sabe. Talvez sim. Ou não. Verdade seja dita. Depressa concluí que já não há vikings. A melhor aproximação que tive foi um corredor com t-shirt do Viking Atletik, mas até eu tinha um ar mais robusto. Quando o avistei fugi, não fosse pedir-me para o carregar às costas. 

35 km
Porque não fui simplesmente pedalar por aí?

3h30m. 35 km certinhos. 5 km a cada 30 minutos. Passada constante. Poderia ter ido pedalar, sim. Ou talvez não. Até as ciclovias estavam fechadas a bicicletas nessa manhã em Copenhaga. As gentes da cidade inundaram as ruas, e no que a "barulho" e "incentivo" diz respeito, nada ficam a dever aos Sevilhanos. Se tivesse optado por pedalar teria também perdido a oportunidade de ver os melhores cartazes dos apoiantes: "why are all the cutiest people running away?" e "you are ahead of everyone (who is behind you)"!

Eu que tantas vezes digo que não gosto do meu nome, decidi que chegaria a Lisboa e daria um forte abraço à minha mãe por escolha de nome tão internacional. Até as crianças gritavam entusiasticamente por mim. E que bem que soube ver mãos pequeninas estendidas.

É por esta altura que vejo ultrapassar-me o balão das 4h10m. Confesso que desanimei um pouco. Mas para a frente era o caminho. A meta esperava por mim.

40 km
Vá lá, Susana.
Isto é mais fácil do que subir ao Jardim do Torel!

Creio que aqui me terei enganado nas previsões. Aqueles quilómetros pareciam-me mais difíceis do que todos os outros que já fiz. Mas as coisas não acontecem por acaso e por mim passa um atleta empurrando uma cadeirinha de rodas, proporcionando a experiência da maratona a uma criança com deficiência motora e mental. Nó na garganta. O desânimo associado à perspetiva do resultado menos positivo e às dores que se faziam sentir, perde relevância e desaparece, como que se por vergonha. Oxalá um dia tenha a coragem para viver uma maratona desta forma!

42,195 km
Embora por vezes seja bruxa, desta vez é impossível prever o desfecho.
Mas não preciso dos astros para saber o que aconteceu, caso esta mensagem seja publicada.
Cheguei ao fim!

E cheguei sim. 4h17m depois. Creio que foi o meu pior resultado numa maratona. O meu segredo amplamente divulgado de desejo de baixar das 4:02 na maratona continuará guardado, esperando melhores dias e mais treino, claro. Mas ninguém me tira a Maratona de Copenhaga e a medalha que trouxe comigo.


Maratona. A Prova. A prova de estrada que mais leva de mim e prazer me dá. Tal como uma passagem do Inverno para a Primavera. Renovação, portanto. Deixei partes de Susana naquele asfalto. Não faziam falta. E no dia seguinte nasceram flores no meu cabelo.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Reencontro com a Pérola do Atlântico


Parei e fotografei... o Risco


Começa a história

A noite já caiu, e com ela aterro no Funchal. Um táxi leva-me até ao Machico. Ainda na estrada, vejo-o. Vejo o monte que subi o ano passado, o monte que me fez dar mil voltas, acima e abaixo, debaixo do nevoeiro, sem nada ver, desesperar, ansiar pela meta. Facho é o seu nome. Um ligeiro arrepio, mas feliz por estar de volta.

Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há

Dirijo-me ao secretariado em Machico para levantar o meu dorsal. As meninas da organização entregam-me o material. “Tem aqui tudo o que vai precisar. Não preciso explicar, pois já sabe como é”, diz-me uma simpática madeirense. “Já sei como é? Como sabe que sei?”, pergunto intrigada. “Toda a gente na Madeira leu o seu texto, há um ano”, esclareceu, sorrindo. “Ninguém quer ir correr à noite por causa das bruxas”, acrescentou. Desta vez sorrio eu e esclareço que estou cá este ano precisamente para clarificar esse assunto. “Venho tirar a pratos limpos essa história das bruxas”, respondo. Agarro no meu saco de “atleta” e saio para apanhar os raios de sol que aparecem pela primeira vez nessa manhã.

Contagem decrescente

A imagem de marca por estes dias na Madeira era uma pulseirinha laranja, com chip identificador. Quem a usava, teria oportunidade de frequentar um verdadeiro resort de trilhos de luxo - versão "tudo incluído" nos 115 km, "meia pensão" nos 85 km, "alojamento e pequeno-almoço", nos 40 km e "só alojamento" nos 17 km.  Para alguns, os do regime TI, sábado chegou exatamente pelas 00 horas, com a partida em Porto Moniz para 115 km de trilhos, veredas, levadas e… escadas, muitas escadas. Sete horas mais tarde, os hóspedes em regime MP partiriam para os ondulados 85 km. Três horas mais tarde, pelas 10 horas portanto, seria a minha vez, e a de umas centenas mais, em regime APA, de rumar ao Machico, com partida no Pico do Areeiro. Os hóspedes em regime “só alojamento” sairiam à hora certa para um brunch pelos trilhos, pelas 12 horas, na zona da Portela, a 17 km da meta.

E assim se desenrolou esta peça de teatro, onde a Madeira foi palco, e centenas de atores e atrizes encarnaram as mais variadas personagens, facetas, vivências e experiências. Os felizes e os tristes. Os lúcidos e os alucinados. Houve quem festejasse a vitória, outros conheceram o sabor da derrota. Uns foram conquistadores, outros renderam-se. Uns acreditaram que iam conseguir para minutos depois dizerem que não conseguiam mais. Uns insultaram a montanha para mais tarde a contemplarem com admiração. Para atores e atrizes, esta peça de teatro é de facto inolvidável pela miscelânea de sentimentos que faz despertar. A Madeira não urbanizada é sem dúvida uma ilha de rara beleza e dureza. Mais do que as marcas das sapatilhas nos trilhos, são estes trilhos que deixam marcas em quem os percorre.

Madeira em APA

Embora tivesse hesitado no momento da inscrição, a fraca condição física e a necessidade de ver de dia o que tinha visto há um ano de noite, aquando da prova dos 85 km, levou-me a avançar para o regime “alojamento e pequeno almoço”. São 40 km totalmente invulgares, onde o desnível negativo supera o positivo. Mas desenganem-se… descer não é fácil. As dificuldades fizeram-se sentir ainda a prova ia a meio, com os joelhos a “relinchar” e os quadríceps a gritar “socorro”.
A pequena subida ao Areeiro terá sido seguramente programada pela organização para garantir um adequado aquecimento para o que se seguia. O percurso era-me familiar, ainda que este ano se apresentasse muito mais apetecível. As pernas ainda estavam frescas. A novidade veio com o desvio para o Poiso, permitindo percorrer novos trilhos, alguns em modo “onduladinho”, como tanto gosto. Foi neste troço que fui ultrapassada pelo primeiro atleta dos 115 km, o madeirense Luís Fernandes. Já antevia este momento, apenas não o esperava tão cedo, pelo que, parando no trilho, boquiaberta, exclamei “já?!”. O Luís nem me terá ouvido, pois corria a velocidade a que nunca corri sequer em alcatrão. E segui caminho, em direção ao Poiso, cruzando atletas, turistas e elementos da organização.

A vereda das Funduras

É agora. Chegou o momento. Inicia o percurso da serra das Funduras e pela vereda no interior da floresta Laurissilva. Aqui vivi verdadeiros momentos de alucinação há um ano. Agora vejo pela frente um imenso verde. Um verde que é floresta indígena da Madeira e Património Mundial Natural. Os trilhos são mesmo ao meu gosto, mais uma vez onduladinhos, pontuados de escadinhas aqui e ali. Não resisto e vou parando para tirar algumas fotografias. Alguns atletas ultrapassam-me e eu sorrio. Não há nada para sorrir, devem pensar, mas eu sei bem porque sorrio! “Eu vi bruxas aqui há um ano e os seus braços pareciam querer agarrar-me, percebem?”, dizia eu para comigo, quando passavam. Vejo-me agora num sitio de extrema beleza, onde nada mais sinto do que satisfação em pôr as pernas a mexer. O inferno virou paraíso. Que coisa boa!

O estradão depois das Funduras

Este seria mais um marco da minha aventura. Estava ansiosa por descobrir o que vinha depois das Funduras. Mais uma vez, há um ano, a noite e o nevoeiro cerrado nada me permitira ver, obrigando-me inclusivamente a usar o segundo frontal, como se de uma lanterna se tratasse. Mas pouco ajudou, porque a luz nada mais fazia do que se dispersar no nevoeiro, impossibilitando a visualização das marcações do trilho. Recordo que levei uma eternidade a finalizar aquele percurso, receando o que se esconderia, ora à direita, ora à esquerda, conforme o zigue-zague que a montanha me ia oferecendo. E ali estava ele à vista. Soltei uma valente gargalhada quando me deparei com um interminável estradão, com não menos do que 6 metros de largura. Ai se eu soubesse!

O Risco

O terceiro grande momento da minha tarde de sábado. Deverá ser um dos locais mais fotografados da Madeira e nada mais conseguira do que ouvir o mar lá em baixo em 2014. Uma vez mais parei, desviando-me para não perturbar a passagem dos atletas, que arriscavam no risco, destemidos, para oferecer aos meus olhos aquela que deve ser uma das mais bonitas vistas da Pérola do Atlântico.

A levada que nos leva à meta

Mesmo antes do monte que não iria subir este ano, encontro três elementos da organização e por lá fico um pouco a conversar e a relatar a minha experiência do ano anterior. “Não me digam que tenho que subir de novo esta coisa”, exclamei eu, sabendo que não teria que o fazer. “Não menina. Este ano não é por aí. É mais fácil. É sempre pela levada”, esclareceram. “E onde acaba a levada?”, perguntei divertida, não vendo o fim do vale e antevendo que não teriam “furado” a montanha para fazer passar a levada. “É já ali, é já ali”, responderam, procurando tranquilizar-me. Assim que entrei na levada, não mais parei, num trote muito ligeiro, acreditando que Machico estava próximo e com ele a meta e um merecido mergulho no mar.

A meta

Deixo a levada e entro no prado que já conheço. Mas agora vejo-o e consigo distinguir o trilho que devo pisar. Ao contrário da chuva e do vento que brindaram a minha chegada há um ano, espera-me um sol radioso. Lá em baixo, centenas de pessoas se passeiam e recebem com entusiasmo os atletas. Assim que coloco o primeiro pé no passadiço que me conduzirá à meta, vou recebendo aplausos e palavras de incentivo. Serpenteio por entre alguns dos transeuntes, não conseguindo evitar umas quantas lágrimas e o queixo a tremer.

Os aplausos, este ano também do Rui, há um ano à distância de um telemóvel

Era de noite. Hoje é de dia. Não se via vivalma. Hoje vejo tanta gente! O vento havia destruído o pórtico. Hoje está à minha espera, e diz-me que passaram 6 horas e 33 minutos desde que parti de manhã.

Fazer estes 40 km em 2015 foi das mais brilhantes decisões que tomei. Agora sei onde pisei. Agora, porque sei, poderei, se assim desejar, voltar para saborear o sentimento de superação vivido em 2014.

Digo muitas vezes que há a Susana antes dos 85 km da Madeira e a Susana depois deles. E o regresso este ano só veio comprovar isso mesmo. A Madeira deixou a sua marca e voltarei ali para (per)correr… os quilómetros que o corpo permitir.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Maraturista em Vila de Rei


(texto redigido originalmente para o JN Running)

Há dois anos consegui o meu primeiro pódio na classificação geral – terceiro lugar nos 60+ em Vila de Rei. Nada de “hip hip hurrays”, por favor. Éramos três senhoras na prova de maior distância. Uma vitória anunciada, portanto.
Foi também há dois anos que conheci o Paulo Garcia, um dos principais motores da Organização Horizontes, e quem me deu a conhecer o conceito de “maraturista” (adaptação de maratonista), o qual não poderá encontrar melhor personificação do que eu própria. Sim, perdoem-me a imodéstia, mas acredito que sou uma verdadeira turista na montanha. Maraturista, porque sempre que posso e consigo, corro um bocadito.
Sábado foi tempo de voltar ao Picoto da Milriça. O “meiomaismeionãohá” de Portugal Continental. Se desenhassem uma cruz sobre o nosso País, o cruzamento seria o centro geodésico, mais coisa, menos coisa. Esse centro fica em Vila de Rei. Antes de lá chegar percorri 3 km. Depois, e para chegar à meta, mais 64 km. Estou certa que nenhum GPS, Google Maps ou qualquer outra tecnologia conhece este percurso e o oferece como alternativa “otimizada” aos seus utilizadores, para regressar ao ponto de partida. Nestas coisas da montanha, o léxico tem muitas particularidades.
Todos estarão recordados da grande prosa que nos escreveu aqui o Rui Pinho, há precisamente uma semana, depois da sua aventura dos 118 km no Sicó. Se dúvidas ainda tivesse quanto ao sentido das suas palavras, ontem tê-las-ia dissipado. Amei e odiei o trail. Morri e renasci dezenas de vezes. Viajei ao meu interior, com todas as revelações mais ou menos boas de mim mesma. Vivi a descoberta de reservas de energia que desconhecia existirem. Ouvi a palavra amiga, que por vezes me acariciou como mimo e noutras me fez querer exclamar “deixa-me em paz”. Como nos contava o Rui, somos nós no nosso mundo. Vamos de crianças a velhos num ápice. E fui tudo isso. A criança que, contrariada, chorava, para depois rir vigorosamente, resultado de um mergulho na cascata do Penedo Furado. Mas sobretudo fui uma velhinha, procurando forças onde já não existiam, como se repente os meus 39 anos virassem 89. E dos 89 renasci para os 20, debaixo de um céu estrelado e lua cheia, um teto em forma de mar de estrelas, onde parece que mergulhava. Vontade de desligar a luz do frontal para melhor o apreciar.
O prenúncio de Primavera no início da semana prometia um sábado fantástico. As promessas de São Pedro não saíram defraudadas – o protetor solar teve mesmo que sair da gaveta. O buff na cabeça teve que ser rapidamente substituído pelo boné, para proteger o rosto já de si franzido, reação à contrariedade imposta ao resto do corpo, demasiado exigente para o que as pernas conseguiam oferecer.
Depois de atingir o Picoto da Milriça aos 3 km de prova, veio a visão daquilo que sabia que iria encontrar cerca de 35 km adiante. Antes de lá chegar seria ainda presenteada com uns deliciosos nacos de melão no Aivado e, alguns quilómetros depois, nas Trutas, gomos de tomate com sal, o melhor hidratante natural que conheço. Mas a visão da cascata continuava a pairar, avolumando-se quando começaram a surgir os primeiros riachos e cursos de água, onde alegremente molhava os pés, mergulhava as pernas e refrescava o rosto. Entro finalmente na zona das Bufareiras, que oferece um enquadramento maciço rochoso extraordinário, pontuado de diversas cascatas. E ali estava ela. A cascata do Penedo Furado. A última que antecedia a subida em direção à praia fluvial com o mesmo nome.
Cascata do Penedo Furado
“São só 5 minutos, prometo”, disse eu ao Rui. Há dois anos ainda me havia descalçado e retirado as meias. No sábado já não havia tempo para esses detalhes. Como vinha com o corpo quente, mergulhei calmamente as pernas dentro daquela água cristalina e gelada. O meu assistente de reportagem nem um dedo pôs na água. Tirou a mochila e dorsal, e tal como eu previa, lançou-se num mergulho olímpico naquela lagoa azul. Com tamanho incentivo, mais todos os salpicos que me molharam, entre 50 gritos que se terão feito ouvir por todo o vale do Zêzere, mergulhei também e ofereci ao meu corpo uma revigorante sessão de crioterapia. A alma essa, encheu-se com o graal que buscava desde o km 1.
Não fosse o sentimento de necessidade de concluir toda a jornada, confesso que poderia ter terminado a minha aventura por ali. Queria aquele mergulho. Dei o mergulho. Estava feliz. Mas nestas coisas da montanha, por mais que o corpo nos diga que quer descansar, há um qualquer desafio da mente que nos empurra para diante e que teima em dizer que a aventura deve terminar na meta. Mesmo que custe um pedacinho. Ou mais que um pedacinho.
E assim foi. Do Penedo Furado a Água Formosa e às suas casas de xisto, serpenteamos ribeiros que ecoavam pelos vales. Nas margens viam-se antigas minas de exploração de ouro (conheiras) e evidentes vestígios de povoamentos de outrora. Quais garimpeiros, descobrimos ouro ao chegarmos ao abastecimento dentro do tempo limite, devidamente recompensados por uma saborosa sopa de feijão. Uma taça não chegou. Duas foram precisas para recarregar as pilhas, já há muito com o “red alert” e ameaçando vigorosamente o “power off”.
48 km estavam feitos. Seguimos para os 19 km que faltavam. Chegámos a Poios, último abastecimento, de frontal ligado, e rapidamente nos pusemos a caminho para o Trilho das Cascatas, ouvindo o som relaxante da água a precipitar-se de poço em poço. A grande escarpa lá estava. Não saiu do lugar em dois anos, mas está agora dotada de cordas para se escalar em maior segurança. Um pouco acima, avistamos a EN 2 e um carro abranda vendo as luzes dos nossos frontais. “Força”, gritam lá do alto, e com mais forças me sinto para os 2 km que nos faltam.
“Está mesmo quase”, penso. Recuo dois anos e imagino a Inês e o Diogo a brincar junto à linha da meta esperando orgulhosamente a mãe, a derradeira de três atletas femininas.
Um dia depois, sinto o corpo mal tratado, mas o coração cheio. A visão romancista do texto do Rui relativamente às aventuras na montanha justifica tudo o que vivemos e a procura de o reviver. Hoje dei comigo a pensar numa visão menos romanceada. Estou para a montanha como os homens anafados e desengonçados dos jogos “solteiros e casados” de domingo estão para o futebol. Sabem que estão mal preparados fisicamente, vão castigar o corpo durante aquela hora de jogo com os amigos, sofrerão um pouco, mas no final… no final estarão muito mais satisfeitos, prontos para enfrentar a semana e ansiando pelo empeno do fim-de-semana seguinte.
A versão mais científica deste fenómeno é a que nos dá o Victor Hugo Teixeira, no seu amplamente divulgado vídeo youtube, sobre nutrição no desporto. O desporto não é saudável. Desidrata. Inflama. Oxida. A recuperação do exercício, essa sim, é saudável e torna-nos mais fortes. E digam-me então – queremos ou não queremos ser fortes?
Fotos: Paulo César Borges

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A serra, uns dias depois



(Eu, na Cascata Abútrica)

és tão linda e melhor designação não te poderia ter dado o José Moutinho, tu Lousã, a terra do petróleo verde, já somos ricos, é o que é, ai não que não somos ricos,
és tão linda e já cá venho pela terceira vez, duas vezes na versão curta, no ano passado a versão longa, mas mesmo as experiências curtas são sempre demoradas, ai não que não são demoradas,
és tão linda, mesmo com chuva, vento, granizo e frio, lindos é que não nos deixas, encharcados e enlameados até à raiz dos cabelos, ai não que não nos deixas
és tão linda em todo o lado, mas tão linda mesmo depois da Nossa Srª da Piedade, já te vou conhecendo de cor, aquele sobe-sobe que não pára, tento andar mais depressa, ai não que não tento,
és tão linda, e quero vir cá com tempo quente, aproveitar estas cascatas, ai que fresquinho, os músculos vão gostar, ai não que não vão gostar,
és tão linda, e melhor que chegar ao fim é o percurso que faço até lá chegar, não fosse isso não fazia sentido, e para o ano (ou mesmo antes) cá estarei, ai não que não estarei.



[baseado num texto sobre amores e desamores de Pedro Chagas Freitas, “ai não que não (qualquer coisa)”]

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Olá Lousã, que não me (des)cansas

(foto: João Pena Rebelo, a caminho de Gondramaz)

Há cerca de duas semanas que não pensava noutra coisa - que vontade de regressar à Lousã!
Esta seria a terceira participação nos Abutres. Em 2013 a estreia, nos então 23 km, e a minha terceira experiência na montanha. Em 2014, o ano passado portanto, tentei ir mais longe. Concluí os 47 km, já bem depois do cair da noite e com muito nevoeiro à mistura. Quase garanti o último lugar. Pouco faltou.

O dia 31 de janeiro de 2015 foi dia de regressar, depois de falhada a oportunidade de correr em outubro no UTAX, também na Lousã. Correram a Inês e Diogo por mim e foi igualmente fantástico. Desta vez, e à última hora, fiz "downgrade" para a prova de 25 km. Os treinos quase inexistentes e a condição física impossibilitariam seguramente a chegada com sucesso à meta.

O meu objetivo último era conseguir chegar à hora certa para tomar o antibiótico que, propositadamente, não levei comigo. Assim teria uma motivação extra para fazer algo que tão difícil é para mim conseguir concretizar - despachar-me!

Partida adiada

Depois de uma noite onde a chuva e o vento se fizeram escutar através das portadas de madeira das janelas do Quintal de Além do Ribeiro  (recomendo a visita), a organização decide adiar a partida das duas provas. A mensagem de alerta chegou já tomávamos o pequeno almoço. Não protestámos e regressámos para dormir mais um pouco, já de barriguinha cheia.

O sol lá apareceu por detrás das nuvens e abrilhantou a partida da ultra (50 km) e 30 minutos mais tarde da prova de 25 km. Muitos se estreavam numa prova de trilhos. Espero que não desistam deles, depois das várias provações que tiveram que entrentar. A montanha, na maioria das vezes, é mais meiga.

A Lousã não estava para brincadeiras. Ou, se calhar, até estava... muito brincalhona!

Despe-veste-despe o corta-vento. Rapidamente percebo que é mais prudente mantê-lo vestido. Vem a chuva miudinha. Depois as gotas gordas. Granizo. Muitos engarrafamentos, fruto da grande quantidade de atletas para um percurso pontuado de single tracks com obstáculos de natureza vária. Alguns ainda vão tentando fugir à água e lama. Nessas alturas escolho a opção mais descongestionada, até porque sei que chegará o momento em que não poderei fugir nem de uma, nem de outra. Ainda assim, nem as minhas piores previsões poderiam ter estimado algo assim. Verdadeiros banhos de lama, seguidos de charcos de água que garantiam, pelo menos, uma adequada "lavagem dos rodados". Por várias vezes penso que havia tomado a opção sensata - já teria "morrido" três vezes se tivesse seguido para os 50 km.

Uma coisa é certa. Ninguém poderia ir ao engano. Depois de anunciados os padrinhos da prova - José Moutinho e Flor Madureira - só poderíamos esperar dificuldades... e outras coisas!

Três aleluias à Nossa Srª da Piedade

"O ano passado cheguei bem mais cansada aqui", penso para comigo. Chego ao primeiro abastecimento aos 9 km, lavo as mãos, agarro em dois gomos de laranja e num quadrado de marmelada e sigo caminho. Sei que agora vou subir muito. Partes de rocha e pedra escorregadia junto a cursos de água e "escalada" que vai exigir forca das pernas e braços - este ano, depois do engano de 2014, dispensei os bastões e foi o melhor que fiz. Apesar de tudo, dúvidas não tenho - rumaria à Lousã todos os fins-de-semana só para poder percorrer este trilho.

Aquecer as mãos em Gondramaz

Embora este ano a chegada a Gondramaz se tenha feito por um percurso alternativo ao dos anos anteriores, não pude deixar de recordar a experiência de 2014 e aqueles minutos que antecederam a chegada aquela simpática Aldeia de Xisto. Não seríamos mais de 4 corredores e os vassouras, e lá do alto, elementos da organização gritavam que nos apressássemos pois estávamos no limite do tempo de corte. São momentos como aquele, de alegria, superação e partilha, que ficam registados no meu "diário da vida", deixam saudades e com vontade de regressar à montanha.

"Este ano chegou mais cedo", exclama divertida uma das simpáticas meninas da organização, que aparentemente não esqueceu o meu rosto. "É verdade", respondo, "mas este ano estou na prova mais curta", esclareço. Peço ajuda para me abrirem a mochila e retirarem a caneca, pois não sinto as mãos. Enchem-me a caneca de sopa e aguardo um pouco antes de a beber - quero voltar a sentir os dedos!

"Então e bifanas, não há? O ano passado tinham bifanas!", protesto eu. "Ainda estão a fazer, menina", respondem. Ora tudo o que eu menos esperava era sentir que tinha chegado demasiado cedo! Eu que já estava na cauda do pelotão e a ser ultrapassada por atletas dos 50!

Ai como se respira bem por aqui!

Saio de Gondramaz e faço uma grande parte do percurso sozinha. Gosto disso. Gosto muito. A Susana e os trilhos. A sopa ter-me-á feito bem, pois sigo energizada, percorrendo o percurso que no ano anterior havia feito de noite, com muita dificuldade em progredir, atendendo ao espesso nevoeiro que se misturava com a luz do frontal. Agora, porque o vejo, posso usufruir verdadeiramente do trilho.


Vou dando passagem aos rapidíssimos dos 50. Por vezes encosto e outras páro para que possam passar em segurança. Um dos super-atletas pergunta se preciso de ajuda. "Obrigada! Estou mesmo à espera que passes para não atrapalhar!", respondo.

Concluo que a montanha mata vírus. A infeção das vias respiratórias superiores que me atormentava desde o final da semana anterior parece dar tréguas. A tosse já não se faz ouvir. Por vezes o ar custa a passar, mas quanto mais subo, melhor me sinto.

Inês e Diogo, isto é tudo o que a mamã deseja que não façam, está bem?

Aquele banho de lama que nos espera depois de Espinho, já perto do final, custaria 500.000 euros num qualquer SPA luxuoso da capital. Lama por todo o lado. Pisei lama. Enterrei-me na lama. Comi lama. Saplicos de lama a voar por todo o lado. Uns caem. Outros riem-se. Todos perderam a "pressa" que levavam.

É neste momento que sou ultrapassada pela Ester Alves, a primeira senhora da prova dos 50 km. Saiu 30 minutos antes de mim e leva o dobro dos km nas pernas. Não sei se me deva envergonhar. Talvez não. Talvez deva aceitar que uns treinam para serem excelentes atletas. Outros, como eu, não treinam para serem excelentes atletas, nem tão pouco atletas medianos. Vou andando pela montanha desta forma. Andando, literalmente. Talvez seja esta a forma que me permitirá manter até mais tarde por estes trilhos que tanto bem me trazem.

Trouxe o par!

Chego à meta quase com 6 horas de prova e bem para lá da hora de toma do antibiótico. Recolho a minha sapatilha dos 25 km, que assim se junta à dos 47 km de 2014. Curiosamente, não fosse a diferença de "tamanhos", formariam precisamente um par! Gosto mesmo daquelas sapatilhas. São o único prémio de provas de corrida em que participei que merecem um lugar numa das mesinhas da minha sala.


Parabéns a todos aqueles que se meteram a caminho. Chegando ou não ao fim, a Lousã apresentou-se dura a cada metro que nos ofereceu. Mais do que uma prova para as pernas, foi seguramente um teste a tantas cabeças obstinadas que por lá andaram.