quarta-feira, 14 de outubro de 2015

40 dias para os 40



A 8 de outubro começou o evento “faltam 40 dias para os 40”.

Sempre fui miúda de festas.

Bem cedo, ainda novinha, convidava todos os meninos e meninas da Base das Lages para comigo apagarem as velas. Mais tarde, suplicava (não era preciso suplicar muito) à minha mãe que cozinhasse verdadeiros banquetes para os amigos que recebia em casa – primeiro os do colégio, depois os da faculdade. 

Já “crescida” (madura, talvez, porque nunca cresci grande coisa), comecei eu a tratar da logística. Umas vezes em casa, outras fora.

Gosto de fazer anos e de os celebrar. Sinal que estou viva e de boa saúde.

Andei meses a pensar como iria comemorar a entrada nos 40. Sim, também sou pessoa de muito e antecipado planeamento. Pensei que enveredaria pela forma mais tradicional – juntar todos os amigos, num espaço suficientemente grande, pois há muita gente de quem gosto (e aposto que gosta de mim). Se encontrar um espaço seria fácil, mais difícil seria ter todo o tempo que gostaria para dedicar a quem gosto.

E então lembrei-me.

Recuei no calendário 40 dias e decidi que iniciaria assim o processo de celebração, em diferentes dias, diferentes momentos, diferentes pessoas, diferentes experiências. Uma espécie de celebração cigana, mas antecedendo a data festiva.

Porque tenho que fazer isto (e ver quem quero) antes de iniciar a vida que então começará. É o que dizem, certo? Que a vida começa aos 40. Então vamos lá fechar esta (vida) com alegria. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Por muito que corramos, nunca correremos tanto quanto eles

(texto originalmente publicado no JN Running)






Azahar, Erica, Enebro, Éon, Era, Espiga, Fado, Fresa, Fresco, Drago, Fauno, Foco, Calabacín, Biznaga, Flora, Fruta, Castañuela, Artemisa, Juromenha, Jabugo, Jacarandá, Katmandú, Kentaro, Kahn e tantos outros. Olhos de gato amarelos-esverdeados, “colar de pelo” que mais parece juba de leão, manchas de leopardo.

Assim é o lince ibérico. Assim o são todos aqueles que enunciei acima e já passaram pelos 5 Centros de Reprodução do Lince Ibérico, localizados em Espanha e Portugal.

Em 2002 a população deste felino estava no limiar da extinção, ocupando a categoria que é considerada a “ante-sala” da extinção de uma espécie na natureza. Em Portugal, não se via um único lince na natureza desde o início da década de 90.

O lince ibérico não está livre de perigo e integra ainda a lista de espécies ameaçadas do planeta, mas o sentimento de quem se lhes dedica é de confiança. Depois de assinado o “Acordo entre Portugal e Espanha para a Criação em Cativeiro do Lince Ibérico”, que constituiu a base para a participação de Portugal no programa de reprodução em cativeiro, Espanha passou a ceder exemplares para a respetiva reprodução em cativeiro no Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), a funcionar na Herdade das Santinhas, em Silves.

O I Trail do Lince, que se realizou a 12 de setembro em pleno coração da Serra Algarvia em Silves, foi o primeiro de muitos que lhe seguirão, seguramente. Trata-se de um projeto que pretende aliar o desporto à defesa deste bonito felino, sendo que o propósito da organização é alargar o projeto à escala ibérica, já em 2016.

Por cada inscrição no Trail do Lince foram entregues dois euros ao World Wide Fund for Nature (WWF) e ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), apoiando assim a preservação do único grande mamífero carnívoro endémico da Península Ibérica atualmente em perigo.

Com um percurso traçado pela associação Algarve Trail Running (ATR), a prova apresentou-se em três modalidades – trail longo (42 km), trail curto (10 km) e caminhada (10 km) – e reuniu cerca de 300 participantes.

Mais coisa, menos coisa, foram 600 pés a seguir as pegadas do lince, a disfrutar da sossegada Serra Algarvia, a beneficiar do cuidado dos elementos da organização e da simpatia das gentes daquelas paragens - bombeiros e locais, pouco habituados a tanto frenesim, quase exclusivo do litoral algarvio.

Num percurso muito bem marcado, com partes coincidentes com a bonita Via Algarviana (confirmado o meu desejo de a percorrer, de “lés-a-lés”), fomos brindados ora com a sombra proporcionada por eucaliptos e pinheiros nos vales, ora pelo sol que já fazia anunciar um dia quente, enquanto calcorreávamos bonitos estradões na cumeada dos cerros – verdadeiras “chapas” HD a 360º, com horizonte a perder de vista. Foram precisos 30 km para avistarmos as primeiras habitações e ouvir outro som que não fosse o do cantar das cigarras.

A título pessoal, guardarei as imagens de locais que me viram crescer e brincar, a presença do meu pai, que seguindo a sua “cria”, me foi surpreendendo com os seus mimos em diversas partes do percurso e a companhia do António, que prescindiu de seguir o seu caminho mais rápido, dizendo que esta seria uma “experiência diferente”, a de ir “corrandando” pelo trilho (e assim garantiu, naturalmente, o último lugar da classificação geral).

Guardarei também a deliciosa experiência de conseguir o meu melhor e pior resultado de sempre – 3ª e última classificada geral feminina, garantindo-me assim a subida a um pódio que já havia sido atribuído às duas primeiras atletas, alguns minutos antes, com os mesmos aplausos que os primeiríssimos recebem, mas palavras ainda mais carinhosas – porque sim, porque ser (e saber ser) último também exige trabalho.

No sábado passado, os 300 participantes que estiveram na Serra Algarvia “vestiram a pele” dos cerca de 11 linces ibéricos em Portugal a usufruir da liberdade na natureza. Até ao final do ano mais lhes seguirão as passadas. Por muito que corramos, nunca correremos tanto quanto eles. Os dois manos Kentaro e Kahn, libertados há 8 meses no centro de Espanha, percorreram mais de 2.500 km, tendo um seguido para Norte, passeando-se por terras do Douro e outro para o Sul de Portugal, numa viagem épica de duatlo, que incluiu o atravessamento a nado da barragem do Alqueva.

Só este ano o CNRLI já viu nascer 13 crias. Se a reprodução é um sucesso, já a reintrodução desta espécie na natureza apresenta enormes desafios. O nosso desejo é de voltar aqui, daqui a uma década, depois de mais uma edição do Trail do Lince, e podermos escrever que foi retirada a classificação “em perigo” aos exuberantes linces ibéricos.





terça-feira, 1 de setembro de 2015

Lisboa, temporada 3

ilustração: Desenhador do Quotidiano

Lisboa, temporada 3. A sequela da temporada 1 e 2, que já escrevi por aqui.

O primeiro dia do mês é sempre um bom dia para a tomada de decisões. Mais ainda quando se trata do primeiro dia do típico mês de regresso a qualquer coisa - à escola, ao trabalho, à rotina diária sem folgas ou sestas.

Por isso, no dia 1, calço as sapatilhas, saio de casa e desço a avenida do aviador até ao Campo Pequeno, acreditando que sou tão veloz quanto o Louie Zamperini retratado por Laura Hillenbrand – o livro das férias que me obrigou a secar muitas lágrimas nos bordos da toalha de praia. Agora, como estou a ler “A filha do capitão”, do José Rodrigues dos Santos, olho para os rapazes que jogam futebol de 5 no court e recordo que por ali, sem redes ou piso adequado, já outros rapazes correram atrás de uma bola e ainda não se falava em touradas. Vou-me obrigar a não falar de touradas, porque terei que ir buscar os kleenex (já não tenho comigo a toalha de praia) e porque é de facto um fenómeno atroz que não entendo. Tanta coisa que não entendo.

Sigo pela avenida de República, passo frente ao Galeto e penso nas tostas de bife com cebola caramelizada. Depressa me lembro de uma das resoluções do dia 1, largo a imagem e sabor da tosta na esplanada e sigo caminho. O Saldanha está mais bonito. Brutal, como tantos dizem. Oxalá o dia 1 traga consigo uma nova palavra da moda. Detesto “brutal” por ser uma palavra… bruta. Posso sugerir? Sensacional, incrível, estonteante, impressionante, eletrizante, fenomenal, fabuloso, espantoso, formidável, maravilhoso, surpreendente, esplêndido, notável, extraordinário, excecional. Ena, tanta palavra bonita!

Desço a Fontes Pereira de Melo, chego ao banzé do Marquês de Pombal. Cuidado, muito cuidado, Susana. Mais de 500 acidentes em 3 dias, registados pela operação de fim de época estival da GNR. Os números de feridos graves e mortos eram tão absurdamente assustadores, que eliminei dos meus registos. Que raio de gente ao volante neste País. Que giro, se escrevesse “deste”, a afirmação assumiria contornos totalmente diferentes. Mas também não vou falar de política.

Inicio a descida da avenida da Liberdade. Como sempre, os vestidos e malas que não poderei comprar. E, também como sempre, a importância disso é nenhuma. Ao lado do passeio onde corro, a ciclovia que há tempos percorri e mais parecia o mar alto sem amortecimento. Mas lá está. Os que ali fazem compras não se passeiam de pasteleira, por isso, porquê consertar?

Rocio. Sim, à moda do antigamente. Porque antigamente havia por ali os “água vai”, mas também passeavam carroças com cavalos e senhoras com vestidos compridos, chapéus e sombrinhas. E tomar café na esplanada era ritual de luxo. De gente com tempo. Hoje tomamos “bicas” à meia dúzia por dia. E engolimos em dois tragos porque não temos tempo a perder. Quero o Rocio em vez do Rossio, pode ser?

Cais das Colunas. Antes desembarcavam chefes de Estado, caminhando elegantemente sobre as pedras de mármore. Gente importante. Agora… agora vem gente não menos importante, apressadamente, balançando em cacilheiros, com as mordomias que o valor do passe mensal oferece. Nenhuma que não seja a de atravessar para um e outro lado. Mas podem contemplar o rio. Bem bom.

A minha viagem chega a meio. Agora há que voltar para trás. Subir tudo o que desci. E procurar sentido nas palavras de Ludwig Wittgenstein que o José Rodrigues dos Santos escolheu para arrancar a sua história. “O sentido do mundo emerge fora do mundo. No mundo tudo é como é e acontece como acontece”. Prefiro não pensar assim. Afinal, teremos algum propósito nesta vida que irá para além de garantirmos a nossa exclusiva felicidade, certo?

No final, quando tudo parecer demasiado complicado, façamos como nos canta a pequena Paula Bélier – “la vie c'est plus marrant, c'est moins désespérant, en chantant”. Se não viram o filme (La Famille Bélier), vão ver.

Setembro, “o Maio do Outono”. Existirá alguém que não fique feliz com a sua chegada?

Bem-vindo Setembro!


terça-feira, 28 de julho de 2015

Suspiros e muitos "ais" no Monte da Lua

(texto originalmente publicado no JN Running, com título "De Mãos Dadas até Tocar na Lua")




“Mais do que a dor, é a beleza que me faz chorar”. Li estas palavras um dia depois dos 28 km do Monte da Lua, em Sintra. A frase da escritora Maria Teresa Horta titulou os pensamentos que me assolaram bem lá no alto, quando recuperava o fôlego, depois de mais uma arriba subida, já depois de ter descido outra, com as falésias e o Oceano Atlântico como pano de fundo. Aos meus pés milhares de chorões cobriam as falésias que se estendem desde antes do Cabo da Roca, até à Praia das Maçãs, onde a meta me esperava. Chorões carnudos. Isso. Um só se terá instalado ali há muito tempo, mas tanto chorou perante tamanha beleza, que depressa se multiplicou nos muitos milhares que por lá moram agora. Sim, a beleza faz mesmo chorar mais do que a dor.
Sabes no que pensei, Rui? “Caramba, já devia ter vindo aqui pelo menos duas vezes. Uma vez para conhecer, a segunda para percorrer estes trilhos com o Rui”.
E assim foi. 28 km por caminhos que praticamente desconhecia. A vertente Norte da Serra de Sintra que ainda permanecia por calcorrear e que não só me ofereceu um banho turco com níveis de humidade que deveriam atingir os 80% e o cheiro a eucalipto que quase embriagava, como também um tratamento com terra molhada num fantástico downhill, que fez subir os níveis de confiança e apressar a passada da corrida, destemida, feliz. Caramba, que prazer me deu. Também passaste por lá depois, e muito mais viste do que eu. Fala-me disso tudo. Dos 26 km que não fiz, da Quinta da Regaleira e da Quinta do Relógio. Do Castelo dos Mouros. E das pedras que dão nome à prova e que brilham ao luar. Fala-me Rui, fala-nos disso tudo, que não queremos perder pitada. E em 2016 lá estaremos todos, para viver uma história como hoje vais contar.
“A Xintra (com “x”, porque os árabes não pronunciam o “S”) que encantou os mouros, que por sua vez encantaram Sintra, tem estórias por todos os seus recantos. A sua história começou a ser escrita há milhões de anos, quando ainda era um vulcão, e cuja lava foi desenhando socalcos até aos pontos mais baixos da serra. A ocidente a crista mergulha abruptamente no fundo do mar, deixando atrás, entrelaçada arborização rematada por arribas e falésias.
Os mouros, encantados com as pedras “barâd” (fosforescentes), que brilhavam na noite, chamaram-lhe monte da Lua, pelo efeito luminoso refletido na constante bruma que a cobria. O ônix, considerado por persas e hindus como protetor contra as más vibrações, o âmbar de primeira qualidade, semelhante ao melhor do mundo – o “xajari” da Índia – e todas as grutas subterrâneas que adensam mistérios, lendas e fábulas, dão a Sintra uma áurea misteriosa e encantada.

Da Praia das Maçãs à Vila, sim, foi um banho turco. Humidade elevada, tão elevada, que quando passávamos de alguma zona exposta ao sol para a sombra da densa arborização, víamos água a pingar no trilho. Subir a encosta de Colares, tentado descobrir onde teriam vivido os monges, que para ali iam viver do que a terra lhes dava. Depois veio Sintra, e a sua história, de reis e rainhas e gente que se rendeu à sua beleza. Na Quinta do Relógio há um sobreiro coberto de fetos, há lagos cobertos de nenúfares e há recantos com bancos de pedra trabalhada. Há história talhada nas paredes do edifício abandonado em obras de restauro. Os palácios de outrora, hoje contadores de lendas românticas, montras de excentricidade desenhada por caprichos milionários, cujo expoente máximo é a Quinta da Regaleira, onde mergulhamos no poço iniciático e serpenteamos anjos de pedra e árvores centenárias e turistas, surpreendidos por gente a correr num cenário onde tudo convida a deter. Ali ao lado, lá no cimo, esperava-nos o Castelo dos Mouros. Fomos por onde só havia gente a escalar. E pingava humidade. Atletas que se perdiam voltavam ao trajeto a sorrir. Cheirava a madeira molhada. Todas as árvores transpiravam. E nós, encharcados com tamanha beleza, mergulhados no suor da subida, inebriados por toda aquela selva magnificente, bebíamos história sem o saber.
D. Afonso Henriques, quando conquistou Sintra aos mouros, deu-lhes tempo para se renderem. Chegado ao castelo não encontrou vivalma. Há todo um conjunto de túneis que levam para bem longe dali. O conquistador não sabia, mas há por baixo da Serra grutas e rios que ligam o alto até à Lagoa Azul ou a Rio de Mouro. E assim nasceu uma lenda. E outras lendas nasceram destas secretas passagens, sendo a mais conhecida a da “Moura dos Sete Ais” (Seteais), que deu sete suspiros por um cavaleiro cristão que a deteve quando tentava fugir com outros mouros por uma porta secreta do castelo.
Mas mais que 7 “Ais” havíamos de dar no que ainda vinha de prova. Um serpenteado de trilhos a descer e a subir, de cortar a respiração pelo que exigiam de esforço, e principalmente pela beleza e paz que induzem. Um troço de 12 km que culminou com uma subida a pique e sob sol abrasador ao ponto mais alto da prova, a Peninha, donde se avista o fim da terra e o início do mar. “Paraíso Terreal”, constava no título do acordo que Ibne Arrique firmou nesta confluência de maravilhas da natureza e onde o homem deveria coabitar em paz. Vista dali, da Peninha, percebe-se que não haja quem queira desembainhar uma espada numa serra que alberga tanta vida. E desaguamos também nós, os dos 52 (53, 54?) como vós, os dos 26 (27, 28?), por um trilho onde voltava a pingar humidade das árvores entrelaçadas, que nos protegiam do calor vespertino.
Chegados então ao ponto onde a beleza faz chorar mais do que a dor, como tão bem descreves, foi sim, esse desenrolar de trilhos arriba e abaixo junto a uma costa que nos faz sentar e contemplar.
Estranho, Susana, não é que não tenhas sido tu a mostrar-me tudo aquilo. Estranho é que o Mundo não possa desfrutar de tudo aquilo, de toda a beleza de uma Sintra encantadora e que a Horizontes nos serviu. Estranho é que as autoridades não deixem realizar esta prova nos meses em que é impossível fazer trail nas Serras mais altas da Europa, e onde Portugal devia e podia ser o refúgio de muitos. Mas Sintra, onde se acarinham filmagens de novos modelos de automóveis – vedando acessos onde as realizava, em pleno Parque Natural -, não permite a realização desta mesma prova no Inverno, quando seria mais fácil atrair gente de outras paragens. Estranho.
Fica a memória de uma prova única. Equilibrada, com largas zonas para correr, excelentes trilhos para sofrer e arribas de cortar a respiração. Início belíssimo e fim a condizer, numa praia famosa pelas suas enormes maçãs, e onde o que mais importa é mesmo o trail. Não achas?
Se acho? Claro que acho isso tudo que escreves tão bem e eu não sei (de)escrever. Obrigada a ti, por esta magnífica estória, cheia de história. E à Horizontes, por nos fazer trilhar tão bela viagem, aqui tão perto, nesse vulcão adormecido, cheio de segredos escondidos.

Autores: Rui e Susana

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Serra da Freita depois do Pôr-do-Sol




Uma peregrinação (do latim per agros, isto é, pelos campos) é uma jornada realizada por um devoto de uma dada religião a um lugar considerado sagrado. Com as devidas adaptações, fui peregrina na Serra da Freita. A família representava a minha religião. O lugar sagrado seria a meta, 65 km e muitas horas depois, mergulhada, literalmente, na montanha que podia ser o paraíso que dizem existir depois de sairmos deste mundo. Um sacrifício muito mais prazeroso do que penoso para mim, como sabem.

Acabei de chegar ao abastecimento da Lomba, depois de um maravilhoso mergulho na cascata que o antecede. Pousei a mochila. Mergulhei. Nadei até à cascata. “Caramba, como sou uma pessoa com sorte”, pensei. Demorei-me um pouco. Revigorada, subi os metros que faltavam até ao abastecimento, onde sou simpaticamente recebida. Enquanto mordo meia bifana, surge o primeiro atleta dos 100 km, de seu nome Marcolino Veríssimo. Felicito-o e pergunto: “mas não tomaste banho ali em baixo, pois não?”. O Marcolino responde que sim, e antes também, e que não prescindiria dos banhos que já leva consigo. Sorri e rapidamente caiu por terra a teoria que os “cá de trás” é que se divertem e desfrutam dos trilhos. Afinal, os supersónicos também mergulham. Saiu do abastecimento antes de mim. E eu segui depois o meu caminho. Faltavam 22 km e a fantástica, mas também penosa, subida da Lomba.

Cerca de 11 horas antes, o José Moutinho anunciava a largada para as provas dos 65 e 100 Km, lá longe, em baixo, em Arouca. Uma multidão de gente e garanto desde logo o último lugar. A Júlia Conceição vem ter comigo – logo aqui penalizei fortemente o meu tempo de chegada à meta - e dá-me um beijo de boa sorte. Continuo pela estrada de alcatrão pensando que o mundo anda mesmo todo trocado – ora então a super-atleta vem ter comigo e não o contrário? Obrigada, Júlia! És muito mais querida que a Querida Júlia da TV (e não preciso de conhecer a outra pessoalmente).

Descobri como pode ser diferente a Freita, consoante o São Pedro nos brinde com chuva ou sol. Há um ano, a chuva e as pedras molhadas haviam sido o meu maior calvário. Este ano, não perdi um único charco, tanque, ribeiro, “Sr. Teixeira” ou cascata. Pasmem-se: consegui deitar-me numa levada e garantir um banho quase integral!

Sempre na cauda do pelotão (só passei para o brilhante antepenúltimo lugar, depois dos 35 km), fui partilhando os primeiros quilómetros com a Patrícia, que prescindiu de correr como tão bem sabe fazer, para me acompanhar. Só em Manhouce, já com 35 km de prova, consegui que seguisse o seu caminho. O passo seguinte era a ameaça com os meus bastões, pelo que creio que se pôs em sentido e percebeu que posso ser perigosa.

Mas antes disso, antes de Manhouce, da sua fantástica equipa de voluntários (bem vistas as coisas, não consigo indicar voluntários que não o tenham sido!), do tomate com sal e do café da Carmen, antes disso, escrevia eu, tínhamos vivido 35 km de trilhos variados, marcados por muitas subidas, muitas pedras, as pedras que tanto gosto e que dariam um lindo padrão para vestidos, as pedras que devem ter um nome que desconheço, mas que são em tons de prata e dourado, lindas pedras, e ainda outras pedras… as pedras da Besta.

Não. Não fui eu quem chamou besta à Besta. De resto, foram 65 km sem palavras indignas, sem insultos à montanha ou a mim própria, sem questionar o que ali tinha ido fazer. Creio que os Acordos de Paz se deveriam fazer na Serra da Freita. Impossível sair dali sem uma desmesurada vontade de praticar bem e melhor. Impossível.

Mas falava eu das pedras da Besta. Levava comigo a grande vontade de a subir. Tantas perguntas fiz ao Rui sobre a Besta. “E tenho altura de perna para subir?”, “e escorrega?”, “e posso cair?”, “e está muito exposta ao sol”?, “e se (…)?”. Obtive todas as respostas, 1 hora depois de iniciar a sua subida. Repito. Sessenta minutos para percorrer 1,5 km, pedra após pedra, usando todas as partes do meu corpo – como gostaria de ter um registo fotográfico da minha elevação numa delas, demasiado alta para o curto tamanho das minhas pernas! Se na meta me tivessem apresentado um livro de dedicatórias, teria pedido aos confrades da Confraria Trotamontes que tanto gostam de surpreender todos os anos com as suas inovações, que levassem o que quisessem do UTSF 65 km, mas não a Besta! Deixem-me subir a Besta de novo!




Tinha sido avisada que a subida da Lomba me cansaria mais do que a Besta. Cansou sim, é verdade. Fazendo algumas pausas pelo caminho, ia vendo pela frente o que me faltava, espreitando atrás o que já havia percorrido. Estou cansada, mas o que vejo é tão bonito! O telemóvel dá sinal de alerta. A Ivete do lado de lá, chegando no exato momento para me dar o empurrão que falta. Logo a seguir, chega o segundo atleta, literalmente de elite, o João Oliveira. Pergunto-lhe se é mais difícil do que a Spartathlon e deixa-me com um sorriso, subindo, correndo, Lomba acima.

Depois disso, o caminho começa a ser familiar, com o PR7 debaixo dos pés, a Mizarela desta vez lá longe à esquerda, as vertigens que não tenho habitualmente a darem o ar da sua graça, o trilho que me conduzirá ao Merujal e à sua casa de pedra. Este ano a casa de pedra não representa a meta, mas recebo os aplausos simpáticos de quem lá está, e que me felicita como se fosse a primeira classificada de qualquer coisa fantástica. A medalha e mais aplausos viriam depois, pelas mãos e sorriso da fantástica Flor, em Arouca, 13 km adiante.

Senti saudade dos Incas, dos três pinheiros e depois dos Aztecas, confesso. Mas não eram saudades que quisesse matar. A saudade sabe bem e o UTSF esteve perfeito assim. E ficaram as duas civilizações e as três árvores alinhadas ao topo do monte registadas nas memórias de 2014.

No Merujal recarrego baterias e cruzo-me com um casal que repousa no parque de campismo. Haviam feito a caminhada, esclareceram. Respondo que também fui caminheira, apenas numa distância um pouco mais longa. Coloco o frontal para o que falta, uma viagem com o sol a pôr-se, e os contornos na montanha com definição HD.

Pelo caminho, fui recordando as histórias que já nos escreveram o Rui Pinho e o João Paulo Meixedo sobre a Serra da Freita. As palavras a fazerem sentido. As experiências relatadas agora vividas por mim. Lembrei-me também do texto de um autor cujo nome não me recordava, e que agora sei tratar-se do Miguel Serradas Duarte, escrito em 2013, intitulado “Eu não fiz a Freita, a Freita fez-me a mim”. Não sei o que tinha o Miguel em mente, mas eu não escolheria melhor título para esta minha aventura.

Diz-nos o dicionário da língua portuguesa que fazer significa, entre outras coisas, “dar existência” e “levar alguém a perceber ou sentir algo”. Pois bem. A Serra da Freita deixou em mim um conjunto de sentimentos bons, de sensação de esvaziamento do que não faz bem, de agradecimento. Creio ter sido das minhas mais fantásticas “peregrinações” fora dos “palcos” habituais para o efeito (que nunca usei, confesso), e com a melhor das motivações, que encontrei logo na fase inicial do meu percurso, na manhã de dia 27 de junho.

Mãe, mamã, Zezinha, sendo difícil, porque sou realmente uma “bem equipada mas fraca atleta”, chegar à meta nunca foi tão fácil, por te saber curada.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Susana vai ao engano, perdão, triatlo



Até eu tenho dificuldade em acreditar, mas… estou ali!

A Marta Andrade, que anunciou hoje a sua participação no Triatlo de Oeiras daqui a dias, fez-me lembrar aquela “fatídica” data em Junho de 2012.

Um grupo de amigos desafiava-me para aquilo que eu julgava ser uma brincadeira. Até o nome na altura era… simpático. Triatlo do Ambiente, chamava-se.

Antes da prova dos “supra-sumos”, os triatletas portanto, haveria o “super-sprint”. O super-sprint, enganaram-me eles, era para iniciados como eu. Melhor. Era para quem eventualmente pretendesse iniciar-se na modalidade.

A última vez que tinha nadado fora no Verão anterior. Na praia. Bruços. Para trás e para diante. Sempre ao longo da costa, como mandam as regras.

Nado bruços porque sim. Gosto de nadar crawl mas rapidamente me perco na respiração. Mariposa é o estilo que mais me fascina, mas não dou uma braçada sequer. Costas? Entra-me água no nariz.
Nesse grupo – o Pedro Vicente, o Pedro Quina, a Marta Quina, a Ana Guimarães, o José Guimarães e o Luís Trindade – creio que todos sabiam ao que iam. E depois havia eu.

Um ano se havia passado desde que me iniciara na corrida. Na pior das hipóteses, conseguiria correr como deve de ser. Até nisso me enganei.

300 metros de natação na praia da Torre. Creio ter engolido 456.782 pirolitos. “Jesus, gente bruta”, pensava eu assustada. “Não vêem por onde nadam?!”, continuava. Experimentei todos os estilos. Nadar-à-cão incluído. Vi o bote ao fundo e juro que pensei levantar o braço para me acudirem. E ainda não tinha chegado à primeira bóia. Nem 100 metros, imaginem! Mas continuei. Saí da água ao lado de um velhinho com mais 50 anos do que eu. No mínimo. Chegada ao parque de transição foi fácil localizar a bicicleta. Não porque fosse um estonteante último modelo do mercado – era uma BERG, de 60 euros, se tanto – mas porque só restavam 3. Todos os outros já tinham partido. Os braços tremiam e creio ter demorado mais de 3 minutos para conseguir vestir os calções e fechar o capacete. Seguiam-se 10 km de bicicleta. Felizmente, funcionando como massagem ao ego, consegui ultrapassar alguns atletas. Os pneus da bicicleta tinham pouco ar – nem disso havia tratado – mas lá me esforcei para terminar e chegar rápido ao segmento de corrida – seria “a minha praia”. Iria ultrapassar dezenas de atletas, pensava eu, confiante. De volta ao parque de transição, saio da bicicleta e preparo-me para correr. As pernas não mexem. Parecem dois troncos de árvore com raízes profundas. Raízes fortes e vigorosas. As pernas simplesmente não me obedeciam. Foram os 2,5 km com 0,02 m de D+ mais longos da minha vida. Cheguei ao fim. E nunca mais voltei.

Digo muitas vezes que aquela foi a experiência desportiva que mais me marcou. Deve ser. Três anos depois ainda escrevo sobre ela.

É também por isso que tanto me fascina a modalidade. Fico assim. A observar. Ao vivo. À distância.  Tentar perceber como sabem o caminho a tomar com a cabeça dentro de água. Como saem da água aos “S” e encontram equilíbrio na bicicleta. E correr depois mais rápido do que alguma vez correrei. Há coisas que merecem ficar assim nas prateleiras - fascinantes e… intangíveis.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Plebeia na Prova Rainha do Reino da Dinamarca



Esta não era uma viagem para correr. Era sim uma viagem para passear. Com calma. Era a viagem das três esses em Copenhaga - Sandra, Sofia e Susana.


Acontece que, cerca de três semanas depois de tudo marcado, uma conversa me remeteu para corrida. Corrida levou a maratona, e... "Copenhaga há-de ter uma maratona, pois então", pensei. Fui ver. Se não foi um sinal dos astros, não sei o que terá sido - a maratona acontecia precisamente nos dias em que por lá estava. Sem hesitar, apesar do preço proibitivo, inscrevi-me. Estávamos a 8 semanas do dia "C".


A minha última maratona de estrada havia acontecido em novembro de 2013, no Porto - lá muito longe, portanto. Teria que, em oito semanas, tentar fazer o que pudesse para tornar a experiência o menos sofrida possível. Sofrida porque, como bem sabemos, 42 km em estrada são para fazer sem paragens. Não há momentos de contemplação da paisagem ou pausas para sandwiches de presunto. Isso é lá na montanha, para que não tem pressa como eu.


A maratona não era prioridade nesta viagem. Não era a causa. E por isso, rolando sobre uma bicicleta, procurei que os dias que a antecederam fossem bem recheados - e não falo exclusivamente da gastronomia! A cidade é lindíssima, os seus habitantes muito prestáveis e, contra todas as expectativas, até o São Pedro nos brindou com um sol que já fazia aquecer as costelas sobre a bicicleta. Uma vez mais confirmei que viveria numa cidade onde as duas rodas e os pedais são dos meios de transporte que mais adeptos reúnem.


A história que se segue é efetivamente da maratona. Aquela que designam de Prova Rainha. Curiosamente, cerca de 3 dias antes da data, havia recebido um e-mail da organização, dando conta da possibilidade de associarmos ao nosso BIB NUMBER (vulgo, dorsal) um conjunto de mensagens, que seriam publicadas na página da conta pessoal do FB. A cada 5 km teríamos o controlo (do chip, entenda-se) e nessa mesma altura, seria publicada a referida mensagem. Como adoro escrever e praticar futurologia, acabei por tratar do assunto. Feliz ou infelizmente, ninguém acabou por ser bombardeado com as referidas mensagens que, por erro meu ou da organização - inclino-me para a primeira hipótese, já que, apesar de licenciada em engenharia, tecnologia não é o meu forte - nunca chegaram a ser publicadas.


Como as guardei, e porque fizeram efetivamente sentido - antecipei de forma quase precisa o que me sucedeu na prova - listo-as abaixo, agora com o devido enquadramento.



5 km
Ved langt, så godt!

De facto, 5 kms depois, corria tudo bem e esperava que o google translator fosse uma fonte fidedigna de tradução. O pelotão seguia junto e ainda avistava os balões vermelhos que deveria perseguir, para garantir o tempo de chegada à meta de 4h00. Ligeira brisa a refrescar, anulando um pouco o calor que já se fazia sentir. O do sol e o humano!

10 km
Mais rápida do que a minha própria sombra!

Certa, certinha. 28 minutos para os primeiros 5 km. Outros 28 minutos para os segundos 5 km. Abaixo da 1 hora, portanto, sentindo-me bem. Nesta altura o sol encontrava-se diante de mim, aquecendo-me o rosto, e projetando efetivamente a sombra atrás. Estava de facto mais rápida do que a minha própria sombra!

15 km
Estes dinamarqueses têm pernas demasiado compridas!
Já não vejo o balão das 4 horas!

E não o via, de facto. Aos poucos a dúzia de balões encarnados desapareceu no horizonte. "Daqui a pouco recupero", pensei. Enganei-me. Mas continuei na minha passada certinha. 30 minutos para cada 5 km, apreciando outros dinamarqueses, os que se encontravam na beira dos passeios e ciclovias, apoiando cada corredor como se do mais importante atleta se tratasse.

20 km
Quero uma pasteleira daquelas!

Quero sim. Em outubro de 2012, quando relatei a minha primeira maratona em Amesterdão, já fazia referência à pasteleira preta com selim camel. Três anos se passaram. Acho que está na hora de investir e tentar a sorte nas ruas de Lisboa.

21,198 km
Ainda só fiz metade, na perspetiva do copo meio vazio.
Mas só falta metade, na perspetiva do copo meio cheio!

Meia estava feita e cerca de 1 km depois, oiço um "Susana" familiar. Vozes familiares. Sofia e Sandra, o meu boost inesperado ao km 22, quando as julgava a visitar museus! Que boa surpresa! A média ao km melhorou nos metros seguintes. E o sorriso foi o da foto acima, imagem captada pela objetiva da Sandra na máquina da Sofia!

25 km
Olha, olha... A pequena sereia!
Da última vez que a vi era maior do que eu!

Na realidade, não a vi. Mas como tem 1,29 metros é certo que desta vez estou um pouco mais crescida do que ela. Tenho também mais juízo. Aos 6 anos, quando a visitei, ainda acreditava em histórias de príncipes que resgatavam sereias do mar e que as escamas e caudas eram substituídas por lindos vestidos-balão e sapatinhos de cristal. Essa história já não pega! Mas é boa de ver nos filmes.

30 km
Já era raptada por um simpático viking, levada para um navio dragão, descia o mar Báltico e rumava a Constantinopla!
(bati no "muro", foi o que foi)

2h57m se passaram. Ainda havia luz ao fundo do túnel. Um reforço energético repentino. Quem sabe. Talvez sim. Ou não. Verdade seja dita. Depressa concluí que já não há vikings. A melhor aproximação que tive foi um corredor com t-shirt do Viking Atletik, mas até eu tinha um ar mais robusto. Quando o avistei fugi, não fosse pedir-me para o carregar às costas. 

35 km
Porque não fui simplesmente pedalar por aí?

3h30m. 35 km certinhos. 5 km a cada 30 minutos. Passada constante. Poderia ter ido pedalar, sim. Ou talvez não. Até as ciclovias estavam fechadas a bicicletas nessa manhã em Copenhaga. As gentes da cidade inundaram as ruas, e no que a "barulho" e "incentivo" diz respeito, nada ficam a dever aos Sevilhanos. Se tivesse optado por pedalar teria também perdido a oportunidade de ver os melhores cartazes dos apoiantes: "why are all the cutiest people running away?" e "you are ahead of everyone (who is behind you)"!

Eu que tantas vezes digo que não gosto do meu nome, decidi que chegaria a Lisboa e daria um forte abraço à minha mãe por escolha de nome tão internacional. Até as crianças gritavam entusiasticamente por mim. E que bem que soube ver mãos pequeninas estendidas.

É por esta altura que vejo ultrapassar-me o balão das 4h10m. Confesso que desanimei um pouco. Mas para a frente era o caminho. A meta esperava por mim.

40 km
Vá lá, Susana.
Isto é mais fácil do que subir ao Jardim do Torel!

Creio que aqui me terei enganado nas previsões. Aqueles quilómetros pareciam-me mais difíceis do que todos os outros que já fiz. Mas as coisas não acontecem por acaso e por mim passa um atleta empurrando uma cadeirinha de rodas, proporcionando a experiência da maratona a uma criança com deficiência motora e mental. Nó na garganta. O desânimo associado à perspetiva do resultado menos positivo e às dores que se faziam sentir, perde relevância e desaparece, como que se por vergonha. Oxalá um dia tenha a coragem para viver uma maratona desta forma!

42,195 km
Embora por vezes seja bruxa, desta vez é impossível prever o desfecho.
Mas não preciso dos astros para saber o que aconteceu, caso esta mensagem seja publicada.
Cheguei ao fim!

E cheguei sim. 4h17m depois. Creio que foi o meu pior resultado numa maratona. O meu segredo amplamente divulgado de desejo de baixar das 4:02 na maratona continuará guardado, esperando melhores dias e mais treino, claro. Mas ninguém me tira a Maratona de Copenhaga e a medalha que trouxe comigo.


Maratona. A Prova. A prova de estrada que mais leva de mim e prazer me dá. Tal como uma passagem do Inverno para a Primavera. Renovação, portanto. Deixei partes de Susana naquele asfalto. Não faziam falta. E no dia seguinte nasceram flores no meu cabelo.