Há uma pequena aldeia algarvia, a 8 km de São Bartolomeu de Messines e a 11 de Silves, onde ainda é garantida a missa de domingo e dias festivos.
É curioso como, por esse país fora, se fechem escolas e centros de saúde, obrigando os habitantes a percorrer distâncias desejavelmente evitáveis e, por aqui, a Igreja, através do pároco de Messines, continue a assegurar a "palavra do Senhor" junto de quem acredita.
Tive uma educação católica, cresci num colégio de jesuítas, mas quis a vida (ou quis eu) que me fosse afastando d'A Palavra, não dispensando no entanto, a visita de Natal à Igreja. Faz-me bem.
Hoje éramos 20 para ouvir o padre, apoiado pelo sacristão. Na assistência, a "irmã" "comandava" gentilmente os cânticos que as velhinhas, a muito custo, iam tentando acompanhar. Por entre 18 velhinhos (eu estou incluída no grupo), a Inês e o Diogo, únicas crianças presentes, foram rapidamente apercebidas pelo padre. E, a partir daí, a missa foi entre os três e o menino nas palhas deitado.
Entre leituras, o padre ia dialogando com os meus filhos, garantindo que mantivessem a atenção. Chegada a homilia, puxou de três cadeiras e levou-os para junto de si, frente ao altar, de costas para nós, mas voltados para o menino. E ali assistimos a uma conversa deliciosa, com os disparates típicos de crianças, por vezes "boquiabertas" (com que então temos que rezar pelos "maus"?), com o Diogo a anunciar que o amor não se compra e a Inês a esclarecer que Jesus tem 2015 anos, mas ainda está entre nós.
Orgulho e felicidade desmesuradas foi o que senti.
Se não for antes, cá estarei, nesta pequena igreja, daqui a um ano, para agradecer a sorte com que fui bafejada.
Venha agora a roupa velha, que tão feliz me deixa também.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Dois dígitos
A entrada nos dois dígitos.
10 anos de Inês.
10 anos a ser mãe.
Duas mãos cheias.
Cheias de coisas boas, cheias de coisas menos boas.
Cheias de alegrias, cheias de aflições.
Cheias de caras lindas, cheias de caras feias.
Cheias de mimos e beijos. Nunca nos esqueçamos, porque nunca são demais.
Cheias de “gosto tanto de ti” (e eu também gosto muito de ti), “o mundo não é justo” (pois não, Inês, não é), “és tão linda, mamã” (como és linda, Inês), “és feia” (pensaste mas não disseste, eu sei) e “leva-me a correr contigo” (sim Inês, levo-te a correr comigo).
Cheias dos teus olhos lindos e das tuas sobrancelhas farfalhudas (tu não estragues essas sobrancelhas, como eu estraguei as minhas, à tesourada, já te avisei).
Cheias de bilhetinhos e recadinhos, com a tua linda caligrafia (oxalá me escrevas bilhetinhos até ser muito velhinha).
Cheias. Cheias. Cheias.
E de coração cheio, é como me deixas!
10 anos de Inês.
10 anos a ser mãe.
Duas mãos cheias.
Cheias de coisas boas, cheias de coisas menos boas.
Cheias de alegrias, cheias de aflições.
Cheias de caras lindas, cheias de caras feias.
Cheias de mimos e beijos. Nunca nos esqueçamos, porque nunca são demais.
Cheias de “gosto tanto de ti” (e eu também gosto muito de ti), “o mundo não é justo” (pois não, Inês, não é), “és tão linda, mamã” (como és linda, Inês), “és feia” (pensaste mas não disseste, eu sei) e “leva-me a correr contigo” (sim Inês, levo-te a correr comigo).
Cheias dos teus olhos lindos e das tuas sobrancelhas farfalhudas (tu não estragues essas sobrancelhas, como eu estraguei as minhas, à tesourada, já te avisei).
Cheias de bilhetinhos e recadinhos, com a tua linda caligrafia (oxalá me escrevas bilhetinhos até ser muito velhinha).
Cheias. Cheias. Cheias.
E de coração cheio, é como me deixas!
domingo, 8 de novembro de 2015
Porto Sentido
Se há dois anos assumi o papel de chef e escrevi uma receita denominada "Maratona à Moda do Porto", hoje, agora mesmo, faço umas contas de merceeiro e concluo que posso demorar mais do dobro do tempo a percorrer 42 km do que aquele que preciso para percorrer cerca de 300 km. É apenas uma questão que se prende com o que levo debaixo dos pés. Mas não trocarei os ténis pelos pneus.
Há tempos escrevia o Fernando Andrade que a Prova Rainha merecia respeito. Pois bem. Hoje, a rainha pôs esta sua "serva" em sentido (tanto quanto posso estar, pois estou um pouco marreca). Há uns anos este papel cabia ao meu pai. O de me por em sentido, não marreca, claro.
Do lado de lá, a caminho da Afurada, caminhei bastante. Caminhei tanto que achei que assim não fazia sentido. Comecei então a caminhar para trás e quando me preparava para remover o dorsal, parei a olhar o rio e os atletas que já corriam na margem oposta. Segundos depois retomei a caminhada no sentido contrário. No certo. Certo para quem queria chegar ao fim.
Pontuada aqui e acoli de momentos de grande alegria, esta maratona trouxe-me de volta a Angela, que não via desde os 5 dias de Caminhos de Santiago, em 2014. A Angela, que está fora desta rede social, não me lerá, mas ouviu mais de três vezes o meu agradecimento (e viu lágrimas à mistura) por me ter voltado a por a correr junto ao Freixo, acompanhando-me até ao túnel, onde os Vangelis tocavam o Chariots of Fire (caramba, como nos fazem acreditar que somos invencíveis!).
É de facto a rainha com súbditos mais fiéis. Protestam mas voltam sempre. E nunca o Verão de São Martinho foi tão Verão. E amanhã lá estarei a descer escadas de lado.
Muito obrigada a todos os "força Susana", "é já ali" (e todos sabemos que nunca é, mas sorrimos), "allez Susáná" e todas as palavras de incentivo da fantástica equipa de voluntários que saiu para as ruas da segunda mais bonita cidade do país!
PS - Deixo a versão original, mas para quem conhece a do Mr. Bean, hoje fui o Bean!
Há tempos escrevia o Fernando Andrade que a Prova Rainha merecia respeito. Pois bem. Hoje, a rainha pôs esta sua "serva" em sentido (tanto quanto posso estar, pois estou um pouco marreca). Há uns anos este papel cabia ao meu pai. O de me por em sentido, não marreca, claro.
Do lado de lá, a caminho da Afurada, caminhei bastante. Caminhei tanto que achei que assim não fazia sentido. Comecei então a caminhar para trás e quando me preparava para remover o dorsal, parei a olhar o rio e os atletas que já corriam na margem oposta. Segundos depois retomei a caminhada no sentido contrário. No certo. Certo para quem queria chegar ao fim.
Pontuada aqui e acoli de momentos de grande alegria, esta maratona trouxe-me de volta a Angela, que não via desde os 5 dias de Caminhos de Santiago, em 2014. A Angela, que está fora desta rede social, não me lerá, mas ouviu mais de três vezes o meu agradecimento (e viu lágrimas à mistura) por me ter voltado a por a correr junto ao Freixo, acompanhando-me até ao túnel, onde os Vangelis tocavam o Chariots of Fire (caramba, como nos fazem acreditar que somos invencíveis!).
É de facto a rainha com súbditos mais fiéis. Protestam mas voltam sempre. E nunca o Verão de São Martinho foi tão Verão. E amanhã lá estarei a descer escadas de lado.
Muito obrigada a todos os "força Susana", "é já ali" (e todos sabemos que nunca é, mas sorrimos), "allez Susáná" e todas as palavras de incentivo da fantástica equipa de voluntários que saiu para as ruas da segunda mais bonita cidade do país!
PS - Deixo a versão original, mas para quem conhece a do Mr. Bean, hoje fui o Bean!
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
40 dias para os 40
A 8 de outubro começou o evento “faltam 40 dias para os 40”.
Sempre fui miúda de festas.
Bem cedo, ainda novinha,
convidava todos os meninos e meninas da Base das Lages para comigo apagarem as
velas. Mais tarde, suplicava (não era preciso suplicar muito) à minha mãe que
cozinhasse verdadeiros banquetes para os amigos que recebia em casa – primeiro
os do colégio, depois os da faculdade.
Já “crescida” (madura, talvez, porque
nunca cresci grande coisa), comecei eu a tratar da logística. Umas vezes em
casa, outras fora.
Gosto de fazer anos e de os celebrar. Sinal que estou viva e
de boa saúde.
Andei meses a pensar como iria comemorar a entrada nos 40.
Sim, também sou pessoa de muito e antecipado planeamento. Pensei que
enveredaria pela forma mais tradicional – juntar todos os amigos, num espaço
suficientemente grande, pois há muita gente de quem gosto (e aposto que gosta
de mim). Se encontrar um espaço seria fácil, mais difícil seria ter todo o tempo
que gostaria para dedicar a quem gosto.
E então lembrei-me.
Recuei no
calendário 40 dias e decidi que iniciaria assim o processo de celebração, em
diferentes dias, diferentes momentos, diferentes pessoas, diferentes
experiências. Uma espécie de celebração cigana, mas antecedendo a data festiva.
Porque tenho que fazer isto (e ver quem quero) antes de iniciar a vida que
então começará. É o que dizem, certo? Que a vida começa aos 40. Então vamos lá
fechar esta (vida) com alegria.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Por muito que corramos, nunca correremos tanto quanto eles
(texto originalmente publicado no JN Running)
Azahar, Erica, Enebro, Éon, Era,
Espiga, Fado, Fresa, Fresco, Drago, Fauno, Foco, Calabacín, Biznaga, Flora,
Fruta, Castañuela, Artemisa, Juromenha, Jabugo, Jacarandá, Katmandú, Kentaro,
Kahn e tantos outros. Olhos de gato amarelos-esverdeados, “colar de pelo” que
mais parece juba de leão, manchas de leopardo.
Assim é o lince ibérico. Assim o são
todos aqueles que enunciei acima e já passaram pelos 5 Centros de Reprodução do
Lince Ibérico, localizados em Espanha e Portugal.
Em 2002 a população deste felino
estava no limiar da extinção, ocupando a categoria que é considerada a
“ante-sala” da extinção de uma espécie na natureza. Em Portugal, não se via um
único lince na natureza desde o início da década de 90.
O lince ibérico não está livre de
perigo e integra ainda a lista de espécies ameaçadas do planeta, mas o
sentimento de quem se lhes dedica é de confiança. Depois de assinado o “Acordo
entre Portugal e Espanha para a Criação em Cativeiro do Lince Ibérico”, que
constituiu a base para a participação de Portugal no programa de reprodução em
cativeiro, Espanha passou a ceder exemplares para a respetiva reprodução em
cativeiro no Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), a
funcionar na Herdade das Santinhas, em Silves.
O I Trail do Lince, que se realizou a
12 de setembro em pleno coração da Serra Algarvia em Silves, foi o primeiro de
muitos que lhe seguirão, seguramente. Trata-se de um projeto que pretende aliar
o desporto à defesa deste bonito felino, sendo que o propósito da organização é
alargar o projeto à escala ibérica, já em 2016.
Por cada inscrição no Trail do Lince
foram entregues dois euros ao World Wide Fund for Nature (WWF) e ao Instituto
de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), apoiando assim a preservação
do único grande mamífero carnívoro endémico da Península Ibérica atualmente em
perigo.
Com um percurso traçado pela
associação Algarve Trail Running (ATR), a prova apresentou-se em três
modalidades – trail longo (42 km), trail curto (10 km) e caminhada (10 km) – e
reuniu cerca de 300 participantes.
Mais coisa, menos coisa, foram 600
pés a seguir as pegadas do lince, a disfrutar da sossegada Serra Algarvia, a
beneficiar do cuidado dos elementos da organização e da simpatia das gentes
daquelas paragens - bombeiros e locais, pouco habituados a tanto frenesim,
quase exclusivo do litoral algarvio.
Num percurso muito bem marcado, com
partes coincidentes com a bonita Via Algarviana (confirmado o meu desejo de a
percorrer, de “lés-a-lés”), fomos brindados ora com a sombra proporcionada por
eucaliptos e pinheiros nos vales, ora pelo sol que já fazia anunciar um dia
quente, enquanto calcorreávamos bonitos estradões na cumeada dos cerros –
verdadeiras “chapas” HD a 360º, com horizonte a perder de vista. Foram precisos
30 km para avistarmos as primeiras habitações e ouvir outro som que não fosse o
do cantar das cigarras.
A título pessoal, guardarei as
imagens de locais que me viram crescer e brincar, a presença do meu pai, que
seguindo a sua “cria”, me foi surpreendendo com os seus mimos em diversas
partes do percurso e a companhia do António, que prescindiu de seguir o seu
caminho mais rápido, dizendo que esta seria uma “experiência diferente”, a de
ir “corrandando” pelo trilho (e assim garantiu, naturalmente, o último lugar da
classificação geral).
Guardarei também a deliciosa
experiência de conseguir o meu melhor e pior resultado de sempre – 3ª e última
classificada geral feminina, garantindo-me assim a subida a um pódio que já
havia sido atribuído às duas primeiras atletas, alguns minutos antes, com os mesmos
aplausos que os primeiríssimos recebem, mas palavras ainda mais carinhosas –
porque sim, porque ser (e saber ser) último também exige trabalho.
No sábado passado, os 300 participantes
que estiveram na Serra Algarvia “vestiram a pele” dos cerca de 11 linces ibéricos em Portugal a usufruir da liberdade na
natureza. Até ao final do ano mais lhes seguirão as passadas. Por muito que
corramos, nunca correremos tanto quanto eles. Os dois manos Kentaro e Kahn, libertados há 8 meses no centro de Espanha, percorreram mais de 2.500
km, tendo um seguido para Norte, passeando-se por terras do Douro e outro para
o Sul de Portugal, numa viagem épica de duatlo, que incluiu o atravessamento a
nado da barragem do Alqueva.
Só este ano o CNRLI já viu nascer 13 crias. Se a reprodução é um
sucesso, já a reintrodução desta espécie na natureza apresenta enormes
desafios. O nosso desejo é de voltar aqui, daqui a uma década, depois de mais uma
edição do Trail do Lince, e podermos escrever que foi retirada a classificação
“em perigo” aos exuberantes linces ibéricos.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Lisboa, temporada 3
ilustração: Desenhador do Quotidiano
Lisboa, temporada 3. A sequela
da temporada 1 e 2, que já escrevi por aqui.
O primeiro dia do mês é sempre
um bom dia para a tomada de decisões. Mais ainda quando se trata do primeiro
dia do típico mês de regresso a qualquer coisa - à escola, ao trabalho, à
rotina diária sem folgas ou sestas.
Por isso, no dia 1, calço as
sapatilhas, saio de casa e desço a avenida do aviador até ao Campo Pequeno,
acreditando que sou tão veloz quanto o Louie Zamperini retratado por Laura
Hillenbrand – o livro das férias que me obrigou a secar muitas lágrimas nos
bordos da toalha de praia. Agora, como estou a ler “A filha do capitão”, do
José Rodrigues dos Santos, olho para os rapazes que jogam futebol de 5 no court
e recordo que por ali, sem redes ou piso adequado, já outros rapazes correram
atrás de uma bola e ainda não se falava em touradas. Vou-me obrigar a não falar
de touradas, porque terei que ir buscar os kleenex (já não tenho comigo a
toalha de praia) e porque é de facto um fenómeno atroz que não entendo. Tanta
coisa que não entendo.
Sigo pela avenida de República,
passo frente ao Galeto e penso nas tostas de bife com cebola caramelizada.
Depressa me lembro de uma das resoluções do dia 1, largo a imagem e sabor da
tosta na esplanada e sigo caminho. O Saldanha está mais bonito. Brutal, como
tantos dizem. Oxalá o dia 1 traga consigo uma nova palavra da moda. Detesto
“brutal” por ser uma palavra… bruta. Posso sugerir? Sensacional, incrível,
estonteante, impressionante, eletrizante, fenomenal, fabuloso, espantoso,
formidável, maravilhoso, surpreendente, esplêndido, notável, extraordinário,
excecional. Ena, tanta palavra bonita!
Desço a Fontes Pereira de Melo,
chego ao banzé do Marquês de Pombal. Cuidado, muito cuidado, Susana. Mais de
500 acidentes em 3 dias, registados pela operação de fim de época estival da
GNR. Os números de feridos graves e mortos eram tão absurdamente assustadores,
que eliminei dos meus registos. Que raio de gente ao volante neste País. Que
giro, se escrevesse “deste”, a afirmação assumiria contornos totalmente
diferentes. Mas também não vou falar de política.
Inicio a descida da avenida da
Liberdade. Como sempre, os vestidos e malas que não poderei comprar. E, também
como sempre, a importância disso é nenhuma. Ao lado do passeio onde corro, a
ciclovia que há tempos percorri e mais parecia o mar alto sem amortecimento.
Mas lá está. Os que ali fazem compras não se passeiam de pasteleira, por isso,
porquê consertar?
Rocio. Sim, à moda do
antigamente. Porque antigamente havia por ali os “água vai”, mas também
passeavam carroças com cavalos e senhoras com vestidos compridos, chapéus e
sombrinhas. E tomar café na esplanada era ritual de luxo. De gente com tempo.
Hoje tomamos “bicas” à meia dúzia por dia. E engolimos em dois tragos porque
não temos tempo a perder. Quero o Rocio em vez do Rossio, pode ser?
Cais das Colunas. Antes
desembarcavam chefes de Estado, caminhando elegantemente sobre as pedras de
mármore. Gente importante. Agora… agora vem gente não menos importante,
apressadamente, balançando em cacilheiros, com as mordomias que o valor do
passe mensal oferece. Nenhuma que não seja a de atravessar para um e outro
lado. Mas podem contemplar o rio. Bem bom.
A minha viagem chega a meio.
Agora há que voltar para trás. Subir tudo o que desci. E procurar sentido nas
palavras de Ludwig Wittgenstein que o José Rodrigues dos Santos escolheu para
arrancar a sua história. “O sentido do mundo emerge fora do mundo. No mundo
tudo é como é e acontece como acontece”. Prefiro não pensar assim. Afinal,
teremos algum propósito nesta vida que irá para além de garantirmos a nossa
exclusiva felicidade, certo?
No final, quando tudo parecer
demasiado complicado, façamos como nos canta a pequena Paula Bélier – “la vie
c'est plus marrant, c'est moins désespérant, en chantant”. Se não viram o filme
(La Famille Bélier), vão ver.
Setembro, “o Maio do Outono”. Existirá alguém que não fique feliz com a sua chegada?
Bem-vindo Setembro!
terça-feira, 28 de julho de 2015
Suspiros e muitos "ais" no Monte da Lua
(texto originalmente publicado no JN Running, com título "De Mãos Dadas até Tocar na Lua")
“Mais do que a dor, é a beleza que me faz chorar”. Li estas palavras um dia depois dos 28 km do Monte da Lua, em Sintra. A frase da escritora Maria Teresa Horta titulou os pensamentos que me assolaram bem lá no alto, quando recuperava o fôlego, depois de mais uma arriba subida, já depois de ter descido outra, com as falésias e o Oceano Atlântico como pano de fundo. Aos meus pés milhares de chorões cobriam as falésias que se estendem desde antes do Cabo da Roca, até à Praia das Maçãs, onde a meta me esperava. Chorões carnudos. Isso. Um só se terá instalado ali há muito tempo, mas tanto chorou perante tamanha beleza, que depressa se multiplicou nos muitos milhares que por lá moram agora. Sim, a beleza faz mesmo chorar mais do que a dor.
Sabes no que pensei, Rui? “Caramba, já devia ter vindo aqui pelo menos duas vezes. Uma vez para conhecer, a segunda para percorrer estes trilhos com o Rui”.
E assim foi. 28 km por caminhos que praticamente desconhecia. A vertente Norte da Serra de Sintra que ainda permanecia por calcorrear e que não só me ofereceu um banho turco com níveis de humidade que deveriam atingir os 80% e o cheiro a eucalipto que quase embriagava, como também um tratamento com terra molhada num fantástico downhill, que fez subir os níveis de confiança e apressar a passada da corrida, destemida, feliz. Caramba, que prazer me deu. Também passaste por lá depois, e muito mais viste do que eu. Fala-me disso tudo. Dos 26 km que não fiz, da Quinta da Regaleira e da Quinta do Relógio. Do Castelo dos Mouros. E das pedras que dão nome à prova e que brilham ao luar. Fala-me Rui, fala-nos disso tudo, que não queremos perder pitada. E em 2016 lá estaremos todos, para viver uma história como hoje vais contar.
“A Xintra (com “x”, porque os árabes não pronunciam o “S”) que encantou os mouros, que por sua vez encantaram Sintra, tem estórias por todos os seus recantos. A sua história começou a ser escrita há milhões de anos, quando ainda era um vulcão, e cuja lava foi desenhando socalcos até aos pontos mais baixos da serra. A ocidente a crista mergulha abruptamente no fundo do mar, deixando atrás, entrelaçada arborização rematada por arribas e falésias.
Os mouros, encantados com as pedras “barâd” (fosforescentes), que brilhavam na noite, chamaram-lhe monte da Lua, pelo efeito luminoso refletido na constante bruma que a cobria. O ônix, considerado por persas e hindus como protetor contra as más vibrações, o âmbar de primeira qualidade, semelhante ao melhor do mundo – o “xajari” da Índia – e todas as grutas subterrâneas que adensam mistérios, lendas e fábulas, dão a Sintra uma áurea misteriosa e encantada.
Da Praia das Maçãs à Vila, sim, foi um banho turco. Humidade elevada, tão elevada, que quando passávamos de alguma zona exposta ao sol para a sombra da densa arborização, víamos água a pingar no trilho. Subir a encosta de Colares, tentado descobrir onde teriam vivido os monges, que para ali iam viver do que a terra lhes dava. Depois veio Sintra, e a sua história, de reis e rainhas e gente que se rendeu à sua beleza. Na Quinta do Relógio há um sobreiro coberto de fetos, há lagos cobertos de nenúfares e há recantos com bancos de pedra trabalhada. Há história talhada nas paredes do edifício abandonado em obras de restauro. Os palácios de outrora, hoje contadores de lendas românticas, montras de excentricidade desenhada por caprichos milionários, cujo expoente máximo é a Quinta da Regaleira, onde mergulhamos no poço iniciático e serpenteamos anjos de pedra e árvores centenárias e turistas, surpreendidos por gente a correr num cenário onde tudo convida a deter. Ali ao lado, lá no cimo, esperava-nos o Castelo dos Mouros. Fomos por onde só havia gente a escalar. E pingava humidade. Atletas que se perdiam voltavam ao trajeto a sorrir. Cheirava a madeira molhada. Todas as árvores transpiravam. E nós, encharcados com tamanha beleza, mergulhados no suor da subida, inebriados por toda aquela selva magnificente, bebíamos história sem o saber.
D. Afonso Henriques, quando conquistou Sintra aos mouros, deu-lhes tempo para se renderem. Chegado ao castelo não encontrou vivalma. Há todo um conjunto de túneis que levam para bem longe dali. O conquistador não sabia, mas há por baixo da Serra grutas e rios que ligam o alto até à Lagoa Azul ou a Rio de Mouro. E assim nasceu uma lenda. E outras lendas nasceram destas secretas passagens, sendo a mais conhecida a da “Moura dos Sete Ais” (Seteais), que deu sete suspiros por um cavaleiro cristão que a deteve quando tentava fugir com outros mouros por uma porta secreta do castelo.
Mas mais que 7 “Ais” havíamos de dar no que ainda vinha de prova. Um serpenteado de trilhos a descer e a subir, de cortar a respiração pelo que exigiam de esforço, e principalmente pela beleza e paz que induzem. Um troço de 12 km que culminou com uma subida a pique e sob sol abrasador ao ponto mais alto da prova, a Peninha, donde se avista o fim da terra e o início do mar. “Paraíso Terreal”, constava no título do acordo que Ibne Arrique firmou nesta confluência de maravilhas da natureza e onde o homem deveria coabitar em paz. Vista dali, da Peninha, percebe-se que não haja quem queira desembainhar uma espada numa serra que alberga tanta vida. E desaguamos também nós, os dos 52 (53, 54?) como vós, os dos 26 (27, 28?), por um trilho onde voltava a pingar humidade das árvores entrelaçadas, que nos protegiam do calor vespertino.
Chegados então ao ponto onde a beleza faz chorar mais do que a dor, como tão bem descreves, foi sim, esse desenrolar de trilhos arriba e abaixo junto a uma costa que nos faz sentar e contemplar.
Estranho, Susana, não é que não tenhas sido tu a mostrar-me tudo aquilo. Estranho é que o Mundo não possa desfrutar de tudo aquilo, de toda a beleza de uma Sintra encantadora e que a Horizontes nos serviu. Estranho é que as autoridades não deixem realizar esta prova nos meses em que é impossível fazer trail nas Serras mais altas da Europa, e onde Portugal devia e podia ser o refúgio de muitos. Mas Sintra, onde se acarinham filmagens de novos modelos de automóveis – vedando acessos onde as realizava, em pleno Parque Natural -, não permite a realização desta mesma prova no Inverno, quando seria mais fácil atrair gente de outras paragens. Estranho.
Fica a memória de uma prova única. Equilibrada, com largas zonas para correr, excelentes trilhos para sofrer e arribas de cortar a respiração. Início belíssimo e fim a condizer, numa praia famosa pelas suas enormes maçãs, e onde o que mais importa é mesmo o trail. Não achas?
Se acho? Claro que acho isso tudo que escreves tão bem e eu não sei (de)escrever. Obrigada a ti, por esta magnífica estória, cheia de história. E à Horizontes, por nos fazer trilhar tão bela viagem, aqui tão perto, nesse vulcão adormecido, cheio de segredos escondidos.
Autores: Rui e Susana
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