sábado, 13 de fevereiro de 2016

Verdes são os campos, da cor do limão, assim são os olhos, das mulheres do meu coração


Eu (ainda com olhos azuis) e a Zé (garanto que tem olhos verdes)


Quando percebi, nos primeiros meses de vida da Inês, que a minha filha teria olhos claros, fiquei muito contente. Não que considere os olhos claros mais bonitos do que os outros. Nada disso. Fiquei muito contente porque assim se garantia a continuidade dos olhos verdes nas mulheres da família - há quem fique contente por haver várias gerações de médicos na família, certo?

A avó Clarinha, a melhor contadora de histórias que já conheci, tinha olhos verdes. A minha mãe, a melhor cozinheira que conheço, tem olhos verdes. Eu tenho olhos verdes (mas já foram azuis). E a Inês, a melhor filha que conheço, tem olhos azuis, que, tal como os meus, "ameaçam" ficar verdes.

Verdes são os olhos das mulheres do meu coração e hoje é o dia de uma delas. Hoje é o dia da Zé, a minha mãe. Hoje celebramos os 70 fantásticos anos de Zé.

Olho para a minha mãe e penso que deverá ter havido algum engano no registo de nascimento. Onde esconde estes 70 anos? A Zé raramente nos causa sobressaltos (que não sejam os que nos provoca por ser muito bonita) mas, no Verão passado, pregou-nos um valente susto. Por isso, no mesmo dia em que fez a operação que viria a ser um verdadeiro sucesso, decidimos que organizaríamos uma festa de aniversário surpresa - e faltavam mais de 6 meses para gritar "surpresa"!

Todas as mães são maravilhosas, mas a minha é a melhor do mundo. E o facto de ser a melhor, vai muito além de motivos como fazer os melhores panados com arroz de feijão, o mais delicioso polvo à lagareiro, a mais saborosa carne à Braz, a mais amarelinha aletria ou a mais bonita pannacota com frutos silvestres!

Neste dia, que é de celebração da vida com saúde, juntamos familiares e amigos, e sentamo-nos à mesa, sem etiquetas ou protocolos, como se de uma gigante família se tratasse.

As mesas, devidamente identificadas, recordam-nos como a família, os amigos e a saúde são o que de mais precioso temos nesta vida - não nos esqueçamos disso:


“A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família”

“A maior riqueza é a saúde” (nesta mesa sentámos naturalmente a equipa de médicos que tem acompanhado a minha mãe!)

“A amizade é como os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa”

”A ave constrói o ninho; a aranha, a teia; o Homem, a amizade”

“A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas”


Parabéns, mãe!


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Tome Abutres. Cuide de Si.

Foto: Miro Cerqueira

Este folheto contém informações importantes para si. Leia-o atentamente.

Substância ativa: essências naturais e substâncias aromáticas
Nome do medicamento: Abutres
Dosagem: variantes Abutres 50 mg, Abutres 25 mg, Abutres Júnior e Abutres Caminhada.
Via de administração: in loco, permitindo a absorção imediata por todos os poros.

Medicamento não sujeito a receita médica. É necessário utilizar Abutres com precaução para obter os devidos resultados.
Caso precise de esclarecimentos ou conselhos, consulte um atleta abútrico. Em caso de agravamento ou não melhoria do seu bem-estar, repita até que resulte (porque é certo que vai resultar). Se detetar quaisquer efeitos secundários não mencionados neste folheto, informe a organização abútrica.

Neste folheto:
1. O que é Abutres e para que é utilizado
2. Antes de tomar Abutres
3. Como tomar Abutres
4. Efeitos secundários possíveis

1. O QUE É ABUTRES E PARA QUE É UTILIZADO

Abutres é um medicamento utilizado no alívio sintomático do stress, ansiedade, mau-estar geral ou qualquer outro sintoma incómodo e persistente. Grupo Farmacoterapêutico: mês01.anoemvigor – aparelhos respiratório, circulatório, digestivo, nervoso, linfático, imunológico, muscular, reprodutor, excretor (e todos os que aqui faltarem). Antistress, purificador de pulmões, energizador do coração e libertador de más energias. Apresenta-se em várias tonalidades, desde o verde ao castanho, provocando sensações de calor e frio alternadas.


2. ANTES DE TOMAR ABUTRES

Não tome Abutres se tem alergia (hipersensibilidade) a casas de xisto, javalis, veados, lama, cascalho, folhinhas, cascatas, ribeiros, pedrinhas, pedronas, cheiro a eucalipto, cogumelos selvagens ou a qualquer outro componente presente na Natureza. Tome especial cuidado com Abutres se estiver a recuperar de algum tipo de lesão muscular. Vá com cautela (a menos que seja dos que treina 7/7 dias, faça treinos bidiários e coisas que tais).


3. COMO TOMAR ABUTRES

Tomar Abutres sempre de acordo com as indicações de quem já tomou. Tomar Abutres com alimentos e bebidas. Tostas com mel, tomate com sal, batatas fritas, gomos de laranja, sopa, bifanas, amendoins, cola, isotónico e minis são o acompanhamento indicado. A duração do tratamento depende da forma física e da sua evolução. Tomar dosagem 50 mg se for ousado ou se não tiver pressa. Tomar dosagem 25 mg se for esperado em casa para lanchar. Em situação de gravidez, deve optar pela dosagem menor, na caminhada. Crianças tomam dosagem Abutres Junior. Não foram reportados casos de sobredosagem devido ao uso de Abutres. Em caso de toma acidental, deverá manter-se calmo e seguir em frente, orientando-se com as fitas de marcação. Se for omitida a administração de uma ou mais doses, o tratamento deve continuar no ano seguinte. Não tome uma dose a dobrar para compensar uma dose que se esqueceu de tomar.


4. EFEITOS SECUNDÁRIOS POSSÍVEIS

Como os demais medicamentos, Abutres pode causar efeitos secundários, no entanto estes não se manifestam em todas as pessoas. Apesar de não haver contra-indicações no uso de Abutres, o produto só deverá ser utilizado após conhecimento da família ou amigo próximo. Dores musculares, particularmente ao nível dos gémeos e quadríceps são comuns (passageiras ao 3º dia ou, na pior das hipóteses, após 5 dias). Efeitos gastrointestinais poderão ocorrer em algumas situações. Alguns casos de dores nas costas, caso não tome as devidas precauções atempadamente, ao nível do reforço do core e lombar. O aparecimento de terra nas unhas dos pés é reportado com frequência. A condução de veículos poderá ficar dificultada após a toma de Abutres. Casos, ainda que raros, de braços, pernas ou dentes partidos. Se foi informado pelo seu médico que tem intolerância a cheiros da Natureza, contacte-o antes de tomar Abutres. Abutres provoca a libertação de serotonina e dopaminas podendo causar reações de alegria e sensação de superação extremas. Perturbações gerais são raras tendo sido reportados casos de ligeira sensação de amnésia (do tipo, o que estou aqui a fazer, porque não fiquei no sofá), que rapidamente desaparecem.

Este folheto foi aprovado pela última vez em: 01/02/2016.

Foto: sportsonfire

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Açores



Há muito que não corro com música. De resto, há muito que não corro. Mas, quando oiço música, raras são as vezes que não me vejo monte acima e abaixo.

Esta, particularmente, porque tem um nome especial, remeteu-me para o Faial Costa-a-Costa (ainda não encontrei melhor sensação na corrida do que, completamente exausta, descer a correr sobre cinzas para a meta), mas também muitos anos antes, 33 anos antes, para aquela que é a “Terceira” ilha, a rebolar, relva abaixo, depois de ter subido, junto à Messe de Oficiais na Base das Lages, com a amiga que hoje é madrinha da Inês e que me escolheu para madrinha da Leonor.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Bordão do Mário




Esta rica experiência tem que se transforma num tónico para inspirar o caminhante em novos desafios, sabendo sempre que o caminho se faz caminhando. A vida sem obstáculos perdia o sabor da glória no momento da conquista.

Assim escreveu Rui Nóbrega, dinamizador do grupo Madeira de Lés-a-Lés, enquadrando um outro texto. O do Mário.

Foi em maio último. O Mário fora desafiado para uma caminhada nível de dureza 5 (numa escala de 5). O nível de dureza concluí eu, depois de ler o que escreveu, claro. Qualquer coisa como “em números redondos, 3 horas para cima e 4 horas para baixo” (palavras do Mário), entre a Vereda da Achada dos Judeus e o Topo das Queimadas, locais que, apesar da minha “vasta” experiência de 85 km sobre pés, de lés-a-lés, naquela ilha, desconheço. Ainda. Lá voltarei, como de resto havia apalavrado com o Mário, 4 dias antes do dia em que o coração do Mário decidiu parar, já que o seu dono teimava em não lhe dar descanso.

Nesse texto que o Mário escreveu e me enviou, intitulado “Rocha, o homem caiu”, o homem que caiu foi efetivamente ele próprio, mas rapidamente se levantou porque, claro, e palavras dele, “havia todo um prestígio a manter”. Assim era o Mário.

Foi nesse texto também que soube existir a palavra “bordão”. “O que é? Um bastão?”, perguntei eu. “É uma espécie de cajado”, respondeu ele. O bordão. De madeira, pesado, a contrastar com essas modernices que uso, leves, em carbono, que encolhem e esticam, para não comprometer o desempenho do “atleta” e que, só para marcar a diferença, têm o nome de bastão. “Super Mário” era o que lhe chamava a brincar. Mais uma vez provava que o era. No sábado passado, antes de partir para a sua caminhada, enviou-me a foto do bordão. Vou guardar, qual relíquia.

Há um par de meses, quando fiz 40 anos, deixou-me três lindas garrafinhas de poncha da Madeira. Não tive coragem de lhe dizer que detesto licores ou bebidas doces. Mas as garrafas eram (são) lindas. Prometo que as vou esvaziar, por ele, para ele, brindando e exclamando o seu nome. Não por acaso, ainda há dias lia “there is no eternal resting place for anybody, we exist to eternally create”. O Mário que não pense que lhe vão dar descanso.

De resto, do Mário guardarei a contagiante alegria, a genuína amizade, os “olás” inesperados (e que sabiam tão bem) e os fantásticos momentos pós-foruns-europeus-sobre-qualidade-de-serviço-aeroportuário: o melhor kebab no tasco mais manhoso de Istambul e a requintada “raclete” no Café de l’Hotel de Ville de Genebra, onde o chefe dos empregados era emigrante português, proferiu com dificuldade a palavra “saudade” e nos deixou a ambos a choramingar.

Saudade é o que me, nos deixas. Olha por nós. Decerto estás bem e confortavelmente instalado nesse cantinho de céu que é teu por direito.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

É Natal há 2015 anos

Há uma pequena aldeia algarvia, a 8 km de São Bartolomeu de Messines e a 11 de Silves, onde ainda é garantida a missa de domingo e dias festivos.

É curioso como, por esse país fora, se fechem escolas e centros de saúde, obrigando os habitantes a percorrer distâncias desejavelmente evitáveis e, por aqui, a Igreja, através do pároco de Messines, continue a assegurar a "palavra do Senhor" junto de quem acredita.

Tive uma educação católica, cresci num colégio de jesuítas, mas quis a vida (ou quis eu) que me fosse afastando d'A Palavra, não dispensando no entanto, a visita de Natal à Igreja. Faz-me bem.

Hoje éramos 20 para ouvir o padre, apoiado pelo sacristão. Na assistência, a "irmã" "comandava" gentilmente os cânticos que as velhinhas, a muito custo, iam tentando acompanhar. Por entre 18 velhinhos (eu estou incluída no grupo), a Inês e o Diogo, únicas crianças presentes, foram rapidamente apercebidas pelo padre. E, a partir daí, a missa foi entre os três e o menino nas palhas deitado.

Entre leituras, o padre ia dialogando com os meus filhos, garantindo que mantivessem a atenção. Chegada a homilia, puxou de três cadeiras e levou-os para junto de si, frente ao altar, de costas para nós, mas voltados para o menino. E ali assistimos a uma conversa deliciosa, com os disparates típicos de crianças, por vezes "boquiabertas" (com que então temos que rezar pelos "maus"?), com o Diogo a anunciar que o amor não se compra e a Inês a esclarecer que Jesus tem 2015 anos, mas ainda está entre nós.

Orgulho e felicidade desmesuradas foi o que senti.

Se não for antes, cá estarei, nesta pequena igreja, daqui a um ano, para agradecer a sorte com que fui bafejada.

Venha agora a roupa velha, que tão feliz me deixa também.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Dois dígitos



A entrada nos dois dígitos.
10 anos de Inês.
10 anos a ser mãe.
Duas mãos cheias.
Cheias de coisas boas, cheias de coisas menos boas.
Cheias de alegrias, cheias de aflições.
Cheias de caras lindas, cheias de caras feias.
Cheias de mimos e beijos. Nunca nos esqueçamos, porque nunca são demais.
Cheias de “gosto tanto de ti” (e eu também gosto muito de ti), “o mundo não é justo” (pois não, Inês, não é), “és tão linda, mamã” (como és linda, Inês), “és feia” (pensaste mas não disseste, eu sei) e “leva-me a correr contigo” (sim Inês, levo-te a correr comigo).
Cheias dos teus olhos lindos e das tuas sobrancelhas farfalhudas (tu não estragues essas sobrancelhas, como eu estraguei as minhas, à tesourada, já te avisei).
Cheias de bilhetinhos e recadinhos, com a tua linda caligrafia (oxalá me escrevas bilhetinhos até ser muito velhinha).
Cheias. Cheias. Cheias.
E de coração cheio, é como me deixas!

domingo, 8 de novembro de 2015

Porto Sentido

Se há dois anos assumi o papel de chef e escrevi uma receita denominada "Maratona à Moda do Porto", hoje, agora mesmo, faço umas contas de merceeiro e concluo que posso demorar mais do dobro do tempo a percorrer 42 km do que aquele que preciso para percorrer cerca de 300 km. É apenas uma questão que se prende com o que levo debaixo dos pés. Mas não trocarei os ténis pelos pneus.
Há tempos escrevia o Fernando Andrade que a Prova Rainha merecia respeito. Pois bem. Hoje, a rainha pôs esta sua "serva" em sentido (tanto quanto posso estar, pois estou um pouco marreca). Há uns anos este papel cabia ao meu pai. O de me por em sentido, não marreca, claro.
Do lado de lá, a caminho da Afurada, caminhei bastante. Caminhei tanto que achei que assim não fazia sentido. Comecei então a caminhar para trás e quando me preparava para remover o dorsal, parei a olhar o rio e os atletas que já corriam na margem oposta. Segundos depois retomei a caminhada no sentido contrário. No certo. Certo para quem queria chegar ao fim.
Pontuada aqui e acoli de momentos de grande alegria, esta maratona trouxe-me de volta a Angela, que não via desde os 5 dias de Caminhos de Santiago, em 2014. A Angela, que está fora desta rede social, não me lerá, mas ouviu mais de três vezes o meu agradecimento (e viu lágrimas à mistura) por me ter voltado a por a correr junto ao Freixo, acompanhando-me até ao túnel, onde os Vangelis tocavam o Chariots of Fire (caramba, como nos fazem acreditar que somos invencíveis!).
É de facto a rainha com súbditos mais fiéis. Protestam mas voltam sempre. E nunca o Verão de São Martinho foi tão Verão. E amanhã lá estarei a descer escadas de lado.
Muito obrigada a todos os "força Susana", "é já ali" (e todos sabemos que nunca é, mas sorrimos), "allez Susáná" e todas as palavras de incentivo da fantástica equipa de voluntários que saiu para as ruas da segunda mais bonita cidade do país!

PS - Deixo a versão original, mas para quem conhece a do Mr. Bean, hoje fui o Bean!