segunda-feira, 22 de abril de 2013

Na corrida não há distâncias

Paradoxo? Talvez. Na semana passada alguém me disse que no trail running não havia distâncias. O contexto era claro. Esse “alguém” sugeriu-me que abandonasse o tratamento na terceira pessoa. Nada que me cause urticária. Nesta comunidade que é a dos corredores, sou a primeira a dizer “posso tratar-te por tu, certo?”. Mas, neste caso específico, a iniciativa do tratamento na terceira pessoa havia sido minha, já que se tratava de alguém muito respeitável que faz provas de 50 km com 3.000 metros de desnível acumulado em 5h35. Tinha mesmo que fazer uma abordagem com muito respeitinho.
Adiante. Agarrei nestas palavras e converti-as no título deste texto. E já irão perceber porquê.
O meu último texto publicado neste blogue relatava a magnífica experiência dos meus primeiros 50 km em Sesimbra e foi redigido e publicado a 15 de abril pela manhã. Muito longe de imaginar o que viria a acontecer umas horas mais tarde em Boston.
No dia seguinte uma citação que poderia ser interpretada de mil e uma variadas formas remeteu-me para a imprevisibilidade dos acontecimentos do dia anterior: “life is too short and unpredictable not to live it exactly as you please”. Decidi várias dezenas de coisas depois de a ler. Mais tarde cruzei-me com um texto da autoria de alguém que se auto-intitula “Dimity”, que traduzia tudo aquilo que sentia e estava incapaz de concretizar em palavras.
Não sendo adepta de calcar e recalcar tragédias humanas, tinha mesmo que escrever duas palavrinhas sobre o assunto.
Assumindo que quem me lê são pessoas mais ou menos apaixonadas pela corrida e que conhecem as maravilhosas sensações ao cruzar-se uma meta – seja de 5 km, 10 km ou 42 km – escuso de me perder em palavras para descrever o que senti, já que presumo que tenham sentido exatamente o mesmo. Adicionalmente, mesmo recorrendo a uma extensa lista de cerca de 435.00 verbetes (verbetes são as palavras que possuem significado no dicionário da língua portuguesa), dificilmente se exprime o turbilhão imenso que corre por dentro quando confrontados com este tipo de notícias.
Tal como escrevia a “Dimity”, autora do belíssimo texto “Boston Marathon: Undone”, somos bombardeados diariamente com notícias tristes, trágicas, devastadoras. Todas elas nos tocam de alguma forma. Mas esta… esta, nós, os corredores, estando ou não em Boston, sentimo-nos lá dentro. Naquele cenário. Ou porque já terminámos uma maratona e conhecemos o ambiente de festa que se vive. Ou porque já tivemos a nossa família a aplaudir-nos nos últimos metros. Ou porque corremos maratonas em 4h00. Ou porque… porque simplesmente já nos aconteceu tudo isto em simultâneo, como é o meu caso.
Questionamo-nos sobre como é possível atacar uma comunidade tão pacífica quanto esta. Uma comunidade onde de facto não há distâncias. Não há raças, não há credos, não há tratamentos na terceira pessoa. Não há idades, senão nos escalões previstos nos regulamentos. Não há distinção entre homens ou mulheres, senão nas tabelas classificativas. Há corredores. Que correm. Que adoram correr. Que se deslocam sós ou em grupo, com um sorriso nos lábios ou com a expressão de sofrimento, com a certeza de que, no final, o sentimento de satisfação e “dever” cumprido compensará todas as cãibras, tendinites e outras dores em geral. Mesmo aquelas que não têm registo de existência nos manuais médicos.
Voltando a Boston. Não adianta tentar encontrar respostas para um ato desta natureza. Não pode haver um racional por detrás de uma atrocidade destas. São monstros, não é gente. Para os que ficaram e perderam os seus familiares ou amigos queridos, inicia agora o processo de cura. Não sei como nos curamos de algo assim, mas desisti de tentar “walk on their shoes”. Duvido que conseguisse lidar com tanto sofrimento assim. Os que ficaram e foram física e psicologicamente afetados terão que provar que tudo é possível. Terão que o fazer para continuar a viver.
Entretanto ontem em Londres já decorreu a mítica prova 42 K daquela cidade. E, com as devidas homenagens, foi uma festa da corrida, dos corredores e de todos os que os apoiam. Outros corredores por esse Portugal e mundo fora dedicaram os quilómetros palmilhados a quem perdeu a vida a 15 de abril. A página oficial da Maratona de Boston já anuncia, e bem, a realização da prova em 2014 e nós… nós continuaremos a correr. Porque somos corredores.
Termino como comecei. Com palavras que não são minhas, mas nas quais acredito tanto quanto todos os metros que já corri: “if you’re losing faith in human nature go out and watch a marathon“. Quem o disse foi Kathrine Switzer. Dispensa apresentações.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Trilhos em Sesimbra cheiram a maresia e alfazema

Ontem a Susana obteve o melhor tempo no III Ultra Trail de Sesimbra! Afinal, afinal… afinal não era eu.
Começo este texto por felicitar a Susana Simões, a primeira senhora a passar a meta do Ultra Trail de Sesimbra, em 5h36m! 50 km de verdadeira montanha russa neste tempo recorde não é para todos. E houve mais gente do tipo “supersónico” -  dezenas de atletas masculinos e femininos cujos tempos afixados na lista de classificações me deixaram de queixo caído. Mas deixemos as vedetas ultra-planetárias do trail running e regressemos ao mundo dos modestos terráqueos como eu.

Um ano depois tinha que lá voltar

Foi há precisamente um ano que fiz a minha primeira prova fora de estrada, em Sesimbra. Na altura, aventurei-me na distância mais curta, que totalizava 23 km. Esta experiência foi de tal forma inspiradora que foi aqui que decidi que correria a minha primeira maratona. E assim aconteceu. Em outubro lá rumei eu a Amesterdão para cumprir a minha primeira missão 42.
Se há um ano Sesimbra foi palco para tomada de uma importante resolução, ontem foi resultado da tomada de uma ainda mais importante decisão, assumida no início de março – iria correr a minha distância mais longa.
Porquê? Porque sim. Porque simplesmente queria saber como é.
Confesso que foi uma semana particularmente turbulenta. Emocionalmente falando. Desconhecia o mundo para lá dos 42.195 metros. Adicionalmente, esta ultra-distância tinha a particularidade de somar cerca de 3.000 de desnível acumulado, pelo que seria também a minha experiência mais ondulada na corrida.
O despertador tocou às 4h30. O corpo desta vez não resistiu. Depois da ansiedade ao rubro no dia anterior, tinha mesmo que ir correr e fazê-lo tão depressa e bem quanto possível.

7 da manhã, aqui vamos nós!

A partida aconteceu às 7 da manhã em ponto, ainda o sol se espreguiçava. Já familiarizada com a primeira parte do percurso, segui calmamente com o habitual grupo de amigos das corridas e mais uns quantos atletas. Corremos em passada verdadeiramente calma, pois, quando demos conta, éramos efetivamente os “carros-vassoura”. Preocupados com isso? Nem um minuto. Corrijo, nem um metro.
Começa a subida em estradão de areia que já conhecia e depois… A descida paradisíaca até à Praia do Cavalo. Trilhos em single track, carregadinhos de pedras e arbustos que acarinhavam as minhas pernas, ontem livres de meias de compressão. Vivo melhor com arranhões nas pernas do que com calor, confesso.
Entre descidas e subidas, alguns participantes vão perguntando “isto é que é uma prova rolante?” e sorrio. Acreditem ou não, é mesmo rolante. Naquele momento foi a prova das Rolling Stones, ou como dizem os nossos hermanos espanhóis, piedras rolantes. Melhor que a designação “piedras rolantes” só mesmo a de um atleta que seguia uns metros atrás de mim, que exclamou “parecem berlindes!”. Aquela descida merecia ser filmada. Estou certa que encheria as salas de cinema com a melhor comédia do ano.

The wall

E, como tudo o que desce, sobe, diante de nós surge o primeiro muro da prova. Ainda não descarreguei a corrida do meu garmin, pelo que não sei precisar o declive da subida. Só não se torna assustador porque é extraordinariamente bonito. Sobe, sobe, sobe. Inspira e expira. Continua a subir. E sobe, sobe. Chegados ao topo, suspiramos e, voltando-nos para trás, deparamo-nos com um daqueles cenários idílicos, que vemos apenas naquelas fotografias perfeitas carregadinhas de retoques de Photoshop, que julgamos ser algures na Nova Zelândia. É lindo e é nosso!
Novo fôlego, agora para correr em terra salpicada de pedras, mas que permite ganhar alguma velocidade. Cerca do km 7, desvio para a esquerda e, aí sim, conheço o novo percurso. O dos 50. A partir de agora teremos cerca de 30 km praticamente sempre junto à linha de costa. Entretanto o Pedro e Ricardo já se haviam distanciado e fico para trás com outros atletas e com o Luís a marcar o ritmo. Já sei que não vale a pena insistir para seguir caminho. Decidiu que me ajudaria a completar os 50. Eu que detesto ser “empata” e protesto sempre mandando seguir os amigos, desta vez nem refilo. Tenho ainda 43 km pela frente e o Luís garantirá que me mantenho acordada e não esmoreço. Se não conhecem o Luís, digo-vos. Tem histórias para contar durante 8 horas!
O mar à esquerda e… Alfazemas. Ui, que cheirinho! Alfazemas aos molhos! Da próxima vez ficarei por lá uma tarde inteira a encher saquinhos de cheiro.

Isto é tudo nosso?

Já ontem escrevi e hoje mais sentido ganham as palavras depois de uma noite de descanso. Se houvesse uma lista “best of” dos percursos de trilhos em Portugal, o percurso Sesimbra-Praia do Meco ocuparia seguramente os lugares cimeiros. Falésias, arribas e um mar como não há igual. Um cheiro como não há igual. Maravilhosa a chegada ao Cabo Espichel. Descidas abruptas para as subir de seguida no lado oposto. Algumas são impróprias para quem sofre de vertigens. Felizmente, estou imune. Deve ser genético. O meu pai andou a dar piruetas no ar nos Asas de Portugal, pelo que devo achar que tenho asas que me acudirão se algo correr menos bem.
Faltam-me as palavras certas para descrever com a devida justiça e exatidão aquilo que os meus olhos viram. Uns estiveram lá. Outros decerto já terão visto algumas fotos de amigos do percurso de ontem. Ou até talvez já por lá tenham caminhado ou pedalado.  É de cortar a respiração.
O sol entretanto já vai alto e o calor aperta. À esquerda o mar continua a acompanhar-me, oferecendo-me a maresia e umas ondas gigantes onde só apetece mergulhar. “Este ano o percurso alterou e já não desce às areias da Praia do Meco”, disseram-me na partida. “Hummmmm, então se não tem areia, o que é isto?”, penso eu. Pela frente temos cerca de 5 km de areia. Fofa e fresca! Os sapatos enterram-se e lutam para sair. As pernas já vão cansadas. Não desistimos. Alguns atletas sentam-se a contemplar o mar. Outros andam. E quem pode, corre. Os quilómetros acumulados e o calor já não permitem grandes raciocínios, mas sei que chegámos à Praia do Meco porque avisto um nudista a tocar guitarra!
Com 1 kg de areia em cada pé, descemos até à praia. E que descida esta. Estou certa que conhecerão as célebres mega-dunas do Meco. Descer as mesmas de ténis e a correr é das experiências mais divertidas que experimentei nos últimos tempos. Da próxima vez que for à praia, acompanho a Inês e o Diogo nas suas brincadeiras.
Passamos à frente do Bar do Peixe e já muitos almoçam na esplanada. Sonho com sangria e amêijoas à Bulhão Pato. Peixe grelhado escalado e uma salada de tomate carregadinha de orégãos. O Luís exclama “vá, vamos embora, tenho aqui uma sandwiche de presunto”. Encolho os ombros e sigo caminho. Certo é que essa sandwiche viria a reverlar-se vital uns quilómetros adiante e a ter o gosto de robalo de mar grelhado, regado com sumo de limão.
Mais à frente a sombra de uma centenária oliveira serve de abrigo. Sento-me para tirar a areia dos pés. “Será que me conseguirei levantar depois?”, penso. Arrisco. Faço-o tão rápido quanto possível, para que o corpo não cole ao chão. “Depois disto, dou por terminados os meus treinos em areia para a UMA em julho”, digo em tom de brincadeira. E, uma vez mais, seguimos caminho.

Depois das falésias e da areia, o resto!

A partir de agora, o percurso segue rumo ao interior. Umas vezes mais arenoso, outras mais compacto, vai-nos oferecendo a sombra dos pinheiros e algumas subidinhas ligeiras, que 32 km depois parecem rampas a 45%. Vejo azedas, mas desta vez nem me agacho para as apanhar. Os joelhos cederiam!
Os meus olhos já só veem as fitas de marcação. O Luís fala para que não esmoreça. Fala de triliões de pessoas que não conheço, diz os nomes de todos e fala, fala, fala. Se me perguntarem hoje sobre o que falou, não sei responder. Acho que já não estava ali.
43 km  e chegamos à pedreira. A pedreira que, por algum motivo que desconheço, mexe comigo sobremaneira. Aquele cenário árido e branco transporta-me até um planeta distante. Este ano não foi palco para tomada de nenhuma decisão importante. No que a corridas diz respeito, o calendário desportivo está definido há muito!
Está quase, mas ainda falta a subida ao Castelo de Sesimbra! E essa já eu conheço do percurso dos 23 km em 2012. Subimos, subimos e subimos mais um pouco. Ao topo, os elementos da organização fazem a festa! Bebo um copo carregadinho de coca-cola e inicio a descida. Quero chegar à meta!

A correria para a meta

A descida é feita com rapidez. Não sei de onde saiu a energia para o fazer, mas deveria estar de reserva num qualquer cantinho do meu corpo. Ultrapassamos alguns atletas e, chegados à estrada que nos conduzirá à meta, os pés ganham vida própria. Em velocidade (5’20’’ para o último km depois de 49 km a correr), ziguezagueamos por entre as centenas de pessoas que passeiam pelo passadiço. Vejo o amigo Rui Pedro a passear e solto um grito estridente de alegria. Ouviu-se 20 km lá atrás, na Praia do Meco, estou certa.
8h29m52s, 52,14 km e 2.806 metros de sobe e desce depois… A meta!
O sorriso que me acompanha ao chegar à meta é do tipo “desmesurado”. Telefono à família para os tranquilizar. Descalço-me e… atiro-me ao mar, para o primeiro banho do ano e aquele que julgo ter sido dos mais saborosos nos últimos 37 anos.

Ultra?! Ultra-caracoleta, isso sim!

Foi duro, delicioso e repetirei. Não gosto muito dessa história da ultra. Se insistirem na ultra, então ultra-caracoleta estará perfeito. E sinto-me bem assim.
É este o meu ritmo. Corro como sei, como posso e como gosto. No meu íntimo subi ao pódio. Cheguei ao fim!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Trilhos, batuques e gerberas em Almourol

Passei a semana a sonhar que domingo chegasse. Agora dou comigo a desejar que não tivesse terminado. Se dúvidas ainda tivesse quanto à minha opção de privilegiar a terra relativamente ao asfalto, hoje tê-las-ia dissipado nos Trilhos do Almourol. Está confirmado. É isto que quero e não quero outra coisa.
O destino desta manhã chamava-se “Curva do Rio”. Embora existam opiniões divergentes, pensa-se que o topónimo “Almourol” tenha origem na palavra celta “moraul”, que significa “curva do rio”, com o prefixo árabe “al”. Curva ou contracurva, foi lindo. Parafraseando o José Brito, um dos organizadores da prova, foi realmente do camandro, do catano e do caneco!

O despertador

5:00 da manhã. A 240 km de distância – uma Marathon des Sables, portanto – oiço um despertador. O sono era tão profundo que assim soava verdadeiramente. “Este despertador não é meu”, pensei. Mas efetivamente era. Aquela doce melodia tocava, dizendo-me que estava na altura de deixar para trás o edredon. Já me deitei ocasionalmente às 5:00 da manhã. Confesso que não me recordo de acordar tão cedo. Menos ainda com o objetivo de ir correr. Ainda meio acabrunhada, lá saí, rumo ao ponto de encontro em Lisboa onde me juntaria a um grupo alargado de amigos atletas com o mesmo fado que eu.

A partida

Primeiro passo – o levantamento dos dorsais. Assim que recebi o meu saquinho e espreitei o conteúdo, pensei “isto só pode correr bem”. O detalhe. Se há cuidado nos pequenos detalhes, tudo o resto só poderá estar perfeito. Pois bem. O dorsal lá vinha com os dois furinhos feitos, pronto a ser colocado no porta-dorsal. Este pormenor é tão mais importante quando se está a estrear orgulhosamente o equipamento novo, que dispensa furos de alfinetes!
Seguiu-se a viagem de autocarro até Constância para quem correria os 25 km, que afinal foram apenas 24. Na partida, aprontam-se cerca de 300 atletas. Curiosamente nos 42 km aventuraram-se quase 400. Ganham fundamento as palavritas que escrevi há dias e começo a descobrir a resposta para a questão “se correr 10 km é muito bom correr 100 km será 10 vezes melhor?”.
Pequeno aquecimento antes da partida, por insistência do Ricardo e Verónica. “Vou correr 25 km, tenho muito tempo para aquecer”, resmungo eu. Olho para o lado. “Pigeon pose”! É tão bom vermos os nossos “credos” confirmados! Um atleta aquece fazendo a minha tão querida posição do pombo, perfeita para trabalhar a abertura de ancas. Segue-se o “down facing dog” e sinto-me tentada a ir corrigir a postura das costas. Fiquei sossegadinha a observar, claro.

A largada e a fugida

Para os três – Ricardo, Susana e Verónica – começam 24 maravilhosos quilómetros. O Luís e a Rita também estão por perto para ajudar à festa.
Ora empedrado, ora cascalho. Ora terra seca, ora lama. Ora sobe, ora desce. Ora perto de água, ora longe dela, mas perto de campos pontuados de flores. “Hummmm, cheira bem!”, penso. De resto, eu diria que a Primavera terá chegado hoje a Almourol. Penso que terei ingerido mais de meia dúzia de mosquitos ou qualquer bichinho do género. É o que dá falar demais. Mas porquê preocupar-me? “É proteína, Susana, é proteína!”, convenço-me.
Adorei correr ao longo da linha de comboio. Se tivesse aparecido algum, teria corrido atrás da última carruagem, tal qual filme de aventura. A dado momento oiço gritos, aplausos e batuques. Estamos quase a chegar ao castelo. “Mas, o que se passa?”, pergunto. Ecos, muitos ecos. Um quilómetro adiante iria perceber. Passamos pelo interior do Convento do Loreto e lá dentro esperam-nos várias dezenas de jovens que tocam e fazem malabarismos. Quanto entusiasmo! Venho mais tarde a saber que se tratam dos MOVIRITMO, da Escola Luís de Camões em Constância. Um pouco depois, o abastecimento com líquidos e sólidos, onde não faltam as tostinhas com mel de que tanto gosto. Demoro-me um pouco por lá, claro está.
Bem docinhos, seguimos caminho. Espera-nos lama e cascalho. Mais subidas e descidas. Ainda assim, não me recordo de correr tanto numa prova desta natureza. Geralmente sou obrigada a caminhar com mais frequência. Aqui posso correr. E como gosto de correr! Chegam uns singles tracks onduladinhos e sorrio. “Adoro isto”, digo à Verónica. Entretanto começamos a cruzar-nos com os caminheiros. A organização dos Trilhos do Almourol não criou a categoria “equipa simpatia” na lista dos premiados. Devia tê-lo feito. Os 225 caminheiros ganhariam com distinção!

Uma meta com um presente especial

E assim chegámos à meta. Tal como começámos. O Ricardo, a Susana e a Verónica. O Ricardo foi um autêntico instrutor e estou certa que saímos de Almourol umas profissionais dos trilhos. A Verónica foi uma verdadeira valente que, correndo lesionada e estreando-se nos trilhos, subiu ao pódio para receber o prémio de 3.º lugar na sua categoria. Já eu… Bem, ainda não encontrei a Anna Frost que há em mim, mas continuarei a tentar!
Se começaram bem, os Trilhos do Almourol fecharam ainda melhor. Gerberas! Como adivinharam que é a minha flor preferida? Gerberas para as senhoras atletas! Uma gerbera cor-de-laranja para a Susana para fazer pandã com o equipamento. Se é para ser pirosa, há que assumi-lo com naturalidade até ao final.
Pela primeira vez cheguei antes do outro elemento do recém-criado grupo de amigos +Kms – o Pedro. De resto, até cheguei antes dos três simpáticos georunners papa-léguas e do Luís, a quem todos chamam tigre. Também cheguei antes do Iosif e fiz pirraça, claro. Não me interessa que tenham galgado 42 km. Cheguei primeiro e estava de banho tomado!

O descanso (posso acrescentar “da guerreirinhazinha”?)

Há dias, a amiga Gília das corridas partilhava o seu estado, depois de mais uma corridinha à beira do Tejo: “cansada, mas feliz”.
Pois bem, é como me sinto.
Com a certeza também que voltarei em 2014… Para a versão 42 dos Trilhos do Almourol!
Mas agora… Agora descanso, para voltar para a semana com a partilha daquilo que espero ser um ultra-relato. Façam figas.
Desejos de ótima semana!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Se correr 10 km é muito bom, correr 100 km será 10 vezes melhor?

Depois de uma semana de férias bem molhada, estou de regresso.
Apesar de encharcada, o balanço é seguramente positivo. Estive com a família, retemperei energias, corri quando pude e… li! Li muito. Algo que infelizmente tenho descurado na minha rotina diária e que devo imperativamente voltar a implementar de forma disciplinada. Tal como a corrida!

Leituras, sonhos e loucuras

Nestas férias o tema mais procurado nas minhas pesquisas foi a corrida e tudo o que lhe está associado. Li várias dezenas de artigos, mas um deles ficou a marinar no meu subconsciente.
“Extreme distance running: too much of a good thing?”.  Assim que li este título, viajei até outubro de 2012 e à 3.ª série do AX Trail na Serra da Lousã. Recordei o momento em que subia uma “parede”, lado-a-lado com a Ana Guimarães, irmã do José Guimarães. Naquele dia, eu e a Ana corríamos (quando podíamos) os 30 km da versão mais curta da prova, enquanto o Zé e outros valentes galgavam a mesma serra por uns longos 82 km. “Onde vai o teu irmão buscar forças para os 82? E, acima de tudo, porque o faz?”, recordo-me de lhe perguntar enquanto subíamos serra acima.
Entretanto já vários meses passaram e verifiquei que esta história das ultra-distâncias ou distâncias extremas é mais comum do que pensava. Há várias centenas de “absolutamente locos que corren” por aí! E nem falo dos profissionais das ultras. Falo de gente comum, que trabalha e treina fora de horas para, de quando em vez, se aventurar nuns modestos 100 ou mais km. Conheço um grupo de gente maravilhosa que vai em breve estrear-se nos 101 de Ronda. Não fazem outra coisa senão correr. E correm, correm. No dia seguinte correm também. E até correm duas vezes ao dia! Não se cansam?!

Tudo, nada ou um pedacinho?

Diz-nos a sabedoria popular que a moderação é a chave do sucesso para tudo na vida – o que comemos, o que dormimos, o que trabalhamos. A moderação deve ser o nosso “mantra”.
Nos anos mais recentes este “mantra” ter-se-á estendido ao exercício físico. Os cientistas de laboratório dizem-nos que devemos exercitar o nosso corpo apenas algumas horas por semana para combater doenças cardiovasculares ou prevenir o cancro e viver melhor. Vários investigadores dizem que 15 a 20 km de corridinhas por semana podem acrescentar anos às nossas vidas.
Mas digam lá isto às centenas, milhares e dezenas de milhar de corredores para quem 20 km numa semana não são mais do que um passeio no parque. Para estes corredores não se trata de uma coisa que tenham de fazer. Trata-se de… Ser o que são!
Esta estirpe considera que não há nada mais natural do que correr 150 km por semana. Se necessário for, e porque o dia é limitado, correm de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Atendem o telefone enquanto correm para resolver o problema de um cliente ou o desabafo de um amigo.
É possível que o exercício em excesso possa eliminar os benefícios que se retirariam do exercício em doses moderadas. É possível também que quilometragem a mais conduza mais rapidamente ao aparecimento de lesões, caso não haja uma preparação adequada. Há quem diga que os desportos de “endurance” impõem muito stress ao nosso organismo. Outros contrapõem dizendo que o “hardware” do corpo humano está geneticamente preparado para ser testado até aos limites.
Em boa verdade, as vozes na corrida não são diferentes das que se insurgiram contra o azeite há uns anos atrás, vangloriando o óleo alimentar. Depois voltou tudo atrás. Mais tarde a manteiga versus a margarina. E, afinal, haviam-se enganado outra vez!

A curva em “U”

De toda a forma, a curva em forma de “U” é geralmente aceite pela comunidade científica, indicando que, quanto maior o esforço, maior o benefício que retiramos da corrida, mas apenas até um determinado ponto. Depois desse ponto, os benefícios deixam de existir, sugerindo que existe um nível máximo de exercício até se tornar “não-saudável”. Isto significa que alguém que corre 40 km por semana pode efetivamente ser mais saudável do que um corredor que corre 100 km no mesmo período.
Uma coisa é certa. Se todos estão de acordo quanto à curva em forma de “U”, poucos conseguem concluir qual é efetivamente o nível máximo de exercício que constitui esse ponto de viragem. Qual o teto que nos faz mal. Dizem inclusivamente que assumindo que existe um nível de segurança, ele estará provavelmente fora do alcance da maioria dos atletas. Boas notícias, então!

Corre até onde te leva o coração!

Resumindo e baralhando. Não sou cientista, é certo. Mas acredito verdadeiramente que se correr 10 km é bom, correr dez vezes a distância nos trará 10 vezes o prazer, a satisfação, o orgulho. “Puxa, eu consigo tudo isto? Então faço qualquer coisa!”, devem pensar. Eu pensei desta forma quando terminei a minha primeira maratona. Foi o limite estabelecido na altura. E, passo a passo, se vão construindo novos limites e objetivos. E é tão válido o objetivo de completar 5 km para quem se está iniciar na corrida, quanto concluir os 240 km da Marathon des Sables para o Carlos Sá e a Analice Silva!
Como diria uma outra Susana, a Susanna Tamaro, e fazendo a devida adaptação “corre até onde te leva o coração”! O coração leva-nos sempre a lugares maravilhosos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Corri com o Ludovico Einaudi

Trilhos do Pastor… Será que os pastores têm uma vida tão dura assim? Tão ondulada e cheia de pedra? Valentes pastores.
Antes de adiantar mais uma linha que seja, terei naturalmente que explicar a razão de ser deste título.
Há algumas semanas atrás, o José Guimarães escreveu um artigo relatando o seu treino em Sintra com um verdadeiro fenómeno da corrida,  intitulando-o de “Corri com o Dean Karnazes“. Perceberam?!

Trilhos com pautas

Confesso que não faço ideia se o Ludovico Einaudi corre, mas pouco importa. Hoje correu comigo.
Depois do concerto na sexta-feira no CCB fiquei em modo “peixe-balão”. De coração cheio. É impressionante como o Universo se mobiliza e coloca neste mundo gente tão talentosa. Gente que coloca o seu talento ao serviço de outros, para se sentirem mais… mais de coração cheio! Todos os corredores experientes dirão que é má ideia ouvir música num treino ou prova de trilhos. Os sons da natureza merecem ser ouvidos na sua genuinidade quando temos oportunidade, dizem. Assim aconteceu nas minhas 4 anteriores experiências em trilhos. Vejo-me obrigada a discordar depois de ter vivido o que vivi hoje.

Susana, Hollywood e Analice

Durante cerca de 4 km corri ouvindo a minha respiração e passada. Troquei algumas palavrinhas com algumas caras que já vou reconhecendo de outras provas em estilo “trilhos”.
Depois… Bem, depois…
Não ouvi os sons da natureza, é certo, mas a visão ficou mais nítida e vi tudo a 5D (isto existe?).
O olfato apurou também e distingui o cheirinho de cada folha, flor, arbusto ou árvore  que me rodeava.
Quanto à audição… O piano de Einaudi, acompanhado dos violinos e da guitarra clássica fizeram-me sonhar enquanto corria. Fugia de tropas francesas que queriam dizimar índios. Fui o Daniel Day Lewis no filme “The Last of the Mohicans“. Fui uma escocesa rebelde que fugia das tropas inglesas. Fui o Mel Gibson em “Braveheart“. Fui gladiadora e vingava a morte de pobres e oprimidos. Fui o Russel Crowe em “The Gladiator“. Fui tudo isto ao som de “Life“, “Run“, “Walk“, “Experience” e, a minha preferida, “Waterways“.
Chegada a um dos pontos mais altos da prova, o Einaudi ofereceu-me o tema “
Divenire“. A Serra d’Aire e Candeeiros ofereceu-me mais de uma dezena de moinhos de vento, que “diveniram” verdadeiras bailarinas, dançando com elegância e sincronia ao som do piano e violinos.
A dada altura vi uma cabecinha ao fundo – é a Analice! Acelerei um pouco. Recolhi a música e falámos um pedacito. “A menina siga, que vai bem”, disse-me. Respondi-lhe que não tinha pressa. Voltou a insistir e acabei por passar. Voltei à minha música e, depois deste encontro, viajei até ao deserto. Que coragem.
Escusado será dizer que alguns quilómetros mais tarde, voltou a ultrapassar-me. Tentei seguir-lhe no encalço, lembrando-me que a senhora que corria à minha frente tem mais 30 anos do que eu, pelo que eu podia, no mínimo, esforçar-me um pouco mais. Não resultou. Perdia-a de vista!

Azedas e caminhos… amargos!

“Preciso do meu isotónico, onde anda ele?!”, pensei. Bem pensado, bem feito. Deparo-me com um pequeno campo pintalgado de azedas. Agarrei num molho e fui roendo alegremente. Sabem lá como gosto de azedas.
Cheguei ao abastecimento das “papinhas” sem dorsal. Havia-se soltado logo no primeiro km da prova e optei por o dobrar e prender no cinto das garrafinhas de água. Nem dei por o ter perdido. Ainda estava nas minhas justificações e palhaçada junto do elemento do controlo quando chega um atleta com o meu dorsal na mão. Estava safa. Quatro gomos de laranja e um cubo de marmelada depois, agradeci e prossegui. Bem, verdade seja dita, prossegui muito devagar porque o que me aguardava não era próprio para meninas. Para ajudar, começa a chover desenfreadamente. Subi como pude, desejando que acabasse depressa, mas havia sempre mais um pedaço para subir. Quando finalmente inicia a descida, as pernas e joelhos estão tão massacrados que o corpo prefere antes continuar a subir. Acho que desliguei depois desta parede. Depois de a subir e de a voltar a descer. Faltavam ainda 5 km. Quem corre em trilhos sabe bem que pode demorar-se uma hora a percorre-los.
E eu desconhecia o que me esperava. A criticidade do percurso que se seguia assentou na pedra e não na altimetria. Pedra, tanta pedra. Bem podiam ser aquelas redondinhas e macias que nos massajam os pés na praia, mas não. Estas pedras decidiram ser angulares, bicudas, feias, más, terríficas, odiosas. Mas não havia outro caminho. Segui. E perdi novamente o dorsal.

O cem chega finalmente à meta

Chegada à meta lá disse numa voz sumida que era o cem. “Sem número?”, perguntaram. “Não, o meu dorsal é o cem!”. Nunca um dorsal foi tão falado. Na meta esperam-me os meus amigos. Já todos chegaram, já se aprontaram e querem almoçar, pois claro.
Alguns minutos depois, tocam-me no ombro. Volto-me e lá está ele! O meu “cem”, pelas mãos do mesmo atleta, eleito o atleta-recupera-dorsais dos Trilhos do Pastor – o Manuel! Eu que sempre “despachei” os dorsais das provas para o contentor da reciclagem, guardarei este com carinho. E voltarei ao pastoreio no ano que vem. Valeu bem a pena.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Atleta solitário

De cada vez que oiço o “Surfista Solitário” do Gabriel, o Pensador, os pensamentos fogem para a minha green, há tanto tempo encostada na parede da arrecadação e a precisar de sal. Na realidade, não sei quem precisa mais de água salgada – se a prancha, se eu.
Oiço o “Surfista Solitário” e penso também como a letra, devidamente adaptada, poderia constituir o hino dos triliões de corredores que por aí andam. Corrijo, correm. Corredores solitários. Aquilo que sou na maioria das vezes e, confesso, gosto verdadeiramente.
Quem me conhece sabe bem que não sou “bicho-do-mato” ou da estirpe de gente anti-social, mas há qualquer coisa realmente especial no ato de correr comigo própria. Talvez o dia-a-dia seja demasiado ruidoso, demasiado cheio de gente, demasiado veloz – atenção, nenhum destes adjetivos deve ser entendido de forma negativa – e, por isso, privilegie alguns momentos só.
Como eu, há muitos corredores que apreciam correr sozinhos. Por vezes brinco dizendo que sou corredora independente. Sou uma Susana por conta d’outrém em tantas coisas – o Governo e o “patrão”, por exemplo – que procuro na corrida o modelo “por conta própria”, para equilibrar a balança.
Corredores solitários… Somos nós quem decide o horário, somos nós quem define o percurso, somos nós quem impõe o ritmo. Ouvimos a nossa música ou simplesmente os sons da natureza. Usamos o tempo para pensar no que quisermos. Ou simplesmente não pensar de todo e concentrar exclusivamente na passada e na respiração. Nós mandamos. E sabe bem.
Gabriel, não te zangues comigo, mas vou ensaiar a “devida adaptação”, numa modesta reciclagem, já que me falta 99% do teu talento e arte da poesia. Embora me considere uma corredora e não uma atleta, a segunda opção é mais melódica, pelo que será a versão selecionada para este promissor hit.
Olhei pra estrada, pra não me perder de vista
E vi um caminho solitário, seguindo sem parar
Como se fosse ele o corredor
O caminho olhou pra mim, me convidou, me convidou a entrar
Oferecendo o alcatrão, a areia e o cascalho sem pudor
E eu que não sou bruxa, mas entendo de milagre
Fui correndo sobre a estrada do jeito que só quem corre sabe
Acorde num domingo, tome o seu café
Pegue os seus ténis, tome o seu som
Reze com fé e vai correr
E vai correr!
Solitário Atleta (repetir)
Caminho doce caminho, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração
Que não cabe nesse mundo e precisa transbordar
Sprintar não é preciso, é preciso é rolar
Nada parado, tudo em movimento
O chão é o meu tapete e o céu é o meu teto
O tapete me puxando e eu lá dentro, acelero e acelera o batimento
Devagar, devagarinho, ao longe vou chegando
Cada louco tem a sua loucura
Eu corro por isso, esquecendo a contratura
A serotonina me chama, eu não resisto
Sei que a corrida tem a sua maneira de transformar
Uma lenta tartaruga numa lebre, parece feitiço
A serotonina me chama, eu corro atrás disso
Solitário Atleta (repetir)
Acorde num domingo, tome o seu café
Pegue os seus ténis, tome o seu som
Reze com fé e vai correr
E vai correr!
Solitário Atleta (repetir)
Cheguei na serra, olhei pra serra, entrei no trilho
Entrei no trilho, olhei pra rampa, entrei na rampa
Entrei na rampa e fiz a rampa até ao fim
Entrei no trilho que corre na minha aldeia
O meu trilho não é um trilho qualquer
Do meu trilho eu saio de cabeça feita
E na minha serra uma cascata perfeita sorrindo pra mim
Mais perfeita do que a cascata mais perfeita
Adivinha meu desejo de água pura e gélida
Me observando, trilhando por aqui e por ali
Cheguei na água, entrei na água e logo mergulhei
Cada músculo e tendão das minhas pernas
Beleza da natureza, uma maravilhosa surpresa
Corredor virando sapo, um sapo com pernas de gente
Continuando, trilho abaixo, heroicamente!
Solitário Atleta (repetir)
É isso aí, é isso aí, é isso aí!

quinta-feira, 14 de março de 2013

Correr com batom

Batom ou bâtons?

Sim, leram bem. Eu escrevi batom. Não escrevi “bâtons” (à la française) ou bastões (à la portugaise)!…
Gostam do vermelho forte do batom “Moulin Rouge”? Então podem continuar a ler. Caso não tenham qualquer gosto particular pela cor ou produto, convido-os a desistir. Ou eventualmente ficar mais um pouco. Quem sabe estas palavras vos possam vir a ser úteis. De toda a forma, este texto tem um foco muito particular. Miúdas. E graúdas também. Por isso, escreverei para elas.
Ainda estão aí? Eu sabia que os homens iriam ficar. Ainda assim, continuarei a escrever para elas.

A primavera a chegar… e a seguir… O verão!

Eventualmente ainda não se terão dado conta, mas os dois primeiros meses do ano já passaram. O tempo voa efetivamente e, não tarda, estarão a acordar de manhã cedo, desejando colocar os pezinhos descalços na areia quente. E, quando esse dia chegar… Já sabemos. Vão protestar com o espelho e com o bikini do ano passado, que terá tido a ousadia de encolher durante o outono e inverno, enquanto repousava candidamente na gaveta do roupeiro. Fiquem atentas porque vão querer saber mais sobre o que a Sofia Novais de Paula e o José Guimarães prepararam, pensando nesse dia e no vosso bikini.
Correr pode ser tão divertido quanto delinear cuidadosamente o batom. Não sei se correr com bastões é divertido – nunca experimentei -, mas correr, com ou sem batom, vos garanto, é das melhores coisas que nos podemos oferecer a nós próprias. De resto, atrevo-me a dizer que é muito mais fácil correr do que não esborratar o batom no processo de maquilhagem matinal.
Já não sou miúda, é certo, mas às vezes gosto de pensar que sim. Talvez a corrida me tenha tornado mais nova. Diz-se por aí que a corrida acelera o metabolismo. Por ser uma atividade de alto impacto, envelhece mais rapidamente quem corre. Teorias há muitas. Seja como for, prefiro chegar mais depressa a velhinha, mas sentindo-me bem, do que o contrário.

O tempo, “ai e tal”, não tenho tempo…

Sou mãe de duas crianças pequenas. Por isso não se atrevam a dizer “ai e tal, não tenho tempo”. Trabalho a tempo inteiro. Mais uma vez vos digo. Ter trabalho (e remunerado) é coisa de gente com sorte, por isso nada de desculpas.
Comecei a correr há cerca de 2 anos. Não tinha relógio nem marcas no piso, mas devo ter corrido cerca de 4 km. Não foi divertido. A sério. Não teve qualquer graça. Ainda assim, não parei. Dois dias depois repeti a dose. E outros dois dias depois. E assim sucessivamente. Entretanto já lá vão cerca de 800 dias. Não andarei longe da verdade se vos disser que, em 500 deles, calcei os ténis e fui correr. Por aqui, por ali, por onde calhou.
Adquiri um relógio ”xpto” um ano depois de ter começado a correr. Ainda não completou 365 dias de vida e diz-me que já queimei 61.118 kcal nas minhas corridas. Ora se não tivesse corrido, onde as teria guardado? Pensem nisso. As calorias não são aqueles “bichinhos que dormem nos nossos armários e, durante a noite, encolhem as nossas roupas”. A caloria é uma unidade de medida de energia. Logo, caloria é energia.
Não sou muito dada a química e física, mas é fácil concluir que não nos fará bem acumular tanta energia. Há que a queimar. O corpo e a mente irão decerto agradecer. Queimem-na como quiserem. Eu sugiro que o façam correndo. Em média, numa corrida leve de 8 km – nada de pressas – queimamos 400 kcal. Ora agora sim – serão menos 400 bichinhos a povoar e a conviver no nosso organismo, roubando o espaço que tantas outras coisas boas merecem.

Anda tudo louco ou isto da corrida é mesmo bom?!

Estéticas e calorias à parte, já se interrogaram porque anda meio mundo a correr desvairadamente pelas ruas desta cidade? As mensalidades dos ginásios não encaixam no orçamento, é certo, mas… Será só isso? E… Já ouviram porventura algum desses desvairados dizer que começou a correr mas depois desistiu? A corrida liberta muito mais do que gotinhas de suor, acreditem. Se não constava da vossa lista de resoluções para 2013, vão seguramente querer fazer um upgrade. Fiquem atentas. Está na hora. Vão começar a correr.
Para terminar, reproduzo algumas palavras que encontrei num excelente artigo sobre corrida do jornal “O Expresso”, publicado em setembro de 2012. Está tudo lá. Na altura, a poucas semanas de partir em busca dos meus primeiros 42.195 metros, sublinhei todos os testemunhos que me tocaram. De mães, de pais, de profissionais. Gente comum, gente da ribalta. Mas tudo gente que corre. “É uma espécie de higiene pessoal, uma disciplina de que não abdicam, e que encaixam acrobaticamente em horários blindados”. “Não posso negar que sou viciado na corrida”. “Viajar para correr passou a ser um ritual”. “Preciso é de música de carrinhos de choque”. “E é mais barato do que ir ao psicólogo ou comprar sapatos”. “Como uma praia em Porto Santo, sem uma única pegada antes de eu passar”. “Aquilo que outros encontram na meditação ou na fé, eu encontrei na corrida”. “Sempre corri sozinho. Para mim é um ato intimista. Completo-me desta maneira”. “Quando corro sozinha resolvo imensos problemas”. “O meu marido não me acompanha, mas respeita a minha necessidade de correr. Ele acha que para percorrer 42 km existem os carros”. “Dá para ter uma progressão muito rápida, e isso é motivador. Isto entranha-se”.
Acreditem. Nós, os que corremos, não somos uns desvairados. Somos uns afortunados porque já descobrimos o quanto a corrida nos faz bem.

Toma nota: começas a correr já no próximo domingo!

Prontas para começar?
O tiro de partida para a vossa admirável nova vida é já no dia 17 de março (nada de planos a longo prazo – começa já!), com partida na ACADEMIA em Santos, pelas 9h00, na companhia da Sofia e do José!