segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

É Natal há 2015 anos

Há uma pequena aldeia algarvia, a 8 km de São Bartolomeu de Messines e a 11 de Silves, onde ainda é garantida a missa de domingo e dias festivos.

É curioso como, por esse país fora, se fechem escolas e centros de saúde, obrigando os habitantes a percorrer distâncias desejavelmente evitáveis e, por aqui, a Igreja, através do pároco de Messines, continue a assegurar a "palavra do Senhor" junto de quem acredita.

Tive uma educação católica, cresci num colégio de jesuítas, mas quis a vida (ou quis eu) que me fosse afastando d'A Palavra, não dispensando no entanto, a visita de Natal à Igreja. Faz-me bem.

Hoje éramos 20 para ouvir o padre, apoiado pelo sacristão. Na assistência, a "irmã" "comandava" gentilmente os cânticos que as velhinhas, a muito custo, iam tentando acompanhar. Por entre 18 velhinhos (eu estou incluída no grupo), a Inês e o Diogo, únicas crianças presentes, foram rapidamente apercebidas pelo padre. E, a partir daí, a missa foi entre os três e o menino nas palhas deitado.

Entre leituras, o padre ia dialogando com os meus filhos, garantindo que mantivessem a atenção. Chegada a homilia, puxou de três cadeiras e levou-os para junto de si, frente ao altar, de costas para nós, mas voltados para o menino. E ali assistimos a uma conversa deliciosa, com os disparates típicos de crianças, por vezes "boquiabertas" (com que então temos que rezar pelos "maus"?), com o Diogo a anunciar que o amor não se compra e a Inês a esclarecer que Jesus tem 2015 anos, mas ainda está entre nós.

Orgulho e felicidade desmesuradas foi o que senti.

Se não for antes, cá estarei, nesta pequena igreja, daqui a um ano, para agradecer a sorte com que fui bafejada.

Venha agora a roupa velha, que tão feliz me deixa também.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Dois dígitos



A entrada nos dois dígitos.
10 anos de Inês.
10 anos a ser mãe.
Duas mãos cheias.
Cheias de coisas boas, cheias de coisas menos boas.
Cheias de alegrias, cheias de aflições.
Cheias de caras lindas, cheias de caras feias.
Cheias de mimos e beijos. Nunca nos esqueçamos, porque nunca são demais.
Cheias de “gosto tanto de ti” (e eu também gosto muito de ti), “o mundo não é justo” (pois não, Inês, não é), “és tão linda, mamã” (como és linda, Inês), “és feia” (pensaste mas não disseste, eu sei) e “leva-me a correr contigo” (sim Inês, levo-te a correr comigo).
Cheias dos teus olhos lindos e das tuas sobrancelhas farfalhudas (tu não estragues essas sobrancelhas, como eu estraguei as minhas, à tesourada, já te avisei).
Cheias de bilhetinhos e recadinhos, com a tua linda caligrafia (oxalá me escrevas bilhetinhos até ser muito velhinha).
Cheias. Cheias. Cheias.
E de coração cheio, é como me deixas!

domingo, 8 de novembro de 2015

Porto Sentido

Se há dois anos assumi o papel de chef e escrevi uma receita denominada "Maratona à Moda do Porto", hoje, agora mesmo, faço umas contas de merceeiro e concluo que posso demorar mais do dobro do tempo a percorrer 42 km do que aquele que preciso para percorrer cerca de 300 km. É apenas uma questão que se prende com o que levo debaixo dos pés. Mas não trocarei os ténis pelos pneus.
Há tempos escrevia o Fernando Andrade que a Prova Rainha merecia respeito. Pois bem. Hoje, a rainha pôs esta sua "serva" em sentido (tanto quanto posso estar, pois estou um pouco marreca). Há uns anos este papel cabia ao meu pai. O de me por em sentido, não marreca, claro.
Do lado de lá, a caminho da Afurada, caminhei bastante. Caminhei tanto que achei que assim não fazia sentido. Comecei então a caminhar para trás e quando me preparava para remover o dorsal, parei a olhar o rio e os atletas que já corriam na margem oposta. Segundos depois retomei a caminhada no sentido contrário. No certo. Certo para quem queria chegar ao fim.
Pontuada aqui e acoli de momentos de grande alegria, esta maratona trouxe-me de volta a Angela, que não via desde os 5 dias de Caminhos de Santiago, em 2014. A Angela, que está fora desta rede social, não me lerá, mas ouviu mais de três vezes o meu agradecimento (e viu lágrimas à mistura) por me ter voltado a por a correr junto ao Freixo, acompanhando-me até ao túnel, onde os Vangelis tocavam o Chariots of Fire (caramba, como nos fazem acreditar que somos invencíveis!).
É de facto a rainha com súbditos mais fiéis. Protestam mas voltam sempre. E nunca o Verão de São Martinho foi tão Verão. E amanhã lá estarei a descer escadas de lado.
Muito obrigada a todos os "força Susana", "é já ali" (e todos sabemos que nunca é, mas sorrimos), "allez Susáná" e todas as palavras de incentivo da fantástica equipa de voluntários que saiu para as ruas da segunda mais bonita cidade do país!

PS - Deixo a versão original, mas para quem conhece a do Mr. Bean, hoje fui o Bean!


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

40 dias para os 40



A 8 de outubro começou o evento “faltam 40 dias para os 40”.

Sempre fui miúda de festas.

Bem cedo, ainda novinha, convidava todos os meninos e meninas da Base das Lages para comigo apagarem as velas. Mais tarde, suplicava (não era preciso suplicar muito) à minha mãe que cozinhasse verdadeiros banquetes para os amigos que recebia em casa – primeiro os do colégio, depois os da faculdade. 

Já “crescida” (madura, talvez, porque nunca cresci grande coisa), comecei eu a tratar da logística. Umas vezes em casa, outras fora.

Gosto de fazer anos e de os celebrar. Sinal que estou viva e de boa saúde.

Andei meses a pensar como iria comemorar a entrada nos 40. Sim, também sou pessoa de muito e antecipado planeamento. Pensei que enveredaria pela forma mais tradicional – juntar todos os amigos, num espaço suficientemente grande, pois há muita gente de quem gosto (e aposto que gosta de mim). Se encontrar um espaço seria fácil, mais difícil seria ter todo o tempo que gostaria para dedicar a quem gosto.

E então lembrei-me.

Recuei no calendário 40 dias e decidi que iniciaria assim o processo de celebração, em diferentes dias, diferentes momentos, diferentes pessoas, diferentes experiências. Uma espécie de celebração cigana, mas antecedendo a data festiva.

Porque tenho que fazer isto (e ver quem quero) antes de iniciar a vida que então começará. É o que dizem, certo? Que a vida começa aos 40. Então vamos lá fechar esta (vida) com alegria. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Por muito que corramos, nunca correremos tanto quanto eles

(texto originalmente publicado no JN Running)






Azahar, Erica, Enebro, Éon, Era, Espiga, Fado, Fresa, Fresco, Drago, Fauno, Foco, Calabacín, Biznaga, Flora, Fruta, Castañuela, Artemisa, Juromenha, Jabugo, Jacarandá, Katmandú, Kentaro, Kahn e tantos outros. Olhos de gato amarelos-esverdeados, “colar de pelo” que mais parece juba de leão, manchas de leopardo.

Assim é o lince ibérico. Assim o são todos aqueles que enunciei acima e já passaram pelos 5 Centros de Reprodução do Lince Ibérico, localizados em Espanha e Portugal.

Em 2002 a população deste felino estava no limiar da extinção, ocupando a categoria que é considerada a “ante-sala” da extinção de uma espécie na natureza. Em Portugal, não se via um único lince na natureza desde o início da década de 90.

O lince ibérico não está livre de perigo e integra ainda a lista de espécies ameaçadas do planeta, mas o sentimento de quem se lhes dedica é de confiança. Depois de assinado o “Acordo entre Portugal e Espanha para a Criação em Cativeiro do Lince Ibérico”, que constituiu a base para a participação de Portugal no programa de reprodução em cativeiro, Espanha passou a ceder exemplares para a respetiva reprodução em cativeiro no Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), a funcionar na Herdade das Santinhas, em Silves.

O I Trail do Lince, que se realizou a 12 de setembro em pleno coração da Serra Algarvia em Silves, foi o primeiro de muitos que lhe seguirão, seguramente. Trata-se de um projeto que pretende aliar o desporto à defesa deste bonito felino, sendo que o propósito da organização é alargar o projeto à escala ibérica, já em 2016.

Por cada inscrição no Trail do Lince foram entregues dois euros ao World Wide Fund for Nature (WWF) e ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), apoiando assim a preservação do único grande mamífero carnívoro endémico da Península Ibérica atualmente em perigo.

Com um percurso traçado pela associação Algarve Trail Running (ATR), a prova apresentou-se em três modalidades – trail longo (42 km), trail curto (10 km) e caminhada (10 km) – e reuniu cerca de 300 participantes.

Mais coisa, menos coisa, foram 600 pés a seguir as pegadas do lince, a disfrutar da sossegada Serra Algarvia, a beneficiar do cuidado dos elementos da organização e da simpatia das gentes daquelas paragens - bombeiros e locais, pouco habituados a tanto frenesim, quase exclusivo do litoral algarvio.

Num percurso muito bem marcado, com partes coincidentes com a bonita Via Algarviana (confirmado o meu desejo de a percorrer, de “lés-a-lés”), fomos brindados ora com a sombra proporcionada por eucaliptos e pinheiros nos vales, ora pelo sol que já fazia anunciar um dia quente, enquanto calcorreávamos bonitos estradões na cumeada dos cerros – verdadeiras “chapas” HD a 360º, com horizonte a perder de vista. Foram precisos 30 km para avistarmos as primeiras habitações e ouvir outro som que não fosse o do cantar das cigarras.

A título pessoal, guardarei as imagens de locais que me viram crescer e brincar, a presença do meu pai, que seguindo a sua “cria”, me foi surpreendendo com os seus mimos em diversas partes do percurso e a companhia do António, que prescindiu de seguir o seu caminho mais rápido, dizendo que esta seria uma “experiência diferente”, a de ir “corrandando” pelo trilho (e assim garantiu, naturalmente, o último lugar da classificação geral).

Guardarei também a deliciosa experiência de conseguir o meu melhor e pior resultado de sempre – 3ª e última classificada geral feminina, garantindo-me assim a subida a um pódio que já havia sido atribuído às duas primeiras atletas, alguns minutos antes, com os mesmos aplausos que os primeiríssimos recebem, mas palavras ainda mais carinhosas – porque sim, porque ser (e saber ser) último também exige trabalho.

No sábado passado, os 300 participantes que estiveram na Serra Algarvia “vestiram a pele” dos cerca de 11 linces ibéricos em Portugal a usufruir da liberdade na natureza. Até ao final do ano mais lhes seguirão as passadas. Por muito que corramos, nunca correremos tanto quanto eles. Os dois manos Kentaro e Kahn, libertados há 8 meses no centro de Espanha, percorreram mais de 2.500 km, tendo um seguido para Norte, passeando-se por terras do Douro e outro para o Sul de Portugal, numa viagem épica de duatlo, que incluiu o atravessamento a nado da barragem do Alqueva.

Só este ano o CNRLI já viu nascer 13 crias. Se a reprodução é um sucesso, já a reintrodução desta espécie na natureza apresenta enormes desafios. O nosso desejo é de voltar aqui, daqui a uma década, depois de mais uma edição do Trail do Lince, e podermos escrever que foi retirada a classificação “em perigo” aos exuberantes linces ibéricos.





terça-feira, 1 de setembro de 2015

Lisboa, temporada 3

ilustração: Desenhador do Quotidiano

Lisboa, temporada 3. A sequela da temporada 1 e 2, que já escrevi por aqui.

O primeiro dia do mês é sempre um bom dia para a tomada de decisões. Mais ainda quando se trata do primeiro dia do típico mês de regresso a qualquer coisa - à escola, ao trabalho, à rotina diária sem folgas ou sestas.

Por isso, no dia 1, calço as sapatilhas, saio de casa e desço a avenida do aviador até ao Campo Pequeno, acreditando que sou tão veloz quanto o Louie Zamperini retratado por Laura Hillenbrand – o livro das férias que me obrigou a secar muitas lágrimas nos bordos da toalha de praia. Agora, como estou a ler “A filha do capitão”, do José Rodrigues dos Santos, olho para os rapazes que jogam futebol de 5 no court e recordo que por ali, sem redes ou piso adequado, já outros rapazes correram atrás de uma bola e ainda não se falava em touradas. Vou-me obrigar a não falar de touradas, porque terei que ir buscar os kleenex (já não tenho comigo a toalha de praia) e porque é de facto um fenómeno atroz que não entendo. Tanta coisa que não entendo.

Sigo pela avenida de República, passo frente ao Galeto e penso nas tostas de bife com cebola caramelizada. Depressa me lembro de uma das resoluções do dia 1, largo a imagem e sabor da tosta na esplanada e sigo caminho. O Saldanha está mais bonito. Brutal, como tantos dizem. Oxalá o dia 1 traga consigo uma nova palavra da moda. Detesto “brutal” por ser uma palavra… bruta. Posso sugerir? Sensacional, incrível, estonteante, impressionante, eletrizante, fenomenal, fabuloso, espantoso, formidável, maravilhoso, surpreendente, esplêndido, notável, extraordinário, excecional. Ena, tanta palavra bonita!

Desço a Fontes Pereira de Melo, chego ao banzé do Marquês de Pombal. Cuidado, muito cuidado, Susana. Mais de 500 acidentes em 3 dias, registados pela operação de fim de época estival da GNR. Os números de feridos graves e mortos eram tão absurdamente assustadores, que eliminei dos meus registos. Que raio de gente ao volante neste País. Que giro, se escrevesse “deste”, a afirmação assumiria contornos totalmente diferentes. Mas também não vou falar de política.

Inicio a descida da avenida da Liberdade. Como sempre, os vestidos e malas que não poderei comprar. E, também como sempre, a importância disso é nenhuma. Ao lado do passeio onde corro, a ciclovia que há tempos percorri e mais parecia o mar alto sem amortecimento. Mas lá está. Os que ali fazem compras não se passeiam de pasteleira, por isso, porquê consertar?

Rocio. Sim, à moda do antigamente. Porque antigamente havia por ali os “água vai”, mas também passeavam carroças com cavalos e senhoras com vestidos compridos, chapéus e sombrinhas. E tomar café na esplanada era ritual de luxo. De gente com tempo. Hoje tomamos “bicas” à meia dúzia por dia. E engolimos em dois tragos porque não temos tempo a perder. Quero o Rocio em vez do Rossio, pode ser?

Cais das Colunas. Antes desembarcavam chefes de Estado, caminhando elegantemente sobre as pedras de mármore. Gente importante. Agora… agora vem gente não menos importante, apressadamente, balançando em cacilheiros, com as mordomias que o valor do passe mensal oferece. Nenhuma que não seja a de atravessar para um e outro lado. Mas podem contemplar o rio. Bem bom.

A minha viagem chega a meio. Agora há que voltar para trás. Subir tudo o que desci. E procurar sentido nas palavras de Ludwig Wittgenstein que o José Rodrigues dos Santos escolheu para arrancar a sua história. “O sentido do mundo emerge fora do mundo. No mundo tudo é como é e acontece como acontece”. Prefiro não pensar assim. Afinal, teremos algum propósito nesta vida que irá para além de garantirmos a nossa exclusiva felicidade, certo?

No final, quando tudo parecer demasiado complicado, façamos como nos canta a pequena Paula Bélier – “la vie c'est plus marrant, c'est moins désespérant, en chantant”. Se não viram o filme (La Famille Bélier), vão ver.

Setembro, “o Maio do Outono”. Existirá alguém que não fique feliz com a sua chegada?

Bem-vindo Setembro!


terça-feira, 28 de julho de 2015

Suspiros e muitos "ais" no Monte da Lua

(texto originalmente publicado no JN Running, com título "De Mãos Dadas até Tocar na Lua")




“Mais do que a dor, é a beleza que me faz chorar”. Li estas palavras um dia depois dos 28 km do Monte da Lua, em Sintra. A frase da escritora Maria Teresa Horta titulou os pensamentos que me assolaram bem lá no alto, quando recuperava o fôlego, depois de mais uma arriba subida, já depois de ter descido outra, com as falésias e o Oceano Atlântico como pano de fundo. Aos meus pés milhares de chorões cobriam as falésias que se estendem desde antes do Cabo da Roca, até à Praia das Maçãs, onde a meta me esperava. Chorões carnudos. Isso. Um só se terá instalado ali há muito tempo, mas tanto chorou perante tamanha beleza, que depressa se multiplicou nos muitos milhares que por lá moram agora. Sim, a beleza faz mesmo chorar mais do que a dor.
Sabes no que pensei, Rui? “Caramba, já devia ter vindo aqui pelo menos duas vezes. Uma vez para conhecer, a segunda para percorrer estes trilhos com o Rui”.
E assim foi. 28 km por caminhos que praticamente desconhecia. A vertente Norte da Serra de Sintra que ainda permanecia por calcorrear e que não só me ofereceu um banho turco com níveis de humidade que deveriam atingir os 80% e o cheiro a eucalipto que quase embriagava, como também um tratamento com terra molhada num fantástico downhill, que fez subir os níveis de confiança e apressar a passada da corrida, destemida, feliz. Caramba, que prazer me deu. Também passaste por lá depois, e muito mais viste do que eu. Fala-me disso tudo. Dos 26 km que não fiz, da Quinta da Regaleira e da Quinta do Relógio. Do Castelo dos Mouros. E das pedras que dão nome à prova e que brilham ao luar. Fala-me Rui, fala-nos disso tudo, que não queremos perder pitada. E em 2016 lá estaremos todos, para viver uma história como hoje vais contar.
“A Xintra (com “x”, porque os árabes não pronunciam o “S”) que encantou os mouros, que por sua vez encantaram Sintra, tem estórias por todos os seus recantos. A sua história começou a ser escrita há milhões de anos, quando ainda era um vulcão, e cuja lava foi desenhando socalcos até aos pontos mais baixos da serra. A ocidente a crista mergulha abruptamente no fundo do mar, deixando atrás, entrelaçada arborização rematada por arribas e falésias.
Os mouros, encantados com as pedras “barâd” (fosforescentes), que brilhavam na noite, chamaram-lhe monte da Lua, pelo efeito luminoso refletido na constante bruma que a cobria. O ônix, considerado por persas e hindus como protetor contra as más vibrações, o âmbar de primeira qualidade, semelhante ao melhor do mundo – o “xajari” da Índia – e todas as grutas subterrâneas que adensam mistérios, lendas e fábulas, dão a Sintra uma áurea misteriosa e encantada.

Da Praia das Maçãs à Vila, sim, foi um banho turco. Humidade elevada, tão elevada, que quando passávamos de alguma zona exposta ao sol para a sombra da densa arborização, víamos água a pingar no trilho. Subir a encosta de Colares, tentado descobrir onde teriam vivido os monges, que para ali iam viver do que a terra lhes dava. Depois veio Sintra, e a sua história, de reis e rainhas e gente que se rendeu à sua beleza. Na Quinta do Relógio há um sobreiro coberto de fetos, há lagos cobertos de nenúfares e há recantos com bancos de pedra trabalhada. Há história talhada nas paredes do edifício abandonado em obras de restauro. Os palácios de outrora, hoje contadores de lendas românticas, montras de excentricidade desenhada por caprichos milionários, cujo expoente máximo é a Quinta da Regaleira, onde mergulhamos no poço iniciático e serpenteamos anjos de pedra e árvores centenárias e turistas, surpreendidos por gente a correr num cenário onde tudo convida a deter. Ali ao lado, lá no cimo, esperava-nos o Castelo dos Mouros. Fomos por onde só havia gente a escalar. E pingava humidade. Atletas que se perdiam voltavam ao trajeto a sorrir. Cheirava a madeira molhada. Todas as árvores transpiravam. E nós, encharcados com tamanha beleza, mergulhados no suor da subida, inebriados por toda aquela selva magnificente, bebíamos história sem o saber.
D. Afonso Henriques, quando conquistou Sintra aos mouros, deu-lhes tempo para se renderem. Chegado ao castelo não encontrou vivalma. Há todo um conjunto de túneis que levam para bem longe dali. O conquistador não sabia, mas há por baixo da Serra grutas e rios que ligam o alto até à Lagoa Azul ou a Rio de Mouro. E assim nasceu uma lenda. E outras lendas nasceram destas secretas passagens, sendo a mais conhecida a da “Moura dos Sete Ais” (Seteais), que deu sete suspiros por um cavaleiro cristão que a deteve quando tentava fugir com outros mouros por uma porta secreta do castelo.
Mas mais que 7 “Ais” havíamos de dar no que ainda vinha de prova. Um serpenteado de trilhos a descer e a subir, de cortar a respiração pelo que exigiam de esforço, e principalmente pela beleza e paz que induzem. Um troço de 12 km que culminou com uma subida a pique e sob sol abrasador ao ponto mais alto da prova, a Peninha, donde se avista o fim da terra e o início do mar. “Paraíso Terreal”, constava no título do acordo que Ibne Arrique firmou nesta confluência de maravilhas da natureza e onde o homem deveria coabitar em paz. Vista dali, da Peninha, percebe-se que não haja quem queira desembainhar uma espada numa serra que alberga tanta vida. E desaguamos também nós, os dos 52 (53, 54?) como vós, os dos 26 (27, 28?), por um trilho onde voltava a pingar humidade das árvores entrelaçadas, que nos protegiam do calor vespertino.
Chegados então ao ponto onde a beleza faz chorar mais do que a dor, como tão bem descreves, foi sim, esse desenrolar de trilhos arriba e abaixo junto a uma costa que nos faz sentar e contemplar.
Estranho, Susana, não é que não tenhas sido tu a mostrar-me tudo aquilo. Estranho é que o Mundo não possa desfrutar de tudo aquilo, de toda a beleza de uma Sintra encantadora e que a Horizontes nos serviu. Estranho é que as autoridades não deixem realizar esta prova nos meses em que é impossível fazer trail nas Serras mais altas da Europa, e onde Portugal devia e podia ser o refúgio de muitos. Mas Sintra, onde se acarinham filmagens de novos modelos de automóveis – vedando acessos onde as realizava, em pleno Parque Natural -, não permite a realização desta mesma prova no Inverno, quando seria mais fácil atrair gente de outras paragens. Estranho.
Fica a memória de uma prova única. Equilibrada, com largas zonas para correr, excelentes trilhos para sofrer e arribas de cortar a respiração. Início belíssimo e fim a condizer, numa praia famosa pelas suas enormes maçãs, e onde o que mais importa é mesmo o trail. Não achas?
Se acho? Claro que acho isso tudo que escreves tão bem e eu não sei (de)escrever. Obrigada a ti, por esta magnífica estória, cheia de história. E à Horizontes, por nos fazer trilhar tão bela viagem, aqui tão perto, nesse vulcão adormecido, cheio de segredos escondidos.

Autores: Rui e Susana

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Serra da Freita depois do Pôr-do-Sol




Uma peregrinação (do latim per agros, isto é, pelos campos) é uma jornada realizada por um devoto de uma dada religião a um lugar considerado sagrado. Com as devidas adaptações, fui peregrina na Serra da Freita. A família representava a minha religião. O lugar sagrado seria a meta, 65 km e muitas horas depois, mergulhada, literalmente, na montanha que podia ser o paraíso que dizem existir depois de sairmos deste mundo. Um sacrifício muito mais prazeroso do que penoso para mim, como sabem.

Acabei de chegar ao abastecimento da Lomba, depois de um maravilhoso mergulho na cascata que o antecede. Pousei a mochila. Mergulhei. Nadei até à cascata. “Caramba, como sou uma pessoa com sorte”, pensei. Demorei-me um pouco. Revigorada, subi os metros que faltavam até ao abastecimento, onde sou simpaticamente recebida. Enquanto mordo meia bifana, surge o primeiro atleta dos 100 km, de seu nome Marcolino Veríssimo. Felicito-o e pergunto: “mas não tomaste banho ali em baixo, pois não?”. O Marcolino responde que sim, e antes também, e que não prescindiria dos banhos que já leva consigo. Sorri e rapidamente caiu por terra a teoria que os “cá de trás” é que se divertem e desfrutam dos trilhos. Afinal, os supersónicos também mergulham. Saiu do abastecimento antes de mim. E eu segui depois o meu caminho. Faltavam 22 km e a fantástica, mas também penosa, subida da Lomba.

Cerca de 11 horas antes, o José Moutinho anunciava a largada para as provas dos 65 e 100 Km, lá longe, em baixo, em Arouca. Uma multidão de gente e garanto desde logo o último lugar. A Júlia Conceição vem ter comigo – logo aqui penalizei fortemente o meu tempo de chegada à meta - e dá-me um beijo de boa sorte. Continuo pela estrada de alcatrão pensando que o mundo anda mesmo todo trocado – ora então a super-atleta vem ter comigo e não o contrário? Obrigada, Júlia! És muito mais querida que a Querida Júlia da TV (e não preciso de conhecer a outra pessoalmente).

Descobri como pode ser diferente a Freita, consoante o São Pedro nos brinde com chuva ou sol. Há um ano, a chuva e as pedras molhadas haviam sido o meu maior calvário. Este ano, não perdi um único charco, tanque, ribeiro, “Sr. Teixeira” ou cascata. Pasmem-se: consegui deitar-me numa levada e garantir um banho quase integral!

Sempre na cauda do pelotão (só passei para o brilhante antepenúltimo lugar, depois dos 35 km), fui partilhando os primeiros quilómetros com a Patrícia, que prescindiu de correr como tão bem sabe fazer, para me acompanhar. Só em Manhouce, já com 35 km de prova, consegui que seguisse o seu caminho. O passo seguinte era a ameaça com os meus bastões, pelo que creio que se pôs em sentido e percebeu que posso ser perigosa.

Mas antes disso, antes de Manhouce, da sua fantástica equipa de voluntários (bem vistas as coisas, não consigo indicar voluntários que não o tenham sido!), do tomate com sal e do café da Carmen, antes disso, escrevia eu, tínhamos vivido 35 km de trilhos variados, marcados por muitas subidas, muitas pedras, as pedras que tanto gosto e que dariam um lindo padrão para vestidos, as pedras que devem ter um nome que desconheço, mas que são em tons de prata e dourado, lindas pedras, e ainda outras pedras… as pedras da Besta.

Não. Não fui eu quem chamou besta à Besta. De resto, foram 65 km sem palavras indignas, sem insultos à montanha ou a mim própria, sem questionar o que ali tinha ido fazer. Creio que os Acordos de Paz se deveriam fazer na Serra da Freita. Impossível sair dali sem uma desmesurada vontade de praticar bem e melhor. Impossível.

Mas falava eu das pedras da Besta. Levava comigo a grande vontade de a subir. Tantas perguntas fiz ao Rui sobre a Besta. “E tenho altura de perna para subir?”, “e escorrega?”, “e posso cair?”, “e está muito exposta ao sol”?, “e se (…)?”. Obtive todas as respostas, 1 hora depois de iniciar a sua subida. Repito. Sessenta minutos para percorrer 1,5 km, pedra após pedra, usando todas as partes do meu corpo – como gostaria de ter um registo fotográfico da minha elevação numa delas, demasiado alta para o curto tamanho das minhas pernas! Se na meta me tivessem apresentado um livro de dedicatórias, teria pedido aos confrades da Confraria Trotamontes que tanto gostam de surpreender todos os anos com as suas inovações, que levassem o que quisessem do UTSF 65 km, mas não a Besta! Deixem-me subir a Besta de novo!




Tinha sido avisada que a subida da Lomba me cansaria mais do que a Besta. Cansou sim, é verdade. Fazendo algumas pausas pelo caminho, ia vendo pela frente o que me faltava, espreitando atrás o que já havia percorrido. Estou cansada, mas o que vejo é tão bonito! O telemóvel dá sinal de alerta. A Ivete do lado de lá, chegando no exato momento para me dar o empurrão que falta. Logo a seguir, chega o segundo atleta, literalmente de elite, o João Oliveira. Pergunto-lhe se é mais difícil do que a Spartathlon e deixa-me com um sorriso, subindo, correndo, Lomba acima.

Depois disso, o caminho começa a ser familiar, com o PR7 debaixo dos pés, a Mizarela desta vez lá longe à esquerda, as vertigens que não tenho habitualmente a darem o ar da sua graça, o trilho que me conduzirá ao Merujal e à sua casa de pedra. Este ano a casa de pedra não representa a meta, mas recebo os aplausos simpáticos de quem lá está, e que me felicita como se fosse a primeira classificada de qualquer coisa fantástica. A medalha e mais aplausos viriam depois, pelas mãos e sorriso da fantástica Flor, em Arouca, 13 km adiante.

Senti saudade dos Incas, dos três pinheiros e depois dos Aztecas, confesso. Mas não eram saudades que quisesse matar. A saudade sabe bem e o UTSF esteve perfeito assim. E ficaram as duas civilizações e as três árvores alinhadas ao topo do monte registadas nas memórias de 2014.

No Merujal recarrego baterias e cruzo-me com um casal que repousa no parque de campismo. Haviam feito a caminhada, esclareceram. Respondo que também fui caminheira, apenas numa distância um pouco mais longa. Coloco o frontal para o que falta, uma viagem com o sol a pôr-se, e os contornos na montanha com definição HD.

Pelo caminho, fui recordando as histórias que já nos escreveram o Rui Pinho e o João Paulo Meixedo sobre a Serra da Freita. As palavras a fazerem sentido. As experiências relatadas agora vividas por mim. Lembrei-me também do texto de um autor cujo nome não me recordava, e que agora sei tratar-se do Miguel Serradas Duarte, escrito em 2013, intitulado “Eu não fiz a Freita, a Freita fez-me a mim”. Não sei o que tinha o Miguel em mente, mas eu não escolheria melhor título para esta minha aventura.

Diz-nos o dicionário da língua portuguesa que fazer significa, entre outras coisas, “dar existência” e “levar alguém a perceber ou sentir algo”. Pois bem. A Serra da Freita deixou em mim um conjunto de sentimentos bons, de sensação de esvaziamento do que não faz bem, de agradecimento. Creio ter sido das minhas mais fantásticas “peregrinações” fora dos “palcos” habituais para o efeito (que nunca usei, confesso), e com a melhor das motivações, que encontrei logo na fase inicial do meu percurso, na manhã de dia 27 de junho.

Mãe, mamã, Zezinha, sendo difícil, porque sou realmente uma “bem equipada mas fraca atleta”, chegar à meta nunca foi tão fácil, por te saber curada.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Susana vai ao engano, perdão, triatlo



Até eu tenho dificuldade em acreditar, mas… estou ali!

A Marta Andrade, que anunciou hoje a sua participação no Triatlo de Oeiras daqui a dias, fez-me lembrar aquela “fatídica” data em Junho de 2012.

Um grupo de amigos desafiava-me para aquilo que eu julgava ser uma brincadeira. Até o nome na altura era… simpático. Triatlo do Ambiente, chamava-se.

Antes da prova dos “supra-sumos”, os triatletas portanto, haveria o “super-sprint”. O super-sprint, enganaram-me eles, era para iniciados como eu. Melhor. Era para quem eventualmente pretendesse iniciar-se na modalidade.

A última vez que tinha nadado fora no Verão anterior. Na praia. Bruços. Para trás e para diante. Sempre ao longo da costa, como mandam as regras.

Nado bruços porque sim. Gosto de nadar crawl mas rapidamente me perco na respiração. Mariposa é o estilo que mais me fascina, mas não dou uma braçada sequer. Costas? Entra-me água no nariz.
Nesse grupo – o Pedro Vicente, o Pedro Quina, a Marta Quina, a Ana Guimarães, o José Guimarães e o Luís Trindade – creio que todos sabiam ao que iam. E depois havia eu.

Um ano se havia passado desde que me iniciara na corrida. Na pior das hipóteses, conseguiria correr como deve de ser. Até nisso me enganei.

300 metros de natação na praia da Torre. Creio ter engolido 456.782 pirolitos. “Jesus, gente bruta”, pensava eu assustada. “Não vêem por onde nadam?!”, continuava. Experimentei todos os estilos. Nadar-à-cão incluído. Vi o bote ao fundo e juro que pensei levantar o braço para me acudirem. E ainda não tinha chegado à primeira bóia. Nem 100 metros, imaginem! Mas continuei. Saí da água ao lado de um velhinho com mais 50 anos do que eu. No mínimo. Chegada ao parque de transição foi fácil localizar a bicicleta. Não porque fosse um estonteante último modelo do mercado – era uma BERG, de 60 euros, se tanto – mas porque só restavam 3. Todos os outros já tinham partido. Os braços tremiam e creio ter demorado mais de 3 minutos para conseguir vestir os calções e fechar o capacete. Seguiam-se 10 km de bicicleta. Felizmente, funcionando como massagem ao ego, consegui ultrapassar alguns atletas. Os pneus da bicicleta tinham pouco ar – nem disso havia tratado – mas lá me esforcei para terminar e chegar rápido ao segmento de corrida – seria “a minha praia”. Iria ultrapassar dezenas de atletas, pensava eu, confiante. De volta ao parque de transição, saio da bicicleta e preparo-me para correr. As pernas não mexem. Parecem dois troncos de árvore com raízes profundas. Raízes fortes e vigorosas. As pernas simplesmente não me obedeciam. Foram os 2,5 km com 0,02 m de D+ mais longos da minha vida. Cheguei ao fim. E nunca mais voltei.

Digo muitas vezes que aquela foi a experiência desportiva que mais me marcou. Deve ser. Três anos depois ainda escrevo sobre ela.

É também por isso que tanto me fascina a modalidade. Fico assim. A observar. Ao vivo. À distância.  Tentar perceber como sabem o caminho a tomar com a cabeça dentro de água. Como saem da água aos “S” e encontram equilíbrio na bicicleta. E correr depois mais rápido do que alguma vez correrei. Há coisas que merecem ficar assim nas prateleiras - fascinantes e… intangíveis.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Plebeia na Prova Rainha do Reino da Dinamarca



Esta não era uma viagem para correr. Era sim uma viagem para passear. Com calma. Era a viagem das três esses em Copenhaga - Sandra, Sofia e Susana.


Acontece que, cerca de três semanas depois de tudo marcado, uma conversa me remeteu para corrida. Corrida levou a maratona, e... "Copenhaga há-de ter uma maratona, pois então", pensei. Fui ver. Se não foi um sinal dos astros, não sei o que terá sido - a maratona acontecia precisamente nos dias em que por lá estava. Sem hesitar, apesar do preço proibitivo, inscrevi-me. Estávamos a 8 semanas do dia "C".


A minha última maratona de estrada havia acontecido em novembro de 2013, no Porto - lá muito longe, portanto. Teria que, em oito semanas, tentar fazer o que pudesse para tornar a experiência o menos sofrida possível. Sofrida porque, como bem sabemos, 42 km em estrada são para fazer sem paragens. Não há momentos de contemplação da paisagem ou pausas para sandwiches de presunto. Isso é lá na montanha, para que não tem pressa como eu.


A maratona não era prioridade nesta viagem. Não era a causa. E por isso, rolando sobre uma bicicleta, procurei que os dias que a antecederam fossem bem recheados - e não falo exclusivamente da gastronomia! A cidade é lindíssima, os seus habitantes muito prestáveis e, contra todas as expectativas, até o São Pedro nos brindou com um sol que já fazia aquecer as costelas sobre a bicicleta. Uma vez mais confirmei que viveria numa cidade onde as duas rodas e os pedais são dos meios de transporte que mais adeptos reúnem.


A história que se segue é efetivamente da maratona. Aquela que designam de Prova Rainha. Curiosamente, cerca de 3 dias antes da data, havia recebido um e-mail da organização, dando conta da possibilidade de associarmos ao nosso BIB NUMBER (vulgo, dorsal) um conjunto de mensagens, que seriam publicadas na página da conta pessoal do FB. A cada 5 km teríamos o controlo (do chip, entenda-se) e nessa mesma altura, seria publicada a referida mensagem. Como adoro escrever e praticar futurologia, acabei por tratar do assunto. Feliz ou infelizmente, ninguém acabou por ser bombardeado com as referidas mensagens que, por erro meu ou da organização - inclino-me para a primeira hipótese, já que, apesar de licenciada em engenharia, tecnologia não é o meu forte - nunca chegaram a ser publicadas.


Como as guardei, e porque fizeram efetivamente sentido - antecipei de forma quase precisa o que me sucedeu na prova - listo-as abaixo, agora com o devido enquadramento.



5 km
Ved langt, så godt!

De facto, 5 kms depois, corria tudo bem e esperava que o google translator fosse uma fonte fidedigna de tradução. O pelotão seguia junto e ainda avistava os balões vermelhos que deveria perseguir, para garantir o tempo de chegada à meta de 4h00. Ligeira brisa a refrescar, anulando um pouco o calor que já se fazia sentir. O do sol e o humano!

10 km
Mais rápida do que a minha própria sombra!

Certa, certinha. 28 minutos para os primeiros 5 km. Outros 28 minutos para os segundos 5 km. Abaixo da 1 hora, portanto, sentindo-me bem. Nesta altura o sol encontrava-se diante de mim, aquecendo-me o rosto, e projetando efetivamente a sombra atrás. Estava de facto mais rápida do que a minha própria sombra!

15 km
Estes dinamarqueses têm pernas demasiado compridas!
Já não vejo o balão das 4 horas!

E não o via, de facto. Aos poucos a dúzia de balões encarnados desapareceu no horizonte. "Daqui a pouco recupero", pensei. Enganei-me. Mas continuei na minha passada certinha. 30 minutos para cada 5 km, apreciando outros dinamarqueses, os que se encontravam na beira dos passeios e ciclovias, apoiando cada corredor como se do mais importante atleta se tratasse.

20 km
Quero uma pasteleira daquelas!

Quero sim. Em outubro de 2012, quando relatei a minha primeira maratona em Amesterdão, já fazia referência à pasteleira preta com selim camel. Três anos se passaram. Acho que está na hora de investir e tentar a sorte nas ruas de Lisboa.

21,198 km
Ainda só fiz metade, na perspetiva do copo meio vazio.
Mas só falta metade, na perspetiva do copo meio cheio!

Meia estava feita e cerca de 1 km depois, oiço um "Susana" familiar. Vozes familiares. Sofia e Sandra, o meu boost inesperado ao km 22, quando as julgava a visitar museus! Que boa surpresa! A média ao km melhorou nos metros seguintes. E o sorriso foi o da foto acima, imagem captada pela objetiva da Sandra na máquina da Sofia!

25 km
Olha, olha... A pequena sereia!
Da última vez que a vi era maior do que eu!

Na realidade, não a vi. Mas como tem 1,29 metros é certo que desta vez estou um pouco mais crescida do que ela. Tenho também mais juízo. Aos 6 anos, quando a visitei, ainda acreditava em histórias de príncipes que resgatavam sereias do mar e que as escamas e caudas eram substituídas por lindos vestidos-balão e sapatinhos de cristal. Essa história já não pega! Mas é boa de ver nos filmes.

30 km
Já era raptada por um simpático viking, levada para um navio dragão, descia o mar Báltico e rumava a Constantinopla!
(bati no "muro", foi o que foi)

2h57m se passaram. Ainda havia luz ao fundo do túnel. Um reforço energético repentino. Quem sabe. Talvez sim. Ou não. Verdade seja dita. Depressa concluí que já não há vikings. A melhor aproximação que tive foi um corredor com t-shirt do Viking Atletik, mas até eu tinha um ar mais robusto. Quando o avistei fugi, não fosse pedir-me para o carregar às costas. 

35 km
Porque não fui simplesmente pedalar por aí?

3h30m. 35 km certinhos. 5 km a cada 30 minutos. Passada constante. Poderia ter ido pedalar, sim. Ou talvez não. Até as ciclovias estavam fechadas a bicicletas nessa manhã em Copenhaga. As gentes da cidade inundaram as ruas, e no que a "barulho" e "incentivo" diz respeito, nada ficam a dever aos Sevilhanos. Se tivesse optado por pedalar teria também perdido a oportunidade de ver os melhores cartazes dos apoiantes: "why are all the cutiest people running away?" e "you are ahead of everyone (who is behind you)"!

Eu que tantas vezes digo que não gosto do meu nome, decidi que chegaria a Lisboa e daria um forte abraço à minha mãe por escolha de nome tão internacional. Até as crianças gritavam entusiasticamente por mim. E que bem que soube ver mãos pequeninas estendidas.

É por esta altura que vejo ultrapassar-me o balão das 4h10m. Confesso que desanimei um pouco. Mas para a frente era o caminho. A meta esperava por mim.

40 km
Vá lá, Susana.
Isto é mais fácil do que subir ao Jardim do Torel!

Creio que aqui me terei enganado nas previsões. Aqueles quilómetros pareciam-me mais difíceis do que todos os outros que já fiz. Mas as coisas não acontecem por acaso e por mim passa um atleta empurrando uma cadeirinha de rodas, proporcionando a experiência da maratona a uma criança com deficiência motora e mental. Nó na garganta. O desânimo associado à perspetiva do resultado menos positivo e às dores que se faziam sentir, perde relevância e desaparece, como que se por vergonha. Oxalá um dia tenha a coragem para viver uma maratona desta forma!

42,195 km
Embora por vezes seja bruxa, desta vez é impossível prever o desfecho.
Mas não preciso dos astros para saber o que aconteceu, caso esta mensagem seja publicada.
Cheguei ao fim!

E cheguei sim. 4h17m depois. Creio que foi o meu pior resultado numa maratona. O meu segredo amplamente divulgado de desejo de baixar das 4:02 na maratona continuará guardado, esperando melhores dias e mais treino, claro. Mas ninguém me tira a Maratona de Copenhaga e a medalha que trouxe comigo.


Maratona. A Prova. A prova de estrada que mais leva de mim e prazer me dá. Tal como uma passagem do Inverno para a Primavera. Renovação, portanto. Deixei partes de Susana naquele asfalto. Não faziam falta. E no dia seguinte nasceram flores no meu cabelo.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Reencontro com a Pérola do Atlântico


Parei e fotografei... o Risco


Começa a história

A noite já caiu, e com ela aterro no Funchal. Um táxi leva-me até ao Machico. Ainda na estrada, vejo-o. Vejo o monte que subi o ano passado, o monte que me fez dar mil voltas, acima e abaixo, debaixo do nevoeiro, sem nada ver, desesperar, ansiar pela meta. Facho é o seu nome. Um ligeiro arrepio, mas feliz por estar de volta.

Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há

Dirijo-me ao secretariado em Machico para levantar o meu dorsal. As meninas da organização entregam-me o material. “Tem aqui tudo o que vai precisar. Não preciso explicar, pois já sabe como é”, diz-me uma simpática madeirense. “Já sei como é? Como sabe que sei?”, pergunto intrigada. “Toda a gente na Madeira leu o seu texto, há um ano”, esclareceu, sorrindo. “Ninguém quer ir correr à noite por causa das bruxas”, acrescentou. Desta vez sorrio eu e esclareço que estou cá este ano precisamente para clarificar esse assunto. “Venho tirar a pratos limpos essa história das bruxas”, respondo. Agarro no meu saco de “atleta” e saio para apanhar os raios de sol que aparecem pela primeira vez nessa manhã.

Contagem decrescente

A imagem de marca por estes dias na Madeira era uma pulseirinha laranja, com chip identificador. Quem a usava, teria oportunidade de frequentar um verdadeiro resort de trilhos de luxo - versão "tudo incluído" nos 115 km, "meia pensão" nos 85 km, "alojamento e pequeno-almoço", nos 40 km e "só alojamento" nos 17 km.  Para alguns, os do regime TI, sábado chegou exatamente pelas 00 horas, com a partida em Porto Moniz para 115 km de trilhos, veredas, levadas e… escadas, muitas escadas. Sete horas mais tarde, os hóspedes em regime MP partiriam para os ondulados 85 km. Três horas mais tarde, pelas 10 horas portanto, seria a minha vez, e a de umas centenas mais, em regime APA, de rumar ao Machico, com partida no Pico do Areeiro. Os hóspedes em regime “só alojamento” sairiam à hora certa para um brunch pelos trilhos, pelas 12 horas, na zona da Portela, a 17 km da meta.

E assim se desenrolou esta peça de teatro, onde a Madeira foi palco, e centenas de atores e atrizes encarnaram as mais variadas personagens, facetas, vivências e experiências. Os felizes e os tristes. Os lúcidos e os alucinados. Houve quem festejasse a vitória, outros conheceram o sabor da derrota. Uns foram conquistadores, outros renderam-se. Uns acreditaram que iam conseguir para minutos depois dizerem que não conseguiam mais. Uns insultaram a montanha para mais tarde a contemplarem com admiração. Para atores e atrizes, esta peça de teatro é de facto inolvidável pela miscelânea de sentimentos que faz despertar. A Madeira não urbanizada é sem dúvida uma ilha de rara beleza e dureza. Mais do que as marcas das sapatilhas nos trilhos, são estes trilhos que deixam marcas em quem os percorre.

Madeira em APA

Embora tivesse hesitado no momento da inscrição, a fraca condição física e a necessidade de ver de dia o que tinha visto há um ano de noite, aquando da prova dos 85 km, levou-me a avançar para o regime “alojamento e pequeno almoço”. São 40 km totalmente invulgares, onde o desnível negativo supera o positivo. Mas desenganem-se… descer não é fácil. As dificuldades fizeram-se sentir ainda a prova ia a meio, com os joelhos a “relinchar” e os quadríceps a gritar “socorro”.
A pequena subida ao Areeiro terá sido seguramente programada pela organização para garantir um adequado aquecimento para o que se seguia. O percurso era-me familiar, ainda que este ano se apresentasse muito mais apetecível. As pernas ainda estavam frescas. A novidade veio com o desvio para o Poiso, permitindo percorrer novos trilhos, alguns em modo “onduladinho”, como tanto gosto. Foi neste troço que fui ultrapassada pelo primeiro atleta dos 115 km, o madeirense Luís Fernandes. Já antevia este momento, apenas não o esperava tão cedo, pelo que, parando no trilho, boquiaberta, exclamei “já?!”. O Luís nem me terá ouvido, pois corria a velocidade a que nunca corri sequer em alcatrão. E segui caminho, em direção ao Poiso, cruzando atletas, turistas e elementos da organização.

A vereda das Funduras

É agora. Chegou o momento. Inicia o percurso da serra das Funduras e pela vereda no interior da floresta Laurissilva. Aqui vivi verdadeiros momentos de alucinação há um ano. Agora vejo pela frente um imenso verde. Um verde que é floresta indígena da Madeira e Património Mundial Natural. Os trilhos são mesmo ao meu gosto, mais uma vez onduladinhos, pontuados de escadinhas aqui e ali. Não resisto e vou parando para tirar algumas fotografias. Alguns atletas ultrapassam-me e eu sorrio. Não há nada para sorrir, devem pensar, mas eu sei bem porque sorrio! “Eu vi bruxas aqui há um ano e os seus braços pareciam querer agarrar-me, percebem?”, dizia eu para comigo, quando passavam. Vejo-me agora num sitio de extrema beleza, onde nada mais sinto do que satisfação em pôr as pernas a mexer. O inferno virou paraíso. Que coisa boa!

O estradão depois das Funduras

Este seria mais um marco da minha aventura. Estava ansiosa por descobrir o que vinha depois das Funduras. Mais uma vez, há um ano, a noite e o nevoeiro cerrado nada me permitira ver, obrigando-me inclusivamente a usar o segundo frontal, como se de uma lanterna se tratasse. Mas pouco ajudou, porque a luz nada mais fazia do que se dispersar no nevoeiro, impossibilitando a visualização das marcações do trilho. Recordo que levei uma eternidade a finalizar aquele percurso, receando o que se esconderia, ora à direita, ora à esquerda, conforme o zigue-zague que a montanha me ia oferecendo. E ali estava ele à vista. Soltei uma valente gargalhada quando me deparei com um interminável estradão, com não menos do que 6 metros de largura. Ai se eu soubesse!

O Risco

O terceiro grande momento da minha tarde de sábado. Deverá ser um dos locais mais fotografados da Madeira e nada mais conseguira do que ouvir o mar lá em baixo em 2014. Uma vez mais parei, desviando-me para não perturbar a passagem dos atletas, que arriscavam no risco, destemidos, para oferecer aos meus olhos aquela que deve ser uma das mais bonitas vistas da Pérola do Atlântico.

A levada que nos leva à meta

Mesmo antes do monte que não iria subir este ano, encontro três elementos da organização e por lá fico um pouco a conversar e a relatar a minha experiência do ano anterior. “Não me digam que tenho que subir de novo esta coisa”, exclamei eu, sabendo que não teria que o fazer. “Não menina. Este ano não é por aí. É mais fácil. É sempre pela levada”, esclareceram. “E onde acaba a levada?”, perguntei divertida, não vendo o fim do vale e antevendo que não teriam “furado” a montanha para fazer passar a levada. “É já ali, é já ali”, responderam, procurando tranquilizar-me. Assim que entrei na levada, não mais parei, num trote muito ligeiro, acreditando que Machico estava próximo e com ele a meta e um merecido mergulho no mar.

A meta

Deixo a levada e entro no prado que já conheço. Mas agora vejo-o e consigo distinguir o trilho que devo pisar. Ao contrário da chuva e do vento que brindaram a minha chegada há um ano, espera-me um sol radioso. Lá em baixo, centenas de pessoas se passeiam e recebem com entusiasmo os atletas. Assim que coloco o primeiro pé no passadiço que me conduzirá à meta, vou recebendo aplausos e palavras de incentivo. Serpenteio por entre alguns dos transeuntes, não conseguindo evitar umas quantas lágrimas e o queixo a tremer.

Os aplausos, este ano também do Rui, há um ano à distância de um telemóvel

Era de noite. Hoje é de dia. Não se via vivalma. Hoje vejo tanta gente! O vento havia destruído o pórtico. Hoje está à minha espera, e diz-me que passaram 6 horas e 33 minutos desde que parti de manhã.

Fazer estes 40 km em 2015 foi das mais brilhantes decisões que tomei. Agora sei onde pisei. Agora, porque sei, poderei, se assim desejar, voltar para saborear o sentimento de superação vivido em 2014.

Digo muitas vezes que há a Susana antes dos 85 km da Madeira e a Susana depois deles. E o regresso este ano só veio comprovar isso mesmo. A Madeira deixou a sua marca e voltarei ali para (per)correr… os quilómetros que o corpo permitir.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Maraturista em Vila de Rei


(texto redigido originalmente para o JN Running)

Há dois anos consegui o meu primeiro pódio na classificação geral – terceiro lugar nos 60+ em Vila de Rei. Nada de “hip hip hurrays”, por favor. Éramos três senhoras na prova de maior distância. Uma vitória anunciada, portanto.
Foi também há dois anos que conheci o Paulo Garcia, um dos principais motores da Organização Horizontes, e quem me deu a conhecer o conceito de “maraturista” (adaptação de maratonista), o qual não poderá encontrar melhor personificação do que eu própria. Sim, perdoem-me a imodéstia, mas acredito que sou uma verdadeira turista na montanha. Maraturista, porque sempre que posso e consigo, corro um bocadito.
Sábado foi tempo de voltar ao Picoto da Milriça. O “meiomaismeionãohá” de Portugal Continental. Se desenhassem uma cruz sobre o nosso País, o cruzamento seria o centro geodésico, mais coisa, menos coisa. Esse centro fica em Vila de Rei. Antes de lá chegar percorri 3 km. Depois, e para chegar à meta, mais 64 km. Estou certa que nenhum GPS, Google Maps ou qualquer outra tecnologia conhece este percurso e o oferece como alternativa “otimizada” aos seus utilizadores, para regressar ao ponto de partida. Nestas coisas da montanha, o léxico tem muitas particularidades.
Todos estarão recordados da grande prosa que nos escreveu aqui o Rui Pinho, há precisamente uma semana, depois da sua aventura dos 118 km no Sicó. Se dúvidas ainda tivesse quanto ao sentido das suas palavras, ontem tê-las-ia dissipado. Amei e odiei o trail. Morri e renasci dezenas de vezes. Viajei ao meu interior, com todas as revelações mais ou menos boas de mim mesma. Vivi a descoberta de reservas de energia que desconhecia existirem. Ouvi a palavra amiga, que por vezes me acariciou como mimo e noutras me fez querer exclamar “deixa-me em paz”. Como nos contava o Rui, somos nós no nosso mundo. Vamos de crianças a velhos num ápice. E fui tudo isso. A criança que, contrariada, chorava, para depois rir vigorosamente, resultado de um mergulho na cascata do Penedo Furado. Mas sobretudo fui uma velhinha, procurando forças onde já não existiam, como se repente os meus 39 anos virassem 89. E dos 89 renasci para os 20, debaixo de um céu estrelado e lua cheia, um teto em forma de mar de estrelas, onde parece que mergulhava. Vontade de desligar a luz do frontal para melhor o apreciar.
O prenúncio de Primavera no início da semana prometia um sábado fantástico. As promessas de São Pedro não saíram defraudadas – o protetor solar teve mesmo que sair da gaveta. O buff na cabeça teve que ser rapidamente substituído pelo boné, para proteger o rosto já de si franzido, reação à contrariedade imposta ao resto do corpo, demasiado exigente para o que as pernas conseguiam oferecer.
Depois de atingir o Picoto da Milriça aos 3 km de prova, veio a visão daquilo que sabia que iria encontrar cerca de 35 km adiante. Antes de lá chegar seria ainda presenteada com uns deliciosos nacos de melão no Aivado e, alguns quilómetros depois, nas Trutas, gomos de tomate com sal, o melhor hidratante natural que conheço. Mas a visão da cascata continuava a pairar, avolumando-se quando começaram a surgir os primeiros riachos e cursos de água, onde alegremente molhava os pés, mergulhava as pernas e refrescava o rosto. Entro finalmente na zona das Bufareiras, que oferece um enquadramento maciço rochoso extraordinário, pontuado de diversas cascatas. E ali estava ela. A cascata do Penedo Furado. A última que antecedia a subida em direção à praia fluvial com o mesmo nome.
Cascata do Penedo Furado
“São só 5 minutos, prometo”, disse eu ao Rui. Há dois anos ainda me havia descalçado e retirado as meias. No sábado já não havia tempo para esses detalhes. Como vinha com o corpo quente, mergulhei calmamente as pernas dentro daquela água cristalina e gelada. O meu assistente de reportagem nem um dedo pôs na água. Tirou a mochila e dorsal, e tal como eu previa, lançou-se num mergulho olímpico naquela lagoa azul. Com tamanho incentivo, mais todos os salpicos que me molharam, entre 50 gritos que se terão feito ouvir por todo o vale do Zêzere, mergulhei também e ofereci ao meu corpo uma revigorante sessão de crioterapia. A alma essa, encheu-se com o graal que buscava desde o km 1.
Não fosse o sentimento de necessidade de concluir toda a jornada, confesso que poderia ter terminado a minha aventura por ali. Queria aquele mergulho. Dei o mergulho. Estava feliz. Mas nestas coisas da montanha, por mais que o corpo nos diga que quer descansar, há um qualquer desafio da mente que nos empurra para diante e que teima em dizer que a aventura deve terminar na meta. Mesmo que custe um pedacinho. Ou mais que um pedacinho.
E assim foi. Do Penedo Furado a Água Formosa e às suas casas de xisto, serpenteamos ribeiros que ecoavam pelos vales. Nas margens viam-se antigas minas de exploração de ouro (conheiras) e evidentes vestígios de povoamentos de outrora. Quais garimpeiros, descobrimos ouro ao chegarmos ao abastecimento dentro do tempo limite, devidamente recompensados por uma saborosa sopa de feijão. Uma taça não chegou. Duas foram precisas para recarregar as pilhas, já há muito com o “red alert” e ameaçando vigorosamente o “power off”.
48 km estavam feitos. Seguimos para os 19 km que faltavam. Chegámos a Poios, último abastecimento, de frontal ligado, e rapidamente nos pusemos a caminho para o Trilho das Cascatas, ouvindo o som relaxante da água a precipitar-se de poço em poço. A grande escarpa lá estava. Não saiu do lugar em dois anos, mas está agora dotada de cordas para se escalar em maior segurança. Um pouco acima, avistamos a EN 2 e um carro abranda vendo as luzes dos nossos frontais. “Força”, gritam lá do alto, e com mais forças me sinto para os 2 km que nos faltam.
“Está mesmo quase”, penso. Recuo dois anos e imagino a Inês e o Diogo a brincar junto à linha da meta esperando orgulhosamente a mãe, a derradeira de três atletas femininas.
Um dia depois, sinto o corpo mal tratado, mas o coração cheio. A visão romancista do texto do Rui relativamente às aventuras na montanha justifica tudo o que vivemos e a procura de o reviver. Hoje dei comigo a pensar numa visão menos romanceada. Estou para a montanha como os homens anafados e desengonçados dos jogos “solteiros e casados” de domingo estão para o futebol. Sabem que estão mal preparados fisicamente, vão castigar o corpo durante aquela hora de jogo com os amigos, sofrerão um pouco, mas no final… no final estarão muito mais satisfeitos, prontos para enfrentar a semana e ansiando pelo empeno do fim-de-semana seguinte.
A versão mais científica deste fenómeno é a que nos dá o Victor Hugo Teixeira, no seu amplamente divulgado vídeo youtube, sobre nutrição no desporto. O desporto não é saudável. Desidrata. Inflama. Oxida. A recuperação do exercício, essa sim, é saudável e torna-nos mais fortes. E digam-me então – queremos ou não queremos ser fortes?
Fotos: Paulo César Borges

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A serra, uns dias depois



(Eu, na Cascata Abútrica)

és tão linda e melhor designação não te poderia ter dado o José Moutinho, tu Lousã, a terra do petróleo verde, já somos ricos, é o que é, ai não que não somos ricos,
és tão linda e já cá venho pela terceira vez, duas vezes na versão curta, no ano passado a versão longa, mas mesmo as experiências curtas são sempre demoradas, ai não que não são demoradas,
és tão linda, mesmo com chuva, vento, granizo e frio, lindos é que não nos deixas, encharcados e enlameados até à raiz dos cabelos, ai não que não nos deixas
és tão linda em todo o lado, mas tão linda mesmo depois da Nossa Srª da Piedade, já te vou conhecendo de cor, aquele sobe-sobe que não pára, tento andar mais depressa, ai não que não tento,
és tão linda, e quero vir cá com tempo quente, aproveitar estas cascatas, ai que fresquinho, os músculos vão gostar, ai não que não vão gostar,
és tão linda, e melhor que chegar ao fim é o percurso que faço até lá chegar, não fosse isso não fazia sentido, e para o ano (ou mesmo antes) cá estarei, ai não que não estarei.



[baseado num texto sobre amores e desamores de Pedro Chagas Freitas, “ai não que não (qualquer coisa)”]