quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Viciados na Montanha




A corrida trouxe benefícios inequívocos à minha vida.

Comecei no asfalto e cedo procurei outros lugares. A montanha. A montanha é a minha praia.

A participação ativa em treinos ou provas desniveladas sobre pedras, cascalho e folhinhas, ainda que em modo lento, tem-me permitido também observar os comportamentos típicos de quem, como eu, é apaixonado pela modalidade e a forma como vive os quilómetros percorridos.

Volvidos mais de 12 meses de experiências com montes e vales, não poderia deixar de fazer as devidas adaptações a um texto que redigi há um ano, quando escrevi umas palavrinhas sobre os viciados na corrida.

Seguem então os sintomas para que possam antecipadamente precaver-se ou, em alternativa, entregar-se a esta loucura que só nos faz bem.

Um viciado na montanha…

… pensa em desnível acumulado quando atravessa lombas na estrada;

… sorri quando, no meio da AE, avista um monte ao fundo e consegue visualizar um “pontinho” que imagina ser ele próprio;

… imagina-se nos percursos montanhosos do Ultra Trail do Monte Branco, quando sentado no banco do carro aguardando que o semáforo fique verde;

… ouve Ludovico Einaudi enquanto trabalha e sente os pés a mexer em busca de piso irregular;

… junta-se a outros loucos por montanha à volta do PC ou da TV a ver filmes inspiradores da Salomon Trail Running TV;

… não se envergonha de começar a caminhar 500 metros depois de ter iniciado a corrida num treino numa qualquer serra, pois sabe que vai precisar das pernas mais adiante;

… partilha no Facebook todas as citações inspiradoras que encontra sobre montes e vales;

… substitui todos os ídolos da adolescência pela Frosty, Emelie, Kilian e outros campeões da montanha;

… acredita que conseguirá chegar ao topo da montanha mais rapidamente se usar o equipamento da Anna Frost ou do Kilian;

… pensa que a culpa de não correr mais rápido é do “buff”, ao qual falta aerodinamismo;

… sempre que vê alguém ultrapassá-lo e correr montanha acima mais depressa, assume de imediato que o outro correrá uma menor distância e pensa para consigo "vai, vai, que eu já te apanho";

... nas provas, motiva-se a cada quilómetro com tudo aquilo que vê, acredita que mais à frente será ainda mais bonito e consulta a altimetria com indicação dos postos de abastecimento, sonhando com um mero copo de coca-cola fresca;

… vive em estado de ansiedade até que chegue domingo, dia típico para realização de provas, sabendo de antemão que nunca subirá ao pódio e muito dificilmente alcançará a primeira metade da classificação geral;

... na véspera das provas, prepara com entusiasmo os camel back com tudo o que vai necessitar e também o que pensa que nunca necessitará;

… não hesita também em programar o despertador para as 4 AM de domingo, por forma a chegar à prova – na montanha, claro - por que esperou toda a semana;

… sabe parar quando chega o topo da montanha, não para “que o mundo o possa ver, mas sim para que possa ver o mundo”;

… define o local das férias anuais em função do número de montezinhos, serras ou montanhas que o destino oferece e onde possa correr;

… inicia qualquer conversa com um desconhecido com um desbloqueador de conversa do tipo “por onde anda agora o nosso Presidente da República”, rapidamente substituído pelo tema “montanha” e a forma como esta lhe salvou a vida (e deixou de pensar no Presidente da República);

… anuncia no Facebook que vai para a montanha;

… anuncia no Facebook, no mínimo 8 horas depois, que já chegou da montanha;

… anuncia no Facebook a distância que correu na montanha, a velocidade a que o fez e quantas calorias queimou;

… partilha no Facebook dezenas de parágrafos relatando a última prova de 40 km, não esquecendo nenhum detalhe: frio ou calor, vento ou ameno, as tostas com mel e as minis dos abastecimentos, a dor no joelho, a queda na pedra escorregadiça, o entorse do tornozelo direito, a camaradagem entre atletas, os bichos estranhos que viu, os sons que ouviu, as gargalhadas que deu e as paisagens que o fizeram sonhar.

Se nos faz sonhar, que sonhemos pois então!

7 comentários:

  1. Muitos parabéns pelo excelente texto. Partilho de (quase, quase) tudo!
    Boas corridas em Montanha!

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    1. Agradeço e retribuo os votos de belíssimas corridas na montanha!
      Vemo-nos num trilho por aí!

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  2. Palavras para quê? Melhor, só mesmo com Einaudi!

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