segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Porquê antes do pôr-do-sol?
Anna Frost no Monte Taranaki
Puff.
Já está.
O meu blogue.
Obrigada aos amigos que uma ou outra vez foram insistindo para que o criasse.
Creio que já venho tarde. Tarde na medida em que os blogues em breve cairão em desuso e serão substituídos por qualquer outra coisa mais dinâmica, mais funcional, mais apetecível.
É sempre assim. Nunca sou do meu tempo. Sou sempre dos tempos lá atrás.
Mas adiante.
Para já é mais um baú de recordações do que de novidades.
Reuni tudo o que fui escrevendo e publicando por aí.
Na minha página do FB, no blogue "De Sedentário a Maratonista" do meu amigo Zé, e outras coisitas não publicadas, mas que rabisquei em tempos.
O primeiro passo foi precisamente o nome.
Não queria falar apenas de corrida. Nunca será um site de corrida. Com artigos científicos e coisas que tais.
Será algo mais... romanceado.
E sei que quererei escrever sobre outros assuntos. Verniz de gel, stilettos e receitas com molho pesto. O nome tinha que ser algo mais... global.
No entanto a corrida está definitivamente presente na minha vida.
E devo-lhe tanta coisa. Tanta mesmo!
Terminei os 100 km do Ultra-Trail de São Mamede pensando que voltaria no ano seguinte para os terminar antes do pôr-do-sol.
Mais tarde, os 63 km de Vila de Rei, onde também tive que ligar o frontal. Quero voltar para chegar antes do pôr-do-sol.
Em janeiro deste ano, os 47 km dos Ultra-Trilhos dos Abutres onde conheci a serra da Lousã by night. Quero voltar em 2015 para, claro, terminar antes do pôr-do-sol.
As minhas compilações de música preferidas são precisamente as do "Café del Mar", barzinho localizado em Ibiza, conhecido pelo mais bonito pôr-do-sol da ilha. Já lá estive. Com a pessoa que sempre fará parte da minha vida, sob a "forma" de Inês e Diogo.
Gosto do momento "antes do pôr-do-sol".
Está explicado.
Até breve!
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Cheguei
O meu cantinho das palavras.
Umas minhas, outras de outros.
Das coisas que gosto.
Daquilo que fizer sentido.
Umas minhas, outras de outros.
Das coisas que gosto.
Daquilo que fizer sentido.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Cupido e Valentim
Há um ano coloquei-me do lado dos que boicotam o Dia dos Namorados e partilhei uma foto do Cupido esborrachado contra um prédio. "Pimba... já foste", escrevi eu.
Este ano tenho que lhe dar o devido valor. Senão vejamos...
Cupido, filho de Vénus e de Vulcano, encarnava a paixão e o amor nas suas mais diversas formas. Aparentemente deixava Júpiter incomodado com os "estragos" que provocava. Não sei se o amor é estrago ou não - umas vezes sim, outras não, outras "só se estraga uma casa" - mas o que é certo é que o pobre coitado acabou por ser largado pela mãe na floresta - dizem que também as há no Olimpo, pelo que terei que lá ir confirmar e fazer uma corridinha - alimentando-se do leite de animais selvagens. Com tanta coisa boa para comer na floresta logo foi escolher o leite. Na altura não deviam falar dos malefícios do seu consumo em idade adulta, por certo.
Diz-se também que Cupido agia sempre em prol do verdadeiro e bonito amor entre casais. Os únicos momentos em que terá agido de forma maliciosa terão sido a mando da mãe. Cá está. A culpa é sempre das mulheres. Malandras.
Não esqueçamos também o Valentim que dá nome à data. São Valentim. Havia por aí um imperador que proibia a realização de casamentos em tempo de guerra, acreditando que os solteiros seriam melhores combatentes. Mais uma vez, a culpa é das mulheres. Sempre as mulheres. As mulheres desgraçam a vida dos homens. Pois bem, São Valentim, que naturalmente só virou santo depois de morrer, continuou a casar quem o desejava fazer, acabando por ser descoberto e condenado à morte. Na altura era Bispo e enquanto aguardava pela sentença ter-se-á apaixonado pela filha cega do carcereiro, a quem devolveu a visão, antes de partir para outro mundo melhor. Mais uma vez, uma mulher a atormentar os últimos dias de um pobre homem condenado à morte.
Esperando que este escrito tenha sido esclarecedor (se houver algum dado histórico importante errado, perdoem-me), proponho que celebremos este dia com todo o carinho a que temos direito. Piroso, menos piroso, profundo, menos profundo, rejubilemos por termos esta capacidade de sentir essa coisa que umas vezes causa estragos, outras é boa demais, chamada amor.
Feliz Dia de São Valentim!
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Pieguices em Vila Velha de Rodão
Ando piegas. Não sei se é da idade. Talvez da chuva. Ou a vida é mesmo assim e pronto.
Vi coisas muito bonitas ao longo dos 48 km que constituíram o percurso de Vila Velha de Ródão que me emocionaram. Passei muitos momentos sozinha. Parei para tirar fotografias, algo que não fazia há muito. Estou particularmente satisfeita por ter uma foto minha a acompanhar estas palavras.
É em Vila Velha de Ródão que o Tejo começa a falar português, depois de nascer em Espanha.
Pasmem-se... as Portas de Ródão quase me passaram despercebidas, porque no momento em que passei a seu lado ia concentrada nas pedritas que encontrava pelo caminho. Valeu-me a presença por perto da Otília, que me alertou para aquele imponente cenário.
O rio Tejo acompanhou-me ao longo de vários quilómetros e em diversos momentos da prova. Por vezes parava apenas a contemplá-lo, revolto, "grisalho", fruto das chuvadas dos últimos dias. Recordo-me de pensar que não precisava de ir a museus ver Monet, Van Gogh ou Cézanne. Tantas pinturas famosas do mundo poderiam ter o que vi como cenário! Falo muito sério.
A organização "Horizontes" sabe do que eu gosto. Já o havia demonstrado em Vila de Rei, em junho do ano passado, quando me ofereceu umas deliciosas piscinas naturais onde não hesitei mergulhar, vestida mas sem ténis, sob o olhar desconfiado de atletas que se interrogavam se eu não estaria interessada em chegar (mais rapidamente) à meta.
Em Vila Velha de Ródão a água foi muita, mas infelizmente não estávamos em tempo de ir a banhos integrais. Valeram-me os parciais, com uma água gélida que anestesiou os gémeos que há muito gritavam e suplicavam por uma paragem.
Hoje houve também muito tempo para pensar. Pensar no papel que a corrida pode, deve, deverá e terá na minha vida. Logo decidirei.
Uma coisa é certa. O desejo era chegar. E chegar antes do garmin parar. O objetivo foi cumprido. 15 minutos depois de cortar a meta o garmin "morreu". Já eu terminei o dia mais rica, mais empenada e com ruptura de stock de "ais" e "uis".
Vi coisas muito bonitas ao longo dos 48 km que constituíram o percurso de Vila Velha de Ródão que me emocionaram. Passei muitos momentos sozinha. Parei para tirar fotografias, algo que não fazia há muito. Estou particularmente satisfeita por ter uma foto minha a acompanhar estas palavras.
É em Vila Velha de Ródão que o Tejo começa a falar português, depois de nascer em Espanha.
Pasmem-se... as Portas de Ródão quase me passaram despercebidas, porque no momento em que passei a seu lado ia concentrada nas pedritas que encontrava pelo caminho. Valeu-me a presença por perto da Otília, que me alertou para aquele imponente cenário.
O rio Tejo acompanhou-me ao longo de vários quilómetros e em diversos momentos da prova. Por vezes parava apenas a contemplá-lo, revolto, "grisalho", fruto das chuvadas dos últimos dias. Recordo-me de pensar que não precisava de ir a museus ver Monet, Van Gogh ou Cézanne. Tantas pinturas famosas do mundo poderiam ter o que vi como cenário! Falo muito sério.
A organização "Horizontes" sabe do que eu gosto. Já o havia demonstrado em Vila de Rei, em junho do ano passado, quando me ofereceu umas deliciosas piscinas naturais onde não hesitei mergulhar, vestida mas sem ténis, sob o olhar desconfiado de atletas que se interrogavam se eu não estaria interessada em chegar (mais rapidamente) à meta.
Em Vila Velha de Ródão a água foi muita, mas infelizmente não estávamos em tempo de ir a banhos integrais. Valeram-me os parciais, com uma água gélida que anestesiou os gémeos que há muito gritavam e suplicavam por uma paragem.
Hoje houve também muito tempo para pensar. Pensar no papel que a corrida pode, deve, deverá e terá na minha vida. Logo decidirei.
Uma coisa é certa. O desejo era chegar. E chegar antes do garmin parar. O objetivo foi cumprido. 15 minutos depois de cortar a meta o garmin "morreu". Já eu terminei o dia mais rica, mais empenada e com ruptura de stock de "ais" e "uis".
domingo, 26 de janeiro de 2014
Abutres para totós
Pensei em duas hipóteses de estilo para este meu escrito. Dramático ou jocoso. Optei pelo segundo. Parece-me muito mais divertido. De resto, depois do que gargalhei ontem na Serra da Lousã, só podia ser um registo animado.
Antes de mais as minhas desculpas por usurpar uma ideia do grupo de corrida Portugal Running. São grandes dinamizadores de treinos de corrida de todos os jeitos e feitios, seja em alcatrão ou fora dele.
Recentemente vi que lançavam um novo modelo de treino em trilhos, para iniciados, para o qual adotaram o nome "Trilhos para Totós". Não sei de quem foi a ideia, mas considero-a genial. E quem sabe por lá passe um destes dias, assim arranje tempo na minha preenchida agenda.
Não quero ofender os meus parceiros dos 47 km na Serra da Lousã. Não entendo nem uso aqui o termo totó de forma depreciativa. Vão-me desculpar, mas aquilo não é para quem quer. É para quem pode. E quem pode é quem treina e está livre de entorses, contusões, luxações e outros palavrões! Ou treinamos afincadamente para uma prova daquela estirpe - hard trail, dizem eles - ou então pareceremos efetivamente uns totós. E mais totós ficamos com todos aqueles que cruzam a meta antes de nós. Começaram a chegar 7 horas antes de nós!
Ontem saí do meu corpo por diversas vezes e fiquei a observar-me. "Quem é aquela totó ali enterrada no meio da lama?", perguntava eu. Uns metros adiante, surgia uma parede, deixava novamente o meu corpo e interrogava lá de cima "diz-me lá, sua totó, como pensas agora subir essa rocha, mais alta do que a altura das tuas pernas?", contemplando todo aquele cenário, flutuando por entre o nevoeiro e tentando afastar a neblina para me ver melhor. Foram 47 km de espetáculo digno de se ver, vos garanto.
Digna de ser ver é também a Serra da Lousã. Como sempre, de resto. A Serra da Lousã não nos desilude, por isso tratem de não a desiludir também. Uma das coisas positivas de ficar cá atrás - cá atrás mesmo, com os vassouras a metros de nós -, é fazer serviço cívico. E todos nós, 4 na altura, apanhámos qualquer coisa do chão. Melhor, várias coisas do chão. Creio que esta noite dormi mal porque me incomodou lembrar que ignorei um pacote de lenços de papel que se encontrava junto à água, porque simplesmente já me tinha esquecido como dobrar as pernas. O cansaço era demasiado. Senhores e senhoras trailers, vão-me desculpar, mas o lixo é no sítio certo. A serra não é de todo o sítio certo. Está dado o puxão de orelhas. Adiante.
Tenho que visitar a Lousã com 30 graus centígrados à sombra. Não deixei de mergulhar os pés e as pernas naquela água ontem. Fi-lo inúmeras vezes. Mesmo quando o percurso não o exigia. Mas quero efetivamente mergulhar ali o corpo todo. Não percebo porque foram rodar aquele filme muito velhinho chamado "Cocktail" à Jamaica. As cascatas da Lousã são muito mais bonitas. O verde da Lousã é muito mais bonito. E acredito que por ali se coma bem melhor. Só não garanto, porque nunca fui à Jamaica.
O que é certo, é que aos 5 km interiorizei que não terminaria a prova. A dificuldade de progressão no terreno era de tal forma notória, que perdi as esperanças de chegar à meta naquela que seria a fase mais fácil do percurso. Os ténis não se soltaram dos pés por milagre, mas deixei metade do bastão atrás. Melhor. Não deixei. "Chafurdei" na lama, recuperei-o e transportei-o naturalmente até ao primeiro abastecimento, onde o coloquei no devido lugar. De resto, mas valia ter deixado tudo, porque mais tarde verifiquei que os bastões eram mais um empecilho do que uma ajuda. Para galgar pedras precisava das mãos. Para escorregar precisava das mãos. Aprendi a lição.
Entretanto o ânimo surgiu de não sei onde e acreditei de novo. Por pouco tempo. Aos 20 km olhei para o relógio e verifiquei que estava demasiado próxima do tempo de corte. O primeiro tempo de corte. 5 horas para 25 km. Nem nos meus piores cenários - sim, desta vez estudei a lição uns dias antes - considerei não chegar ao primeiro controlo de tempo com alguma folga. Cheguei à Sra. da Piedade com 5h36 e com um misto de nó no estômago e alívio. Nó no estômago porque ali daria por terminada a minha prestação ao exceder o tempo limite e ninguém se propõe ir tão longe para fazer apenas metade do objetivo. Alívio pela visão de um banho quente, de uma refeição sentada e a possibilidade da contemplação da serra umas centenas de metros abaixo. Errado. Os tempos de controle e respetivo tempo máximo de prova haviam sido aumentados em 60 minutos. E transmitiram-nos naquele preciso momento. Afinal, naqueles bandas, as Nossas Senhoras têm mesmo piedade!
E prosseguimos. Prosseguimos eu, o Carlos, o Luís e o João. Os dois primeiros a recuperar de lesões e o último, para além de lesionado, mais interessado em tirar fotografias do que chegar rápido à meta. Ora sendo eu lenta, não poderia estar melhor entregue!
Depois dos 25 km, esperava-nos nova subida. Daquelas que sobem, sobem... e continuam a subir. Uns quilómetros adiante comecei a reconhecer o percurso e vi-me em 2013. Sozinha, na minha segunda prova fora de estrada, a fazer os 23 km dos Trilhos dos Abutres. Sorri porque me recordei que na realidade na altura me havia inscrito na prova maior. A dias do evento, um rasgo de lucidez e bom senso, aliado a uma lesão ligeira e aquilo a que na gíria chamam "miufa", levou-me a fazer downgrade para os 23. Hoje sei, porque a completei ontem, que nunca teria conseguido terminar os 47 km há um ano atrás. Sabia lá eu o que era a vida na montanha!
Entretanto mais um abastecimento, um extra, e bebemos um chá quente. Chega também a Analice e o Fábio, com mais vassouras. Tanto totó para empurrar. Conto-os e verifico que são precisos mais vassouras do que totós! Metemo-nos a caminho e logo se segue o trilho em single track por entre pinheiros que já me havia deslumbrado há um ano. Adoro aquele trilho. Aquele trilho tem um nome, sabiam? "Trilho onde a totó consegue correr como a Anna Frost... Bem... Quase"!
Em Gondramaz, elementos da organização gritam lá de cima avistando 4 totós e os vassouras. A Analice e o Luís já haviam seguido na frente. Ficou connosco o Fábio, sobrinho do José Carlos, o Mr. Vassoura-Simpatia. "Despachem-se! Faltam 8 minutos!", exclamam lá de cima. Não sabemos se falam sério, mas desatamos a correr prado fora e chegamos a tempo. Já passaram 9h50 desde que parti. Sento-me pela primeira vez por uns breves segundos. Tenho medo de ficar mais tempo. Poderei não me conseguir levantar. Já só faltam 10 km e está na altura de ligar o frontal.
O percurso é comum ao dos 23 km que já conheço. "O ano passado estava aqui um fotógrafo", digo. "Tenho uma foto aqui", esclareço. Era de dia. E estava um lindo dia de sol.
Pelo contrário, agora está escuro e o ar quente que expiro mistura-se com a luz do frontal tornando a visibilidade muito fraca. Mas que é lindo assim, caramba, se é! Tentamos descobrir as fitas e iniciamos o labirinto das pontes tortuosas. Tortuosas porque são pontes toscas, rugosas, traiçoeiras. Ora de frente, ora de lado, já não sei qual a melhor forma de as atravessar. Esquerda, direita, esquerda, direita! 452 pontes. Não estou a exagerar muito!
Seguimos calados. Há muito tempo que vamos correndo quando podemos, andando quando não podemos, mas seguimos calados. Quebro o silêncio com um dos meus gritos estridentes, vendo luzes de civilização ao fundo.
Quando chegamos à levada de água sei que estamos perto. Sei também que depois de rolar um bocadinho terei uma rampa-toma-lá-para-veres-o -que-é-bom para subir até ao pavilhão. Há um ano sentei-me lá em cima aguardando os meus amigos ultras e rindo-me das suas caras a terminar aquele desafio. "Ri-te, ri-te", pensava ontem enquanto a subia.
Passaram 12h16m desde que parti de manhã. À espera dos totós está um pavilhão cheio... cheio de alegria de dezenas de elementos da organização e alguns atletas resistentes, que nos recebem como verdadeiros heróis!
Termino com um sincero agradecimento à organização, recheada de gente maravilhosa. Não sei se serei desclassificada por dizer isto, mas em Espinho, no último abastecimento, uma das meninas preparou e deu-me a tosta com dose de mel extra à boca... Não sei se foi por gentileza ou por ver o estado das minhas mãos, confesso. A todos a quem fiz esperar e privei de ver uma qualquer jogatana de futebol que dava na TV aquela hora... desculpem qualquer coisinha. Para a próxima tentarei ser mais rápida. Ou, quem sabe, retribuindo a gentileza de quem acompanhou os totós, varrer totós em 2015!
Antes de mais as minhas desculpas por usurpar uma ideia do grupo de corrida Portugal Running. São grandes dinamizadores de treinos de corrida de todos os jeitos e feitios, seja em alcatrão ou fora dele.
Recentemente vi que lançavam um novo modelo de treino em trilhos, para iniciados, para o qual adotaram o nome "Trilhos para Totós". Não sei de quem foi a ideia, mas considero-a genial. E quem sabe por lá passe um destes dias, assim arranje tempo na minha preenchida agenda.
Não quero ofender os meus parceiros dos 47 km na Serra da Lousã. Não entendo nem uso aqui o termo totó de forma depreciativa. Vão-me desculpar, mas aquilo não é para quem quer. É para quem pode. E quem pode é quem treina e está livre de entorses, contusões, luxações e outros palavrões! Ou treinamos afincadamente para uma prova daquela estirpe - hard trail, dizem eles - ou então pareceremos efetivamente uns totós. E mais totós ficamos com todos aqueles que cruzam a meta antes de nós. Começaram a chegar 7 horas antes de nós!
Ontem saí do meu corpo por diversas vezes e fiquei a observar-me. "Quem é aquela totó ali enterrada no meio da lama?", perguntava eu. Uns metros adiante, surgia uma parede, deixava novamente o meu corpo e interrogava lá de cima "diz-me lá, sua totó, como pensas agora subir essa rocha, mais alta do que a altura das tuas pernas?", contemplando todo aquele cenário, flutuando por entre o nevoeiro e tentando afastar a neblina para me ver melhor. Foram 47 km de espetáculo digno de se ver, vos garanto.
Digna de ser ver é também a Serra da Lousã. Como sempre, de resto. A Serra da Lousã não nos desilude, por isso tratem de não a desiludir também. Uma das coisas positivas de ficar cá atrás - cá atrás mesmo, com os vassouras a metros de nós -, é fazer serviço cívico. E todos nós, 4 na altura, apanhámos qualquer coisa do chão. Melhor, várias coisas do chão. Creio que esta noite dormi mal porque me incomodou lembrar que ignorei um pacote de lenços de papel que se encontrava junto à água, porque simplesmente já me tinha esquecido como dobrar as pernas. O cansaço era demasiado. Senhores e senhoras trailers, vão-me desculpar, mas o lixo é no sítio certo. A serra não é de todo o sítio certo. Está dado o puxão de orelhas. Adiante.
Tenho que visitar a Lousã com 30 graus centígrados à sombra. Não deixei de mergulhar os pés e as pernas naquela água ontem. Fi-lo inúmeras vezes. Mesmo quando o percurso não o exigia. Mas quero efetivamente mergulhar ali o corpo todo. Não percebo porque foram rodar aquele filme muito velhinho chamado "Cocktail" à Jamaica. As cascatas da Lousã são muito mais bonitas. O verde da Lousã é muito mais bonito. E acredito que por ali se coma bem melhor. Só não garanto, porque nunca fui à Jamaica.
O que é certo, é que aos 5 km interiorizei que não terminaria a prova. A dificuldade de progressão no terreno era de tal forma notória, que perdi as esperanças de chegar à meta naquela que seria a fase mais fácil do percurso. Os ténis não se soltaram dos pés por milagre, mas deixei metade do bastão atrás. Melhor. Não deixei. "Chafurdei" na lama, recuperei-o e transportei-o naturalmente até ao primeiro abastecimento, onde o coloquei no devido lugar. De resto, mas valia ter deixado tudo, porque mais tarde verifiquei que os bastões eram mais um empecilho do que uma ajuda. Para galgar pedras precisava das mãos. Para escorregar precisava das mãos. Aprendi a lição.
Entretanto o ânimo surgiu de não sei onde e acreditei de novo. Por pouco tempo. Aos 20 km olhei para o relógio e verifiquei que estava demasiado próxima do tempo de corte. O primeiro tempo de corte. 5 horas para 25 km. Nem nos meus piores cenários - sim, desta vez estudei a lição uns dias antes - considerei não chegar ao primeiro controlo de tempo com alguma folga. Cheguei à Sra. da Piedade com 5h36 e com um misto de nó no estômago e alívio. Nó no estômago porque ali daria por terminada a minha prestação ao exceder o tempo limite e ninguém se propõe ir tão longe para fazer apenas metade do objetivo. Alívio pela visão de um banho quente, de uma refeição sentada e a possibilidade da contemplação da serra umas centenas de metros abaixo. Errado. Os tempos de controle e respetivo tempo máximo de prova haviam sido aumentados em 60 minutos. E transmitiram-nos naquele preciso momento. Afinal, naqueles bandas, as Nossas Senhoras têm mesmo piedade!
E prosseguimos. Prosseguimos eu, o Carlos, o Luís e o João. Os dois primeiros a recuperar de lesões e o último, para além de lesionado, mais interessado em tirar fotografias do que chegar rápido à meta. Ora sendo eu lenta, não poderia estar melhor entregue!
Depois dos 25 km, esperava-nos nova subida. Daquelas que sobem, sobem... e continuam a subir. Uns quilómetros adiante comecei a reconhecer o percurso e vi-me em 2013. Sozinha, na minha segunda prova fora de estrada, a fazer os 23 km dos Trilhos dos Abutres. Sorri porque me recordei que na realidade na altura me havia inscrito na prova maior. A dias do evento, um rasgo de lucidez e bom senso, aliado a uma lesão ligeira e aquilo a que na gíria chamam "miufa", levou-me a fazer downgrade para os 23. Hoje sei, porque a completei ontem, que nunca teria conseguido terminar os 47 km há um ano atrás. Sabia lá eu o que era a vida na montanha!
Entretanto mais um abastecimento, um extra, e bebemos um chá quente. Chega também a Analice e o Fábio, com mais vassouras. Tanto totó para empurrar. Conto-os e verifico que são precisos mais vassouras do que totós! Metemo-nos a caminho e logo se segue o trilho em single track por entre pinheiros que já me havia deslumbrado há um ano. Adoro aquele trilho. Aquele trilho tem um nome, sabiam? "Trilho onde a totó consegue correr como a Anna Frost... Bem... Quase"!
Em Gondramaz, elementos da organização gritam lá de cima avistando 4 totós e os vassouras. A Analice e o Luís já haviam seguido na frente. Ficou connosco o Fábio, sobrinho do José Carlos, o Mr. Vassoura-Simpatia. "Despachem-se! Faltam 8 minutos!", exclamam lá de cima. Não sabemos se falam sério, mas desatamos a correr prado fora e chegamos a tempo. Já passaram 9h50 desde que parti. Sento-me pela primeira vez por uns breves segundos. Tenho medo de ficar mais tempo. Poderei não me conseguir levantar. Já só faltam 10 km e está na altura de ligar o frontal.
O percurso é comum ao dos 23 km que já conheço. "O ano passado estava aqui um fotógrafo", digo. "Tenho uma foto aqui", esclareço. Era de dia. E estava um lindo dia de sol.
Pelo contrário, agora está escuro e o ar quente que expiro mistura-se com a luz do frontal tornando a visibilidade muito fraca. Mas que é lindo assim, caramba, se é! Tentamos descobrir as fitas e iniciamos o labirinto das pontes tortuosas. Tortuosas porque são pontes toscas, rugosas, traiçoeiras. Ora de frente, ora de lado, já não sei qual a melhor forma de as atravessar. Esquerda, direita, esquerda, direita! 452 pontes. Não estou a exagerar muito!
Seguimos calados. Há muito tempo que vamos correndo quando podemos, andando quando não podemos, mas seguimos calados. Quebro o silêncio com um dos meus gritos estridentes, vendo luzes de civilização ao fundo.
Quando chegamos à levada de água sei que estamos perto. Sei também que depois de rolar um bocadinho terei uma rampa-toma-lá-para-veres-o
Passaram 12h16m desde que parti de manhã. À espera dos totós está um pavilhão cheio... cheio de alegria de dezenas de elementos da organização e alguns atletas resistentes, que nos recebem como verdadeiros heróis!
Termino com um sincero agradecimento à organização, recheada de gente maravilhosa. Não sei se serei desclassificada por dizer isto, mas em Espinho, no último abastecimento, uma das meninas preparou e deu-me a tosta com dose de mel extra à boca... Não sei se foi por gentileza ou por ver o estado das minhas mãos, confesso. A todos a quem fiz esperar e privei de ver uma qualquer jogatana de futebol que dava na TV aquela hora... desculpem qualquer coisinha. Para a próxima tentarei ser mais rápida. Ou, quem sabe, retribuindo a gentileza de quem acompanhou os totós, varrer totós em 2015!
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