segunda-feira, 7 de abril de 2014

Chegar a Machico



Estávamos em abril de 2005 e trazia um feijão de nove semanas na barriga. Um feijão que viria a ser a Inês.


Lembro-me de estar sentada na esplanada de um restaurante junto às piscinas de Porto Moniz. Recordo-me de ter pedido um bife de atum com molho de maracujá. Adoro maracujá.


Mais tarde, em outubro de 2006, voltei à Madeira por motivos profissionais. Depois da reunião de técnicos de ambiente no Aeroporto do Funchal, regressei ao hotel onde estávamos alojados. Tinha um pressentimento e passei na farmácia. Confirmou-se. Estava grávida do meu segundo filho. Nove meses mais tarde nasceria o Diogo.


A Madeira só me tem deixado boas recordações. Sem omitir o delicioso prego no bolo do caco numa praia cheia de calhau, bem perto da Estalagem da Ponta do Sol, onde fiquei alojada da primeira vez que visitei a ilha. 


Lá está. Pôr-do-Sol, Ponta do Sol, Nascer-do-Sol. Se a ciência não o comprovasse, concluiria que gravito efetivamente em torno daquele astro.


Quinta-feira parto para a Madeira. Não vou em trabalho. Não estou grávida. Não sei se vou em turismo. Há quem considere que sim. Pessoalmente tenho conhecido mais do meu país desde que corro do que antes de o fazer. E não creio que conseguisse conhecer o que tenho visto sentada no banco de umas quaisquer quatro rodas.


A única certeza que tenho - se quem decide a vida de todos não mudar de ideias - é que pelas 00 horas de dia 12 de abril estarei junto de várias centenas de atletas em Porto Moniz, sem bife de atum, mas de frontal ligado na cabeça.


Há qualquer coisa de verdadeiramente encantador nas provas que iniciam à noite. O cenário avistado por quem fica cá atrás, como eu, olhando as centenas de luzinhas montanha acima, é de fazer arrepiar o mais insensível ser deste planeta.


Tenho 26 horas para completar 85 km num verdadeiro sobe e desce com 8.000 metros de desnível acumulado.


Sei que, atleticamente falando, estou longe de estar preparada. Conto apenas com a minha teimosia e a vontade de apanhar o avião de regresso a Lisboa, "as scheduled". Tenho mesmo que me... despachar!


Desta vez levo comigo um caderno de apontamentos e uma "bic". Estou certa que vou querer tomar notas pelo caminho. Mais importante do que o track no garmin - que morrerá ao fim de 8 horas a monte - serão todas as outras experiências vividas num pedaço de terra que flutua no Oceano Atlântico.


Vamos lá então descobrir como se chega a Machico!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Juramento solene de mães perfeitas

Tivesse eu conseguido escrever estas palavras, que me roubaram sorrisos, gargalhadas, lágrimas no canto do olho, suspiros e "caramba, é isto mesmo".

E são todas estas coisas que a Marta Gautier refere, todas estas e mais algumas, que nos fazem questionar se estamos a desempenhar bem o nosso papel, mas também as que resultam nas nossas maiores alegrias.




Juro ter os meus filhos penteados, limpos, bem vestidos, unhas cortadas, vacinas a tempo. Juro brincar com eles, ser uma mãe divertida, não andar em cima deles, ter vida própria. Juro garantir que aprendem e fazem os trabalhos de casa. Juro esclarecer dúvidas, nunca ir buscá-los depois das seis, dar recados na escola, receber recados da escola, fazer os poemas que a escola pede, fazer os fatos de Carnaval biodegradáveis que a escola pede, mandar dinheiro para o planetário, falar com os professores, falar com as educadoras, festejar aniversários no dia com bolos sem creme (como a escola pede), festejar outro aniversário, noutro dia animado e divertido, com convites, balões à entrada, chapelinhos, bolos com Smarties. Juro comprar presentes para colegas aniversariantes, levá-los às festas, esperar duas horas na rua, voltar a buscá-los. Juro saber lidar com as birras, controlar as birras, inscrevê-los num desporto, acompanhá-los ao desporto, ter um cartão para o desporto, vesti-los para o desporto, ver o desporto, tomar conta do bebé durante o desporto, bater palmas ao desporto, pagar o desporto. Juro escrever cartas ao Pai Natal, escrevê-las com canetas coloridas, estrelinhas à volta, mascarar-me de Pai Natal, deixar bolachinhas para alimentar o Pai Natal, de manhã limpar as migalhas deixadas pelo Pai Natal. Juro dar banho todos os dias, pôr creme todos os dias, mudar camas encharcadas, esfregar colchões encharcados, deixá-los ao sol, não gritar com crianças que encharcam camas, acordar às sete da manhã aos Domingos, ter antiderrapante na banheira, lavar dentes, ensinar a lavar dentes, cortar bifes, ensinar a cortar bifes, tirar cotovelos de cima da mesa, atar sapatos, ensinar a atar sapatos, tirar cebola do arroz, ter babetes impermeáveis, ler histórias, fazer vozes, ensinar músicas, ♪ põe o ovo lá no buraquinho ♪, explicar as instruções dos jogos, ir aos baloiços, empurrar os baloiços, ensinar a não ter medo dos baloiços, ♪ raspam, raspam, raspam ♪. Juro comprar trotinetas, bicicletas com rodas, bicicletas sem rodas, ténis com rodinhas, skates, lanternas, Cds do Panda, Barbies executivas, calças rotas. Juro dar semanadas, ensinar a gerir, ser justa, transmitir valores, valorizá-los, promover bons sentimentos, alimentar a criatividade, fazer aerossóis, e mais aerossóis, outra vez aerossol, ter Ventilan, conseguir atestado médico para voltarem à escola, evitar o excesso de televisão e chocolates. Juro não gritar, não lhes bater, não perder a cabeça, ir a sítios giros, estar atenta às companhias, fazer uma alimentação variada, cozer legumes, ensiná-los a gostar de legumes, verificar se puxam o autoclismo, ensinar a limpar o rabo, verificar se o rabo está limpo, ensinar a limpar o pingo, a pôr a tampa para baixo, a assoar. Juro pôr casacos quentes, gorros, limpar ouvidos, ter os brinquedos arrumados, ter os brinquedos por caixas, ter as caixas por temas, ter os temas actualizados, fazê-los cumprimentar as pessoas, garantir que não gritam, que fazem amigos, pô-los no penico, com amor.
Juro fazer bem o meu trabalho, evoluir profissionalmente, ser humilde, almoçar com colegas, rir com colegas, ter espírito de equipa, ser útil, prestável, ter presença, ter uma presença agradável.
Juro ter a casa arrumada a cheirar a limpo, aquecida, moderna, com design, velas de cheiro, centro de mesa, plantas, regar as plantas, ter quadros na parede, ter os quadros direitos na parede. Juro amar a minha casa, aproveitar a minha casa, ter gosto em cozinhar, surpreender, ter pão fresco, regar as plantas. Juro convidar amigos, saber receber, fazer tudo numa hora, quase sem se reparar, aperitivos, Ervas da Província, chão limpo, cantos limpos, sumos, sobremesas, chocolate quente para pôr em cima, cozinha impecável, abrir o vinho uma hora antes, Nespresso. Juro ser leve, despachada, não fazer dramas. Juro ter o frigorífico arrumado, sal e abrilhantador, fruta, iogurtes com pedaços, nunca deixar faltar leite, detergente, maçãs. Juro ter uma boa pessoa lá a trabalhar, que trate bem as crianças, que as lave atrás das orelhas, que passe a ferro num ápice, mal paga, um bom negócio.
Juro ser sexy, gira, estar gira, vestir-me bem, ter um rabo brasileiro, fazer sexo, comprar algemas. Juro ser companheira do meu marido, ser jovem para o meu marido, ser fresca para o meu marido, seduzir o meu marido, pôr batom para o meu marido, estar sempre pronta, botas leopardo, ter aperitivos para o meu marido, ignorar os seus gritos com os miúdos, ver o canal de notícias. Juro dançar, pintar as unhas, ter charme, ser fiel, ter o cabelo sedoso, pele brilhante, dentes brancos, comer saladas, beber água, fumar pouco, só para o estilo, conhecer a forma mais moderna de fazer um rabo-de-cavalo, pôr creme nos cotovelos, ter soutiens sem alças, soutiens com as alças juntas para certos tops, soutiens com alças giras quando é para se verem, calças brancas que não sejam transparentes, camisas transparentes que não sejam ordinárias, saias ordinárias que só pareçam modernas. Juro controlar o humor antes da menstruação, ter classe, viajar, ser uma boa companhia, visitar os meus avós, aprender com eles, levar-lhes os bisnetos, jantar nos meus pais, não me importar que dêem sombrinhas de chocolate ao netos, não me importar que os deixem jantar de prato no colo. Juro ter tempo, não me queixar, ser divertida, boa amiga, conciliadora, ouvir desabafos, desabafar, chorar só quando é preciso. Juro não ser parvinha, embirrenta, ciumenta, mole. Juro ser feliz, ter graça, inovar, sair com amigos, ler, ser culta, esperta, rápida, solidária, bem-disposta, optimista, interessante.
Juro solenemente.

em NÃO HÁ FAMÍLIAS PERFEITAS de Marta Gautier.

sábado, 29 de março de 2014

Daylight Saving Time



Melhor do que a chegada da Primavera, que de resto chegou e já se foi embora, é a chegada do Verão, com a mudança da hora e o designado "Horário de Verão".

Quem sabe o São Pedro nos tenha reservado a passagem direta para a estação mais quentinha do ano. Veremos se assim é nos próximos dias.

Na próxima madrugada, pela 1 hora da manhã, os relógios adiantam uma hora.

Para quem está a dormir representa menos uma hora de sono.

Para quem está acordado representa menos uma hora de diversão.

Para quem está a trabalhar representa menos uma hora a fazê-lo. Sorte a dos que forem recompensados de igual forma.

Perdemos uma hora de vida, que recuperaremos daqui a uns meses.

Ganhamos luz e, oxalá, Sol, que nos revitalizará com a sua vitamina D.

Como sou curiosa e procuro a origem das coisas, acabo de descobrir que a ideia original pertence a Franklin, algures em 1783, numa tentativa de poupança de cera de vela, a qual não terá merecido o acolhimento dos seus pares. Só bem mais tarde, na Primeira Grande Guerra, a Alemanha adota o Horário de Verão, procurando poupar carvão. Pragmaticamente e sem floreados como é hábito, os ingleses chamam "daylight saving time" ao Horário de Verão.

Ganhamos assim na fatura energética e o Ambiente agradece!

terça-feira, 25 de março de 2014

Até ao infinito e mais além!




in·fi·ni·to 
adjectivo
1. Não finitosem fim.
2. Ilimitadoeterno.
3. Absoluto.
4. Inumerável.

Amuletos.
Há seis meses comprei asas.
Brincos-asa.
Acreditava que me tornariam mais rápida na corrida.
Não tornaram.
Talvez precisasse de treinar como se não houvesse amanhã para ser rápida.
Mais rápida não consigo ser.
Mudo agora a estratégia.
Tentarei ir mais longe.
Pelo sim, pelo não, comprei o pendente a fazer "pandã".
Talvez o guarde dentro do camelback e o leve também comigo.
Quero ir mais longe.
Até ao infinito e mais além.
Na corrida e noutras coisas também.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Bem-vinda, Primavera


21 de março, 16:57, Equinócio da Primavera.

Hoje o dia será igual à noite. Dia e noite terão a mesma duração.

Daqui para a frente, até ao Solstício de Verão, veremos os dias crescer. Todos os dias, um pouquinho mais de luz.

Gosto disso. Dias grandes. 

A Inês e o Diogo acreditam que a mamã chega mais cedo à escola para os ir buscar. Mas, em boa verdade, a mamã chega sempre à mesma hora.

A mamã, quando não tem que ser mamã por um pedacinho, pode beber um copo ao final da tarde no terraço do Tivoli Avenida, ao som da música do Bruno e da Gabriela, ver Lisboa inteira e deliciar-se com o Sol a pôr-se.

Com os dias maiores, aumenta também a probabilidade de chegar a mais uma meta numa qualquer serra... antes do Pôr-do-Sol!

Os dias grandes parece que fazem o tempo crescer.

No tempo presente, em que o tempo escasseia, ter mais tempo é uma preciosidade. 

Primavera, brinda-nos com bom tempo, pode ser?

Tempo. Uma palavra. Três sentidos. 




sábado, 15 de março de 2014

Depois d'O Caminho, sigo o meu caminho



Seis dias depois calcei os ténis e fui correr.
E que bem que soube.
Não o fiz antes porque não me apeteceu.
Cheguei ao fim d'O Caminho sem quaisquer lesões, contusões ou luxações. Nem uma bolhinha sequer.
Simplesmente não me apeteceu.
Ofereci-me a mim mesma seis dias de folga.

Fui correr no Parque das Nações, enquanto a Inês e o Diogo treinavam para serem a Sharapova e o Djokovic. Concluí que continuo a correr em bicos de pés, a gostar de sentir os ombros destapados ao sol e ao vento e que o rio Tejo continua bonito.

Se tudo tivesse corrido como previsto, teria publicado algo sobre O Caminho. Sobre a minha experiência d'O Caminho. Estava tudo acertado. Seria redigido a 4 mãos, como prometido há muito. Já tínhamos título e tudo. "O Caminho a quatro mãos (e treze pares de pés)". Os pés da Naná incluídos, pois claro.

Mas, seis dias e algumas tentativas depois, concluo que tentar escrever algo a meias com o Rui é tão desprovido de sentido como pedir a um aprendiz de pintura que pinte com Monet. O Rui, Monet portanto, já escreveu tudo e fé-lo de forma fantástica.

Há adicionalmente uma característica particular nesta aventura que foi O Caminho. É algo nosso. Vivido com outros que o partilham connosco, mas é algo absolutamente nosso.

Mais do que pensar, obriguei-me a não pensar.
É necessária muita disciplina para não pensar. Rapidamente nos distraímos e começamos a pensar em algo. Creio que não pensar me trouxe muita coisa boa. E estou certa que ainda estou a aterrar d'O Caminho e muito falta para descobrir.

Guardo por isso estes cinco dias comigo, reiterando o que escreveu o Renato há dias: "façam O Caminho". Dificilmente teremos tanto tempo para nos próprios como temos "ali".



Chegada a Santiago no domingo passado confesso que perdi o "Norte". "E agora?", pensei eu. Não encontrei o meu "eu interior". Talvez o meu "eu interior" seja francês. Se for o caso a resposta estará no Caminho Francês. Quem sabe, um dia!

Depois de recolher a Compostellana na Oficina do Peregrino, a qual atesta a minha condição de Cidadã de Compostela e me atribui o honroso nome de Susannam, segui para comprar a tradicional vieira. Na realidade deveria ter-me acompanhado desde o primeiro quilómetro, pois diz a história que era nela que os peregrinos bebiam água a caminho de Santiago.

Diz-se que a vieira (concha) significa proteção e busca de conhecimento, sendo que a devemos devolver ao mar depois de completado O Caminho. Assim sendo, O Caminho só estará completo quando se chegar a Finisterra, 80 km a noroeste de Santiago.

E é até lá que irei, ainda em 2014, a partir da Catedral de Santiago.