terça-feira, 25 de março de 2014

Até ao infinito e mais além!




in·fi·ni·to 
adjectivo
1. Não finitosem fim.
2. Ilimitadoeterno.
3. Absoluto.
4. Inumerável.

Amuletos.
Há seis meses comprei asas.
Brincos-asa.
Acreditava que me tornariam mais rápida na corrida.
Não tornaram.
Talvez precisasse de treinar como se não houvesse amanhã para ser rápida.
Mais rápida não consigo ser.
Mudo agora a estratégia.
Tentarei ir mais longe.
Pelo sim, pelo não, comprei o pendente a fazer "pandã".
Talvez o guarde dentro do camelback e o leve também comigo.
Quero ir mais longe.
Até ao infinito e mais além.
Na corrida e noutras coisas também.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Bem-vinda, Primavera


21 de março, 16:57, Equinócio da Primavera.

Hoje o dia será igual à noite. Dia e noite terão a mesma duração.

Daqui para a frente, até ao Solstício de Verão, veremos os dias crescer. Todos os dias, um pouquinho mais de luz.

Gosto disso. Dias grandes. 

A Inês e o Diogo acreditam que a mamã chega mais cedo à escola para os ir buscar. Mas, em boa verdade, a mamã chega sempre à mesma hora.

A mamã, quando não tem que ser mamã por um pedacinho, pode beber um copo ao final da tarde no terraço do Tivoli Avenida, ao som da música do Bruno e da Gabriela, ver Lisboa inteira e deliciar-se com o Sol a pôr-se.

Com os dias maiores, aumenta também a probabilidade de chegar a mais uma meta numa qualquer serra... antes do Pôr-do-Sol!

Os dias grandes parece que fazem o tempo crescer.

No tempo presente, em que o tempo escasseia, ter mais tempo é uma preciosidade. 

Primavera, brinda-nos com bom tempo, pode ser?

Tempo. Uma palavra. Três sentidos. 




sábado, 15 de março de 2014

Depois d'O Caminho, sigo o meu caminho



Seis dias depois calcei os ténis e fui correr.
E que bem que soube.
Não o fiz antes porque não me apeteceu.
Cheguei ao fim d'O Caminho sem quaisquer lesões, contusões ou luxações. Nem uma bolhinha sequer.
Simplesmente não me apeteceu.
Ofereci-me a mim mesma seis dias de folga.

Fui correr no Parque das Nações, enquanto a Inês e o Diogo treinavam para serem a Sharapova e o Djokovic. Concluí que continuo a correr em bicos de pés, a gostar de sentir os ombros destapados ao sol e ao vento e que o rio Tejo continua bonito.

Se tudo tivesse corrido como previsto, teria publicado algo sobre O Caminho. Sobre a minha experiência d'O Caminho. Estava tudo acertado. Seria redigido a 4 mãos, como prometido há muito. Já tínhamos título e tudo. "O Caminho a quatro mãos (e treze pares de pés)". Os pés da Naná incluídos, pois claro.

Mas, seis dias e algumas tentativas depois, concluo que tentar escrever algo a meias com o Rui é tão desprovido de sentido como pedir a um aprendiz de pintura que pinte com Monet. O Rui, Monet portanto, já escreveu tudo e fé-lo de forma fantástica.

Há adicionalmente uma característica particular nesta aventura que foi O Caminho. É algo nosso. Vivido com outros que o partilham connosco, mas é algo absolutamente nosso.

Mais do que pensar, obriguei-me a não pensar.
É necessária muita disciplina para não pensar. Rapidamente nos distraímos e começamos a pensar em algo. Creio que não pensar me trouxe muita coisa boa. E estou certa que ainda estou a aterrar d'O Caminho e muito falta para descobrir.

Guardo por isso estes cinco dias comigo, reiterando o que escreveu o Renato há dias: "façam O Caminho". Dificilmente teremos tanto tempo para nos próprios como temos "ali".



Chegada a Santiago no domingo passado confesso que perdi o "Norte". "E agora?", pensei eu. Não encontrei o meu "eu interior". Talvez o meu "eu interior" seja francês. Se for o caso a resposta estará no Caminho Francês. Quem sabe, um dia!

Depois de recolher a Compostellana na Oficina do Peregrino, a qual atesta a minha condição de Cidadã de Compostela e me atribui o honroso nome de Susannam, segui para comprar a tradicional vieira. Na realidade deveria ter-me acompanhado desde o primeiro quilómetro, pois diz a história que era nela que os peregrinos bebiam água a caminho de Santiago.

Diz-se que a vieira (concha) significa proteção e busca de conhecimento, sendo que a devemos devolver ao mar depois de completado O Caminho. Assim sendo, O Caminho só estará completo quando se chegar a Finisterra, 80 km a noroeste de Santiago.

E é até lá que irei, ainda em 2014, a partir da Catedral de Santiago.








sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A caminho do "Caminho"


A vida faz-se de caminhos e eu vou fazendo o meu... como sei... como posso.
Há cerca de dois meses uma amiga ofereceu-me uma moldura.
Era uma linda moldura e, focada no "embrulho", nem me apercebi que não precisava de recheio. De fotografia, portanto.
Sou distraída. Muito distraída.
Efetivamente, só vários dias depois reparei que a moldura trazia consigo uma mensagem.
"Never run faster than your guardian angel can fly", alertou-me a Maria.
A moldura encontra-se na minha mesa de cabeceira e não há dia que me deite ou levante sem olhar para aquelas palavras.
Pode ser correr, pode ser andar... no fundo resume-se a viver. Viver devagar, para que o nosso anjo da guarda nos possa... guardar!
Talvez ande a viver demasiado depressa e estivesse a precisar de algo para me fazer andar devagar.
Sei que parece um paradoxo, quando não me canso de proclamar o quão lenta sou na corrida!
Penso que entendem o que quero dizer.
Pois bem.
O meu anjo da guarda definiu novos planos para mim.
Ao contrário do que pensava, não irei escrever o segundo capítulo de "Uma Aventura em Vila de Rei".
Depois de 4 dias de reposição das doses de mimos com a Inês e o Diogo, partirei com 10 peregrinos a caminho... do "Caminho"! 
De 4 a 9 de março, correremos quando pudermos, caminharemos quando não pudermos, com a certeza porém que, ao fim de cerca de 250 km e chegando a Santiago de Compostela, teremos revisitado cada minuto importante das nossas vidas.
Acredito verdadeiramente que o "caminho" dará uma boa história!




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um dia correrei como a Anna Frost

Não me canso de ver esta menina.
A Anna Frost faz parte da minha vida presente.
Aos 6 anos era a Candy que preenchia os meus sonhos de menina.
Mais tarde, na adolescência, a dinamarquesa Helena Christensen, porque queria ser como ela quando crescesse.
Aos 38... gostava de correr como a Frosty.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sol de Inverno em Sicó



São 5:30 AM. Acordo em modo "tenho que escrever". E é isso que faço agora. Ao contrário do que sempre acontece, ontem não "escrevi" ao longo dos 52 km que constituíram o percurso do Trail de Conímbriga, em Sicó. Talvez fosse demasiado ocupada a pensar noutros assuntos que mereciam ser pensados num enquadramento daqueles. E a serra traz-me isto. Oferece-me isto. Tempo para pensar. Pensar envolta de cenários inspiradores de qualidade HD.

Parti bem cedo com um grupo de amigos de Lisboa. 200 km, algumas peripécias e música de Maná - pensando nos outros amigos que se encontravam em Sevilha à mesma hora - depois, chegámos ao destino.

O São Pedro bem mereceu o título de santo ontem. Que lindo dia de Sol! O Sol de Inverno acarinhou várias centenas de atletas, que saíram com as doses de Vitamina D repostas. Que bem que soube!

Troquei Sevilha por Sicó

Na partida lá estavam as caras do costume. Encontro algumas, outras encontram-me a mim. "Não estavas em Sevilha, Susana?", perguntam. Sorrio e digo que mudei de ideias.

E mudei sim. Há cerca de duas semanas havia decidido que não iria correr a maratona em Sevilha. Queria guardar Sevilha como foi em 2013. Com a família a meu lado, cruzando-se comigo em vários pontos do caminho. Com a saia de sevilhana, que inicialmente me fez querer enfiar num buraco percebendo que era a única atleta que tinha escolhido um equipamento diferente e depois se revelou a mais inteligente opção, merecendo a triplicar as palavras de incentivo dos locais que pensavam que fosse uma "das suas". Sevilha foi perfeita assim e deste modo a quis guardar.

A partida com os abútricos

Percorri a primeira parte do percurso com alguns elementos da família abútrica. Em alguns momentos tive que pensar se deveria parar para rir ou tentar correr rindo. Depois de alguns quilómetros mais planos, começam a chegar os montes que nos fazem "meter a primeira" e fazer-me pensar "ri-te agora, Susana". Não tinha comigo os bastões pelo que a tarefa se afigurava algo mais complicada. Parti um bastão na Lousã em janeiro e ainda não fui tratar do assunto. Rapidamente concluí que não vivo sem eles. Os bastões.

Começa a diversão

Depois do primeiro abastecimento na Ameixeira, em que recebo as palavras de incentivo da Ana Cristina do Mundo da Corrida, sigo caminho ao lado do Pedro Lizardo que não veio claramente com o propósito de chegar rápido à meta. Fazendo sprints para trás e para diante, como se de uma gazela se tratasse, vai procurando o melhor plano, a melhor perspetiva e divertindo-se com a sua câmara. Vamos querer essas imagens  editadas, Pedro! Surge a primeira subida mais íngreme onde me estreio nas quedas e no encontro com a lama. Seguem-se uns trilhos onde me divirto, tentando escapar às pedras rolantes. Chegados cá abaixo subimos um pouco e sabemos que em breve estaremos no segundo abastecimento, onde nos aguardam... os queijos!

Pão com queijo e mel, não uma, nem duas, mas... três vezes!

No Poço, começo pelos gomos de laranja mas rapidamente me rendo ao pão de mistura com queijo e mel. Preparo uma fatia que me coloca algumas dificuldades a comer, tal a altura dos ingredientes.

Há por aí uma foto a registar o digno momento, que proibi determinantemente o autor de publicar!

O cenário viria a repetir-se umas vezes mais. Comi pão com queijo e mel para os próximos seis meses!

O cavaleiro no cavalo branco

Como dizia ontem, a generosidade da família abútrica não se circunscreve à Serra da Lousã. E assim foi. O José Carlos insiste pela décima vez para que fique com os seus bastões porque vou precisar deles. "E tu não precisas?", pergunto. "Espero por ti no próximo abastecimento e logo mos dás", respondeu. Foram "apenas" os bastões do José Carlos, mas souberam ao que deve saber o resgate por um cavaleiro a galope no seu cavalo branco. José Carlos, acabas de ganhar mais um título, a adicionar ao vassoura-simpatia que arrecadaste nos Ultra Trilhos dos Abutres. Que me perdoe o João Martins que abraçou a nobre tarefa de vassoura na prova de ontem. Não tive o prazer de correr na sua companhia. Sei que teria sido uma fantástica experiência. Mas ontem estava num modo lento-endiabrado!

Uma casa na pradaria

Chegamos novamente ao vale e ao terceiro abastecimento. Villa Romana Rabaçal, de seu nome. O José Carlos não me espera, como de resto já era expectável. Seguiu sem os seus bastões. Enganou-me! Nessa altura decido então regulá-los e adaptá-los à minha estatura, para que deles melhor possa usufruir. Mais uns gomos de laranja, uns tragos de coca-cola, o pão com queijo e mel e... siga que se faz tarde!

A dado momento avisto as eólicas e não me restam dúvidas que subiremos lá acima. Também não as tenho quando vejo uma antena. Nestas provas longas, sabemos de antemão que teremos oportunidade de visitar todos os pontos mais altos das redondezas.

Mas esta subida às eólicas faz-me parar para tirar um retrato. Ainda estou do outro lado da montanha, terei que descer até à base da seguinte e já vejo pontinhos que não são mais do que atletas a subir a pique até ao topo. Solto uma valente gargalhada e sigo o meu caminho. Os bastões são a mais preciosa ajuda. Ajudam-me a marcar o ritmo e a não esmorecer. Chegada ao topo, caminho uns metros, cruzo-me com uma corporação de bombeiros e procuro o trilho a seguir. De repente assunto-me. Assusto-me a valer. Olho o chão e a sombra das pás das eólicas gira no solo. Uma das sombras raspa-me na orelha. Sério que me raspou na orelha!

Segue-se um estradão de cascalho branco que ladeia as dezenas de moinhos de vento no topo da montanha. Sítio perfeito para estar no início de tarde de domingo. É também nesta altura que penso em Sevilha. "Se lá estivesses, a esta hora, melhor ou menos bem, estarias a concluir a tua missão". Não tive pena. Era ali que queria estar. Mesmo sabendo que ainda tinha metade do percurso pela frente e pelo menos mais 4 horas a monte.

Depois dos 40 K, o onduladinho

Quem me lê e acompanha há algum tempo, sabe bem que estes são os meus favoritos. Os onduladinhos. Não sobem muito, não descem muito. Os arbustos fazém cócegas nas pernas. As silvas arranham. Adoro os onduladinhos. 

Chegados a mais um topo - sinto que subi 40 montanhas ontem - a minha intuição de escorpião dá o alerta. "É agora que nos vamos divertir?", pergunto ao Pedro. E é mesmo. O Pedro sai na frente e eu sigo como posso, no modo mais endiabrado que conheço, acreditando que há um nadica-de-nada de Frosty um mim. Salto, abro a passada, dou pontapés das pedras, receio ficar sem dentes, mas divirto-me por demais naquele onduladinho. O sol está perfeito e só penso nas fotos da Anna Frost debaixo do sol neo-zelandês! 

Depois deste, segue-se um outro trilho. Um trilho bem cerrado, carregado de pedra que dificulta a progressão, mas de uma beleza incrível. A humidade já se faz sentir e os cheiros ganham outra dimensão. Rapidamente sou ultrapassada pelo Luis e Nicolau. Volto apenas a encontrá-los uns metros adiante porque...

Há festa em Casmilo!

Chego ao penúltimo abastecimento. Música, tendinhas, aldeões. Tenho dificuldade em encontrar os atletas e a mesa do abastecimento. Que festa nesta tarde de sol de Inverno! Se tivesse levado a saia de sevilhana ter-me-ia juntado ao rancho seguramente!

Sei que aquela será a derradeira experiência com o pão, queijo e mel da região e por isso demoro-me por lá mais um pedaço. Estamos todos juntos agora. Todos juntos! Vamos terminar isto?

Sem bateria no garmin, mas "Antes do Pôr-do-Sol"!

Há dias um amigo brincava comigo dizendo que havia escolhido mal o nome para o meu blogue. "Antes da bateria do garmin acabar", disse ele. "Esse é que era o nome certo!", acrescentou.

A bateria do garmin acabou depois de 8 horas de funcionamento. Ainda faltam uns quilómetros. Usando as palavras do Luís Sommer, vou exclamando "o último a chegar é um ovo podre"! Fui ovo podre em inúmeras situações hoje. Também exclamei "fartinha, fartinha, fartinha"! Mais do que as pernas, só a cabeça pode aguentar tanta hora a monte. E quando chegamos ao fim e verificamos que a cabeça superou, sabemos que crescemos mais um bocadinho.

9h01m depois saímos... Mais fortes. Mais confiantes. Melhores. E por isso voltaremos!

Até breve, em Vila de Rei!