segunda-feira, 17 de junho de 2013
Crónica de uma vitória anunciada
Vitória: s.f. Ação ou efeito de vencer. Qualquer sucesso, êxito ou vantagem alcançada. Triunfo. (Do Lat. victoria)
Em vários momentos no sábado, debaixo de “60 ºC à sombra”, me lembrei das palavras que tinha partilhado no dia anterior.
Em vários momentos sonhei estar descalça, a pisar areia e a banhar-me nas águas do mar.
Mas tive o que havia desejado para mim naquele dia: cascalho, pedras e folhinhas. Assim como derreter ao sol. E banhar-me num dos muitos afluentes do Zêzere.
No sábado participei na segunda edição da prova Oh Meu Deus – Vila de Rei. E não a esquecerei.
Dureza…
Dois dias depois as emoções estão ainda à flor da pele. Foi duro, muito duro. Não sei se foi a prova mais dura que fiz. A verdade é que tenho ainda muito presente a aventura UTSM, com os seus 100 km e, claro, a subida a Marvão. Mas, uma coisa é certa. O meu corpo diz-me que sim. Os meus quadríceps dizem-me hoje que, no sábado, experenciei a prova mais dura até aqui.
Felizmente a mente humana tem a capacidade de eliminar seletivamente alguns registos. E, geralmente, tende a apagar os ficheiros menos bons, guardando apenas as boas recordações. Tal qual quando perdemos alguém de quem gostamos muito.
De Vila de Rei, só guardarei coisas boas.
O meu primeiro briefing
Pela primeira vez numa prova, decidi assistir ao briefing que a antecede. Cheguei a Vila de Rei na véspera e rumei ao pavilhão onde receberíamos algumas dicas importantes.
O Paulo Garcia, diretor da prova, já falava para um pequeno grupo quando entrei. Falou-nos do percurso e das suas dificuldades. Do calor que se iria fazer sentir. Do vento, que até saberia bem, mas que seria um fator acrescido para rapidamente chegarmos ao estado de desidratação. Das subidas. Das descidas. Dos trilhos técnicos. Dos estradões e das fitas de marcação. Nada ficou esquecido.
Saí de lá um pouco alarmada e, seguindo a estratégia que apontei acima, fiz reset ao que me assustava e concentrei-me no importante: “Susana, as fitas de marcação são de cor laranja. É esse o caminho a seguir”.
Um caso de polícia em Vila de Rei
7h30 da manhã e dirijo-me para o local da partida. Quando chego, já lá está o Carlos Freire e dois amigos – a Aida e o David – ambos da Policia Judiciária. O Carlos, não sendo polícia, é perito de balística da PJ. Naquela manhã estava sem bata branca e fugira do laboratório!
O grupo era pequeno – 38 atletas – contemplando três senhoras na prova de maior distância. Confesso que vinha consultando a lista de inscrições nos últimos dias, procurando ver as últimas atualizações. Se se mantivessem as três inscrições femininas, teria apenas que garantir que chegaria ao fim para assumir o terceiro lugar. Depressa o “apenas” se converteu numa árdua tarefa – a prova não tinha sido desenhada para “maçaricas” como eu.
A partida foi anunciada e lá saímos em ritmo sereno. Era tão sereno que consegui correr lado-a-lado com o Luís Mota. Reformulo. Consegui correr dois metros lado-a-lado com esse super-herói-da-montanha.
Foi precisamente com a Aida, o Carlos e o David que percorri a primeira metade da prova. Raramente deixei a posição “último lugar”. Uma ou outra vez lá brincava com os três, adiantando-me um pouco, rindo e perguntando se porventura tínhamos ido a Vila de Rei para alguma caminhada!
Por várias vezes vi o Carlos parar e aguardar debaixo da sombra de uma árvore. Quando passava por ele, logo lhe ralhava, dizendo que devia seguir e que estava proibido de esperar por mim. Eu safar-me-ía seguindo as fitas laranja fluorescentes.
Rapidamente me apercebi que sou ótima a falhar percursos. Vou demasiado focada no solo. No tal cascalho, nas pedras e nas folhinhas. E lá me escapa uma fita laranja do mais fluorescente que há!
Lá seguimos, dois polícias, um perito de balística e uma safada (eu própria, pois não esqueço o que exclamou um também polícia em Sevilha, quando me viu correr de saia de sevilhana), serra acima, serra abaixo. Sempre adiante. Subindo. Descendo e… catrapum! Numa descida, escorrego e enrolo-me nas silvas. Alguns arranhões, um polegar que desata de imediato a inchar, duas ou três palavras menos dignas de uma senhora, mas perfeitamente adequadas a uma safada, e continuamos caminho.
Antes de atingirmos o Centro Geodésico de Portugal – sim, o meio, mesmo o meio de Portugal! – passamos por uma hortinha, onde uma “Dona Aparecida” rega as suas couves e alfaces. Abeirei-me da senhora e perguntei se me podia ajudar, facultando-me água para lavar o braço que ostentava uma mistura de terra e sangue. Pois bem. Não só me lavou o braço, como o esfregou. “Ai coitadinha da menina, o que lhe foram fazer”, exclamou a generosa senhora. Perdi a coragem de lhe dizer que eu própria tinha tratado de assegurar uma maldade daquelas!
E assim continuou a perseguição policial serra acima e serra abaixo. Uma estranha perseguição. Nesta história, a safada vai atrás dos dois polícias e do perito de balística e não ao contrário. É mesmo safada!
Grandes Horizontes
Seria injusta se não falasse da organização (Horizontes) em geral e dos abastecimentos em particular desde já.
Tudo decorreu efetivamente de forma extraordinária. O percurso. As marcações. A equipa de apoio que, sem exceção, acolheu os atletas de forma exemplar. A papinha estava deliciosa. Até creme protetor nos ofereceram! No abastecimento de Formosa, a menina (esqueci o nome, lamento) proibiu-me determinantemente de colocar o protetor solar “genérico” no rosto e foi buscar o seu à mala para me dar. Protetor solar exclusivo para rosto da Avène, vejam só!
A cereja no topo do bolo, corrijo, a azeitona no topo da tosta barrada com paté de atum foi divinal!
Os “ratos da cidade” precisam sem dúvida visitar os “ratos do campo” e aprender com quem percebe de cidadania!
O Centro Geodésico de Portugal
O Picoto da Milriça acolhe aquele que é o centro de Portugal. E que centro este, vos garanto! Para lá chegarmos, iniciamos uma subida que nos consome toda a energia. O calor forte já se faz sentir. Quando julgamos que nada pode piorar, defrontamo-nos com uma subida vertiginosa que se desenvolve sobre calhau. Naquele momento lembrei-me da fase final da subida a Marvão, confesso. Os “degraus” formados pela pedras são de tal forma desnivelados que nada mais merecem do que os meus protestos por ter duas pernas curtinhas.
Chegados lá acima, o cenário é, aí sim, de cortar a respiração. Geograficamente estou perdida, é certo, mas sei que devo avistar algures a minha adorada Serra da Lousã e, em dias limpos como o que se verificava, à distância de 100 km, a Serra da Estrela. Absolutamente lindo. Senti-me muito, mas mesmo muito pequenina naquela vastidão que os meus olhos alcançavam.
Entre as Trutas e o Penedo…
Nesta parte do percurso segue ainda junta a comitiva da PJ e a safada. Converso um pouquito com a Aida. O David lá vai protestando e brincando comigo, dizendo para me apressar pois já se vai fazendo tarde. Mas, na maior parte das vezes, seguimos calados. É ótimo também!
Avistamos água e calculamos que o Penedo não esteja longe. “Se o Penedo não está longe, a minha banhoca está por perto também”, penso.
Mas as gentes da Horizontes são da mesma escola das gentes de São Mamede. “Descubra a forma mais penosa e longa para chegar do ponto A ao ponto B”, é o lema das escolas de marcação de percursos de montanha. Já lhe estou a apanhar o jeito e um destes dias organizo eu uma brincadeira destas para me rir, sentada na poltrona, à custa das agruras dos atletas!
Depois de muito subir e também descer, estamos praticamente dentro de água, caminhando ao longo da barragem. Em equilíbrio lá vamos seguindo, entrando finalmente em solo firme, mas continuando acompanhados por água à nossa direita.
E eis que… o paraíso aparece defronte de mim! Uma linda piscina, com cascata incorporada. Não vou seguramente recusar o convite que me faz para me refrescar. Tiro os ténis e tiro as meias. Arrefeço um pouco as pernas enquanto lavo os ténis e depois… “Splash, a caracoleta!” (lembrar-se-ão do título da versão original, presumo). A caracoleta nadou, mergulhou, foi junto da cascata e aproveitou os benefícios daquela água gelada em cada tendãozinho do seu corpo. Quando apareceu o fotógrafo Pedro que nos havia apanhado um pouco mais atrás, tratei de confirmar que o Luís Mota chegaria rápido à meta mas não tinha usufruído de um banho assim! As minhas convicções estavam certas!
Do Penedo à Formosa
Chegamos ao abastecimento do Penedo, onde nos demoramos um pouco. Depois do banho refrescante, há que repor energias. A Aida e o David partem primeiro. Fico para trás com o Carlos. Reenergizados, seguimos caminho. Estamos a meio da prova. O sol aquece. Espera-nos uma grande aventura.
Aos 40 km olho para o garmin que marca 8h30 de prova. Sorrio, e recordo-me que foi o tempo que demorei a concluir os 50 km de Sesimbra em abril último. “Isto é duro, muito duro”, concordamos os dois. O garmin, esse, “morre” ali mesmo. Não falamos muito. Andamos, corremos, seguimos em frente, pois para a frente é o caminho!
Chegamos à Formosa e à sua Aldeia de Xisto. Que coisa linda! O abastecimento espera-nos no varandim de uma casinha catita. Delicio-me com a porta de madeira e o corrimão da escada, em ferro, o qual desenha corações. A casa pertence a alguém de Lisboa, que visitou a aldeia há uns anos atrás e se apaixonou pelo local. Não tenho dificuldades em perceber porquê.
A caminho da EN2 e sem saber se me deixam prosseguir até à meta
Continuo a alguns metros do Carlos, que teve a infelicidade de, literalmente, furar o pé logo na fase inicial da prova. Segue assim com algumas dores que o impossibilitam de correr como deseja.
A dado momento mandou-me seguir. Confesso que tinha ido a Vila de Rei para abraçar a Inês e Diogo na meta e, como tal, receava que com o adiantado da hora, me vedassem a continuação na prova no abastecimento seguinte.
Perguntei-lhe se estava bem e garantiu-me que sim. Carlos, obrigada, foste uma ótima lebre e companhia!
Segui.
Diante de mim surge agora uma longa e abrupta descida, com pinheiros alinhados que distam menos de dois metros entre si. O piso é constituído por casca e folhas de pinheiro, pinhas, e muitas outras coisas desconhecidas que vou pisando com cautela. A progressão é lenta. Aquele piso não me permite que o faça de outra forma.
Finalmente chego à base e a um estradão. Agora sim, desato a correr. Penso no Diogo e na Inês. Quero que vejam a mamã chegar à meta e receber a medalha de terceiro lugar. Apenas isso me move.
Rapidamente o estradão termina e inicio uma subida muito íngreme que me conduz ao cume de uma serra. À minha esquerda, um vale encaixado que se desenvolve ao longo de várias centenas de metros. Cenário lindo. E vejo o sol a descer.
Quando chego ao fim deste estradão, avisto o Paulo Garcia. Estou assim no abastecimento da EN2. “Não me vai deixar seguir, pois não?”, pergunto. O Paulo sorri e diz-me que vou continuar e que tenho 11 km pela frente. “Mas… não trouxe o frontal”, respondo. O Paulo assegura-me que já tratou disso e que no último abastecimento terei o que preciso à minha espera.
Ganho um novo ânimo, bebo aquele que penso ser o vigésimo copo de coca-cola do dia, atesto pela sexta vez o depósito de água do meu camelback e sigo caminho.
A caminho do fim
Faltam 11 km. “6 km até ao último abastecimento, sempre a descer”, havia dito o Paulo. “E depois serão 5 km a subir”, acrescentou. Truques, só truques. Desci durante algum tempo, sim, e em estradão como me havia assegurado. Mas também subi. E também me enrolei novamente em silvas. E passei ao lado de uma casa abandonada digna de um conto de fadas. E assim, 8 km depois, cheguei a Poios.
Último abastecimento, uma bifana e, claro, coca-cola. O Paulo está lá de novo e diz-me que o Carlos continua em prova. Sorrio. Dois dedos de conversa com alguns dos elementos da organização e prossigo na minha aventura.
E, uma vez mais, o sol a pôr-se
Uns metros adiante surge uma parede como nunca subi na vida. Não olho para trás porque poderá correr mal. Se os meus filhos algum dia fizerem algo semelhante, prefiro não saber.
Chegada ao topo atravesso mais um caminho digno de conto de fadas e passo pelo fotógrafo Pedro, que me tira mais um retrato. Há umas horas atrás, enquanto me refrescava perto de Penedo, deveria estar com melhores cores seguramente!
Ligo o frontal que me foi dado em Poios e sigo para os derradeiros kms. Quando dou por mim, já avisto Vila de Rei. Quando me apercebo já os meus pés pisam pedra de civilização. Estou quase e não foram 5 km como havia dito o Paulo. Foram menos, muito menos! Gostei desta estratégia para a gestão do esforço, confesso!
A meta
Contorno uma esquina e avisto o Diogo e a Inês a brincar junto da linha da meta. Solto um grito de alegria profundo.
Correm na minha direção, agarro nas suas mãozinhas e termino, “Oh Meu Deus”, se termino! Chega assim ao fim a minha aventura de 65 km e 13h40m, e conquisto assim o meu primeiro terceiro lugar!
Foi uma vitória à minha maneira, mas foi a minha vitória!
quinta-feira, 13 de junho de 2013
O Moinho, a caminho do Cabo da Roca
Com D. Inês Quixote e Sancho Diogo, no mais bonito moinho das redondezas deste retângulo à beira-mar plantado...
domingo, 19 de maio de 2013
Choveram estrelas em São Mamede
Choveram muitas, sim.
Choveram estrelas em forma de granizo.
E choveram estrelas em forma de gente, gente que cortou a meta dos 100 km depois de mais de 6.000 metros de desnível acumulado.
Foram mais de duas centenas os atletas que às 00 horas de dia 18 largaram ao som do tiro de partida, em busca de uma medalha de cortiça.
Destes 200, alinharam à partida 22 senhoras.
Umas eram craques, outras supersónicas, umas assim-assim e depois… depois havia eu: a caracoleta dos trilhos.
Como vim parar aqui?!
“100?! Nem pensar!”, disse eu quando terminei os 50 km de Sesimbra em abril. Passados três dias fiz o upgrade da inscrição nos 42 para os 100 km em São Mamede. Está visto que sou uma “miúda” carregada de fortes convicções.
Só podia naturalmente aventurar-me na estreia dos três dígitos com a garantia de que seria (bem) acompanhada. Joaquim Adelino e Luís Miguel… Escolta até aos 100 assegurada!
18 de maio. Chegou o dia. Estou moderadamente tranquila durante toda a manhã e tarde. Depois das 21 horas instala-se a ansiedade. Eu que faço sempre muito barulho, sento-me encostadinha na parede do corredor do pavilhão de onde partiríamos daí a poucas horas. “Estás pálida, Susana”, dizem alguns amigos. Acho que sim, que estava. Medo! O que serão 100 km?! Na dúvida, o melhor é ir “espreitar” como é.
Começa a loucura
Noite escura. A única iluminação é a dos frontais de centenas de atletas que correm pela Serra de São Mamede dentro. Logo nos primeiros quilómetros da prova oiço os guizos das ovelhas. Penso na Inês e no Diogo e, instantaneamente, a cabeça começa a traulitar “havia um pastorinho, que andava a pastorar, saiu de sua casa e pôs-se a cantar (…)”. Esta canção infantil viria a ressurgir noutros pontos da prova, a cada vez que era confrontada com o chocalho de guizos. Felizmente, não tive o azar do meu amigo Pedro Quina, que se deparou com 150 cabras e o respetivo cão-pastor que lhe cortaram o caminho!
A subida às antenas e a chegada ao PAC 2
Passado o primeiro PAC (Posto de Abastecimento e Controlo, para quem não conhece a sigla), iniciava uma das mais temíveis subidas desta prova: a subida às antenas. Teríamos que vencer um desnível de cerca de 1.000 metros ao longo de 10 km. Senti que precisaria de um isotónico especial. Fui buscar o ipod – único momento da prova em que o fiz – e, já com as mãos geladas, ofereci-me o piano de Ludovico Einaudi.
Apesar de dura, confesso que foi das experiências mais emocionantes destes 100 km. Nem lua, nem estrelas para nos iluminar o caminho. A noite cerrada, o nevoeiro, o vento, a luz do frontal, eu e Einaudi. A cada vez que o Ludovico tocava uma tecla, eu espetava vigorosamente os bastões no solo. Foi um daqueles momentos a que podemos chamar de genial!
Depois de muito subir, chegamos finalmente ao ponto mais alto deste nosso Portugal a Sul do Tejo. No meu caso, 5h06m depois da partida. O frio e vento são terríficos e alguns atletas estão em dificuldade. Tento aquecer-me como posso e vou para junto de uma fogueirinha. Saí de lá a cheirar a borralho, mas quente.
Iniciamos depois um lindo trilho em “single track”, que se prolonga serra abaixo. Quando o termino, já tenho o aviso da manhã a querer nascer. Aquela luz que não se sabe muito bem se está o dia a começar ou a terminar. Aquele azulinho acizentado.
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São 7h22. Estou há mais de 7 horas a monte. Não dormi. Mordo um figo seco. Estou verdadeiramente a entrar em queda. Apercebendo-se disso, os companheiros de corrida, Joaquim e Luís, falam comigo, mas eu já nem respondo. Limito-me a esboçar sorrisos. Continuo a correr mas já não estou ali. Avisto a Barragem da Apartadura. Esforço-me para contemplar a sua beleza. “E se desse um mergulho?”, penso. Teria acordado, isso é certo. Só mais um pouco e chego ao PAC 4. “Café?”, pergunta um dos elementos da organização. “Triplo”, respondo. Não sei o que tinha aquele café. Não sei se era triplo. Mas aquele café ressuscitou-me. Voltou a Susana.
Chegar a Marvão
Depois da meia bifana no PAC 5 (Porto de Espada) começa mais uma subida. Lá em cima, olhamos para a direita e vemos Marvão ao fundo. Lindo Marvão. Rapidamente deixou de o ser! Tão perto, mas tão longe. Ziguezagueamos, subimos, descemos. Subimos de novo. Contornamos o monte que eleva Marvão e voltamos a descer. Para depois o subir. Senhores organizadores… Irei descobrir quem desenhou este troço do percurso, saber onde mora, descobrir a sua viatura, furar-lhe os 4 pneus e desenhar um “S” de “Susana” no “capot”. Talvez seja presa por isso, mas será um delito praticado com muita convicção!
Enfim, talvez lhes perdoe, porque depois do pesadelo da subida, entro finalmente em Marvão, recebo 100 sorrisos de vários membros da organização (curiosamente, quando os questiono, nenhum é responsável pelo desenho do percurso) e uma sopinha que me aconchegou o estômago que, há muito, reclamava por algo mais do que figos secos.
É também em Marvão que agarro pela primeira vez no telemóvel. A alegria era tanta que anunciei a chegada aos 60 na minha página pessoal do FB. Desconhecia o que me esperava, mas assegurei que chegaria ao fim. Achava eu que a subida a Marvão seria a maior provação do desafio! Nesta altura apercebo-me, também, do reboliço que vai no meu mural. Dezenas de amigos acompanhavam-me a par e passo e “gritavam” palavras de incentivo. Não esquecerei estes gestos. Poderia esquecer Marvão, mas isto não.
A caminho do km 70
Deixamos Marvão. Para além da sopinha, aproveitei também para mudar de vestido. Retirei o equipamento estilo “casual” e adotei o estilo “cerimónia”. 60 quilómetros já estão, mas se ainda tenho 40 pela frente, tenho mesmo que usar o equipamento da Frostie. Tenho que descobrir a Anna Frost que há em mim. Pode ser ilusão minha, é certo, mas aquele equipamento dá-me outro ânimo.
Passamos Portagem e, uma vez mais, perco-me em pensamentos com a Inês e Diogo. Há um ano atrás, um pouco menos, andavam ali a saltar para dentro da piscina fluvial. Mergulho, sai, mergulho, sai. Não sei se lá consigo voltar tão cedo. Marvão fica mesmo acima!
Deparo-me com a “minha” estrada. Adoro aquela estrada. Ladeada de árvores de ambos os lados, com os troncos pintados. Infelizmente, só gozo metade da sua extensão. Esta gente não quer nada com alcatrão e rapidamente nos põe a correr em cima de pedra. Toca a voltar para a esquerda! Esperam-nos mais umas subidinhas. E granizo, muito granizo.
No final de mais uma subida, olho para trás. Lá muito ao fundo, a serra com as antenas ao topo. Estive lá há algumas horas atrás. Em frente, Marvão, que acabei de subir 34 vezes. “O que me espera agora?!”, penso.
Chovem almôndegas em Portalegre
Não eram almôndegas, mas era granizo do tamanho de almôndegas. Batem-me nas pernas, agora descobertas com o equipamento Frostie. Reclamo com toda a energia que ainda me resta, mas São Pedro não me dá ouvidos. Felizmente estamos a poucos quilómetros do PAC seguinte – Carreiras. Ao chegarmos, abrigamo-nos debaixo da tenda. Vários atletas chegam, entretanto, e dizem que ficam por ali. “Como é a nossa vida?”, pergunto ao Joaquim e Luis. “Continuamos, claro, foi para isso que aqui viemos”, responde convictamente o Luís. Se estivesse só na prova, tenho a certeza que teria ficado por ali. Não teria tido forças para continuar.
E seguimos rumo a Castelo de Vide.
O sol espreita mas… granizo de novo!
Estou gelada mas, finalmente, a chuva parou e o sol espreita. Tento correr um pouco mais e consigo secar o equipamento. Continua o sobe e desce. E vem uma nuvem. Uma nuvem carregada de pedras. Desaba novamente uma chuva de granizo sobre nós e corro como se não houvesse amanhã. Corro e choro, confesso. Estava desesperada. Ainda faltava tanto! Não conseguiria suportar o resto se São Pedro continuasse a despejar almôndegas em cima de mim.
Pela primeira vez agasalho-me com a manta de sobrevivência. Seria a única forma de me aquecer. Bebo um chá a escaldar no PAC 8, Castelo de Vide. Está quase. Vamos lá para o quase que falta.
Lama não foi muita, até que...
Apesar da chuva intensa dos últimos dias, São Mamede não nos ofereceu muita lama. Depois de um longo estradão em terra batida, em que me debatia com as pernas porque se recusavam a correr num terreno perfeito para o fazer, surge um desvio para a esquerda. Avanço seguindo as marcações. O terreno parecia sequinho. Mas não estava. Enterro um sapato. Para o conseguir tirar, enterro o outro. Saí de lá (calçada, felizmente) com 2 kg de lama em cada pé. Precisaria de correr outros 100 km para soltar a lama que ficou agarrada aos ténis. A lavagem é também uma boa opção!
Ermida da Penha, 95 km
Já está quase, mas apetece-me ficar sentada por aqui. Quanta simpatia com que somos recebidos! Que animação! Sugeriram que bebesse uma cerveja. Eu até teria bebido e esquecido que odeio cevada fermentada, mas estou certa que cairia redonda no chão e teriam que me carregar até à meta. Confesso que naquele momento cheguei a pensar que era uma boa solução para o problema que ainda tinha pela frente… 5 kms. E o sol a pôr-se.
Deixei os elementos da organização com tristeza e… e desci como pude os 236 degraus que me apareceram pela frente. Engraçadinhos, muito engraçadinhos estes organizadores. Reitero a história do “S” no “capot” que escrevi acima. Mas a malandragem não terminava aí. O lema desta prova é seguramente ”descubra a forma mais longa e penosa para chegar do ponto A ao ponto B”. O estádio ali tão perto, mas… ziguezagueamos sem fim e perco o norte.
100 km, que são 102 ou 103 km
O meu Garmin perdeu o pio há muito. Não sei quantos quilómetros levo ao certo, mas já vejo os holofotes no estádio. Sim, o sol já se pôs. Teria gostado de chegar antes de desaparecer. Quem sabe da próxima vez!
Entramos no estádio – eu e o Luís, pois o Joaquim teve que terminar aos 90 km com fortes dores – e sorrio. Faço a festa e respiro profundamente. Terminou. Consegui.
O balanço
Estive 21h30 por entre vales e montes para completar os meus primeiros 100 km. Teria gostado de ter conseguido correr mais. Caminhei muito, muito mesmo. Subi, desci. Sorri, chorei. Acreditei, mas também pensei que não conseguiria. Quis deixar cair o corpo nos bancos dos PACs e deixar-me ficar por ali. Mas quis mais voltar a correr. Tive frio. Nunca tive calor. Tive sono. Senti genica. Quando anunciaram a vencedora feminina do UTSM – Júlia Conceição – eu estava algures entre o km 60 e o 70. Levaria ainda mais 8 horas para os terminar. Fico absolutamente maravilhada com estas atletas. Completar aqueles 100 km em 13h20 é para gente de outro planeta!
Day after
Deixámos Portalegre para trás. “Com tanta terra aqui a direito foram espetar connosco lá no meio da serra”, diz o Joaquim Adelino. Gargalhada geral.
Chego a casa com duas medalhas. Tive que fazer um choradinho junto da meta para trazer duas. Desta vez tinha que pôr uma ao pescoço da Inês e outra ao pescoço do Diogo. Não havia espaço para partilhas. À minha espera estão vários desenhos. Um deles, da autoria da Inês, mostra uma mamã corredora. “A minha mãe correu 100 km”, escreveu ela.
Choveram estrelas em forma de granizo.
E choveram estrelas em forma de gente, gente que cortou a meta dos 100 km depois de mais de 6.000 metros de desnível acumulado.
Foram mais de duas centenas os atletas que às 00 horas de dia 18 largaram ao som do tiro de partida, em busca de uma medalha de cortiça.
Destes 200, alinharam à partida 22 senhoras.
Umas eram craques, outras supersónicas, umas assim-assim e depois… depois havia eu: a caracoleta dos trilhos.
Como vim parar aqui?!
“100?! Nem pensar!”, disse eu quando terminei os 50 km de Sesimbra em abril. Passados três dias fiz o upgrade da inscrição nos 42 para os 100 km em São Mamede. Está visto que sou uma “miúda” carregada de fortes convicções.
Só podia naturalmente aventurar-me na estreia dos três dígitos com a garantia de que seria (bem) acompanhada. Joaquim Adelino e Luís Miguel… Escolta até aos 100 assegurada!
18 de maio. Chegou o dia. Estou moderadamente tranquila durante toda a manhã e tarde. Depois das 21 horas instala-se a ansiedade. Eu que faço sempre muito barulho, sento-me encostadinha na parede do corredor do pavilhão de onde partiríamos daí a poucas horas. “Estás pálida, Susana”, dizem alguns amigos. Acho que sim, que estava. Medo! O que serão 100 km?! Na dúvida, o melhor é ir “espreitar” como é.
Começa a loucura
Noite escura. A única iluminação é a dos frontais de centenas de atletas que correm pela Serra de São Mamede dentro. Logo nos primeiros quilómetros da prova oiço os guizos das ovelhas. Penso na Inês e no Diogo e, instantaneamente, a cabeça começa a traulitar “havia um pastorinho, que andava a pastorar, saiu de sua casa e pôs-se a cantar (…)”. Esta canção infantil viria a ressurgir noutros pontos da prova, a cada vez que era confrontada com o chocalho de guizos. Felizmente, não tive o azar do meu amigo Pedro Quina, que se deparou com 150 cabras e o respetivo cão-pastor que lhe cortaram o caminho!
A subida às antenas e a chegada ao PAC 2
Passado o primeiro PAC (Posto de Abastecimento e Controlo, para quem não conhece a sigla), iniciava uma das mais temíveis subidas desta prova: a subida às antenas. Teríamos que vencer um desnível de cerca de 1.000 metros ao longo de 10 km. Senti que precisaria de um isotónico especial. Fui buscar o ipod – único momento da prova em que o fiz – e, já com as mãos geladas, ofereci-me o piano de Ludovico Einaudi.
Apesar de dura, confesso que foi das experiências mais emocionantes destes 100 km. Nem lua, nem estrelas para nos iluminar o caminho. A noite cerrada, o nevoeiro, o vento, a luz do frontal, eu e Einaudi. A cada vez que o Ludovico tocava uma tecla, eu espetava vigorosamente os bastões no solo. Foi um daqueles momentos a que podemos chamar de genial!
Depois de muito subir, chegamos finalmente ao ponto mais alto deste nosso Portugal a Sul do Tejo. No meu caso, 5h06m depois da partida. O frio e vento são terríficos e alguns atletas estão em dificuldade. Tento aquecer-me como posso e vou para junto de uma fogueirinha. Saí de lá a cheirar a borralho, mas quente.
Iniciamos depois um lindo trilho em “single track”, que se prolonga serra abaixo. Quando o termino, já tenho o aviso da manhã a querer nascer. Aquela luz que não se sabe muito bem se está o dia a começar ou a terminar. Aquele azulinho acizentado.
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São 7h22. Estou há mais de 7 horas a monte. Não dormi. Mordo um figo seco. Estou verdadeiramente a entrar em queda. Apercebendo-se disso, os companheiros de corrida, Joaquim e Luís, falam comigo, mas eu já nem respondo. Limito-me a esboçar sorrisos. Continuo a correr mas já não estou ali. Avisto a Barragem da Apartadura. Esforço-me para contemplar a sua beleza. “E se desse um mergulho?”, penso. Teria acordado, isso é certo. Só mais um pouco e chego ao PAC 4. “Café?”, pergunta um dos elementos da organização. “Triplo”, respondo. Não sei o que tinha aquele café. Não sei se era triplo. Mas aquele café ressuscitou-me. Voltou a Susana.
Chegar a Marvão
Depois da meia bifana no PAC 5 (Porto de Espada) começa mais uma subida. Lá em cima, olhamos para a direita e vemos Marvão ao fundo. Lindo Marvão. Rapidamente deixou de o ser! Tão perto, mas tão longe. Ziguezagueamos, subimos, descemos. Subimos de novo. Contornamos o monte que eleva Marvão e voltamos a descer. Para depois o subir. Senhores organizadores… Irei descobrir quem desenhou este troço do percurso, saber onde mora, descobrir a sua viatura, furar-lhe os 4 pneus e desenhar um “S” de “Susana” no “capot”. Talvez seja presa por isso, mas será um delito praticado com muita convicção!
Enfim, talvez lhes perdoe, porque depois do pesadelo da subida, entro finalmente em Marvão, recebo 100 sorrisos de vários membros da organização (curiosamente, quando os questiono, nenhum é responsável pelo desenho do percurso) e uma sopinha que me aconchegou o estômago que, há muito, reclamava por algo mais do que figos secos.
É também em Marvão que agarro pela primeira vez no telemóvel. A alegria era tanta que anunciei a chegada aos 60 na minha página pessoal do FB. Desconhecia o que me esperava, mas assegurei que chegaria ao fim. Achava eu que a subida a Marvão seria a maior provação do desafio! Nesta altura apercebo-me, também, do reboliço que vai no meu mural. Dezenas de amigos acompanhavam-me a par e passo e “gritavam” palavras de incentivo. Não esquecerei estes gestos. Poderia esquecer Marvão, mas isto não.
A caminho do km 70
Deixamos Marvão. Para além da sopinha, aproveitei também para mudar de vestido. Retirei o equipamento estilo “casual” e adotei o estilo “cerimónia”. 60 quilómetros já estão, mas se ainda tenho 40 pela frente, tenho mesmo que usar o equipamento da Frostie. Tenho que descobrir a Anna Frost que há em mim. Pode ser ilusão minha, é certo, mas aquele equipamento dá-me outro ânimo.
Passamos Portagem e, uma vez mais, perco-me em pensamentos com a Inês e Diogo. Há um ano atrás, um pouco menos, andavam ali a saltar para dentro da piscina fluvial. Mergulho, sai, mergulho, sai. Não sei se lá consigo voltar tão cedo. Marvão fica mesmo acima!
Deparo-me com a “minha” estrada. Adoro aquela estrada. Ladeada de árvores de ambos os lados, com os troncos pintados. Infelizmente, só gozo metade da sua extensão. Esta gente não quer nada com alcatrão e rapidamente nos põe a correr em cima de pedra. Toca a voltar para a esquerda! Esperam-nos mais umas subidinhas. E granizo, muito granizo.
No final de mais uma subida, olho para trás. Lá muito ao fundo, a serra com as antenas ao topo. Estive lá há algumas horas atrás. Em frente, Marvão, que acabei de subir 34 vezes. “O que me espera agora?!”, penso.
Chovem almôndegas em Portalegre
Não eram almôndegas, mas era granizo do tamanho de almôndegas. Batem-me nas pernas, agora descobertas com o equipamento Frostie. Reclamo com toda a energia que ainda me resta, mas São Pedro não me dá ouvidos. Felizmente estamos a poucos quilómetros do PAC seguinte – Carreiras. Ao chegarmos, abrigamo-nos debaixo da tenda. Vários atletas chegam, entretanto, e dizem que ficam por ali. “Como é a nossa vida?”, pergunto ao Joaquim e Luis. “Continuamos, claro, foi para isso que aqui viemos”, responde convictamente o Luís. Se estivesse só na prova, tenho a certeza que teria ficado por ali. Não teria tido forças para continuar.
E seguimos rumo a Castelo de Vide.
O sol espreita mas… granizo de novo!
Estou gelada mas, finalmente, a chuva parou e o sol espreita. Tento correr um pouco mais e consigo secar o equipamento. Continua o sobe e desce. E vem uma nuvem. Uma nuvem carregada de pedras. Desaba novamente uma chuva de granizo sobre nós e corro como se não houvesse amanhã. Corro e choro, confesso. Estava desesperada. Ainda faltava tanto! Não conseguiria suportar o resto se São Pedro continuasse a despejar almôndegas em cima de mim.
Pela primeira vez agasalho-me com a manta de sobrevivência. Seria a única forma de me aquecer. Bebo um chá a escaldar no PAC 8, Castelo de Vide. Está quase. Vamos lá para o quase que falta.
Lama não foi muita, até que...
Apesar da chuva intensa dos últimos dias, São Mamede não nos ofereceu muita lama. Depois de um longo estradão em terra batida, em que me debatia com as pernas porque se recusavam a correr num terreno perfeito para o fazer, surge um desvio para a esquerda. Avanço seguindo as marcações. O terreno parecia sequinho. Mas não estava. Enterro um sapato. Para o conseguir tirar, enterro o outro. Saí de lá (calçada, felizmente) com 2 kg de lama em cada pé. Precisaria de correr outros 100 km para soltar a lama que ficou agarrada aos ténis. A lavagem é também uma boa opção!
Ermida da Penha, 95 km
Já está quase, mas apetece-me ficar sentada por aqui. Quanta simpatia com que somos recebidos! Que animação! Sugeriram que bebesse uma cerveja. Eu até teria bebido e esquecido que odeio cevada fermentada, mas estou certa que cairia redonda no chão e teriam que me carregar até à meta. Confesso que naquele momento cheguei a pensar que era uma boa solução para o problema que ainda tinha pela frente… 5 kms. E o sol a pôr-se.
Deixei os elementos da organização com tristeza e… e desci como pude os 236 degraus que me apareceram pela frente. Engraçadinhos, muito engraçadinhos estes organizadores. Reitero a história do “S” no “capot” que escrevi acima. Mas a malandragem não terminava aí. O lema desta prova é seguramente ”descubra a forma mais longa e penosa para chegar do ponto A ao ponto B”. O estádio ali tão perto, mas… ziguezagueamos sem fim e perco o norte.
100 km, que são 102 ou 103 km
O meu Garmin perdeu o pio há muito. Não sei quantos quilómetros levo ao certo, mas já vejo os holofotes no estádio. Sim, o sol já se pôs. Teria gostado de chegar antes de desaparecer. Quem sabe da próxima vez!
Entramos no estádio – eu e o Luís, pois o Joaquim teve que terminar aos 90 km com fortes dores – e sorrio. Faço a festa e respiro profundamente. Terminou. Consegui.
O balanço
Estive 21h30 por entre vales e montes para completar os meus primeiros 100 km. Teria gostado de ter conseguido correr mais. Caminhei muito, muito mesmo. Subi, desci. Sorri, chorei. Acreditei, mas também pensei que não conseguiria. Quis deixar cair o corpo nos bancos dos PACs e deixar-me ficar por ali. Mas quis mais voltar a correr. Tive frio. Nunca tive calor. Tive sono. Senti genica. Quando anunciaram a vencedora feminina do UTSM – Júlia Conceição – eu estava algures entre o km 60 e o 70. Levaria ainda mais 8 horas para os terminar. Fico absolutamente maravilhada com estas atletas. Completar aqueles 100 km em 13h20 é para gente de outro planeta!
Day after
Deixámos Portalegre para trás. “Com tanta terra aqui a direito foram espetar connosco lá no meio da serra”, diz o Joaquim Adelino. Gargalhada geral.
Chego a casa com duas medalhas. Tive que fazer um choradinho junto da meta para trazer duas. Desta vez tinha que pôr uma ao pescoço da Inês e outra ao pescoço do Diogo. Não havia espaço para partilhas. À minha espera estão vários desenhos. Um deles, da autoria da Inês, mostra uma mamã corredora. “A minha mãe correu 100 km”, escreveu ela.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Diogovic
Correr faz-me muito bem. Mas "isto" faz-me muito melhor.
E, se não hesito em partilhar a alegria que me proporcionam as corridas, menos hesitarei no que toca a partilhar a felicidade de viver mais um aniversário do Diogo. O sexto.
Há dias era um bebé. Nasceu um verdadeiro "ratinho". Depressa ficou anafadinho e coberto de pregas. Tirei-lhe uma foto ao lado de uma abóbora em jeito de quizz "quem é quem". Até ele tem dificuldade em encontrar hoje a resposta para tão difícil questão.
Entretanto cresceu. As pernas gordinhas são agora pernas de menino e correm alegremente atrás de uma bola, que geralmente é amarela. No braço, que também cresceu, leva uma raquete. E adora aquilo.
Umas vezes mafarrico, outras doce como o mel. Tem um sentido de humor que me delicia e que considero pouco habitual para a sua idade, mas já se sabe... Sou a mãe e as mães vêem sempre coisas fantásticas nos seus filhos.
Para que não haja dúvidas...
Difícil não foi correr uma maratona. Difícil é saber como educar (bem) um filho e ajudá-lo a crescer da melhor forma. Nem sempre sabemos a melhor forma.
Não são os 40 km, os 50 km ou o que aí vem a correr que me tornam corajosa. Coragem é precisa sim para se decidir ser mãe. Para se saber estar à altura de todos os desafios que nos coloca o crescimento dos filhos.
E, tal como na corrida, por ser tão difícil, mais compensador é no final. E no início. E nos entretantos, claro.
Ontem fui dar um beijo de boas noites ao Diogo. Dormia com o seu primeiro animal de estimação. A caixa dos bichos da seda repousava ao lado da cabeceira da cama. Pode uma mãe desejar mais do que isto? Não.
Diogo, Côco e agora Diogovic, gosto de ti caramba, e "grito" para todo o mundo ouvir!
PS - Pediste e eu prometi. Tudo farei para trazer a medalha de cortiça de São Mamede.
E, se não hesito em partilhar a alegria que me proporcionam as corridas, menos hesitarei no que toca a partilhar a felicidade de viver mais um aniversário do Diogo. O sexto.
Há dias era um bebé. Nasceu um verdadeiro "ratinho". Depressa ficou anafadinho e coberto de pregas. Tirei-lhe uma foto ao lado de uma abóbora em jeito de quizz "quem é quem". Até ele tem dificuldade em encontrar hoje a resposta para tão difícil questão.
Entretanto cresceu. As pernas gordinhas são agora pernas de menino e correm alegremente atrás de uma bola, que geralmente é amarela. No braço, que também cresceu, leva uma raquete. E adora aquilo.
Umas vezes mafarrico, outras doce como o mel. Tem um sentido de humor que me delicia e que considero pouco habitual para a sua idade, mas já se sabe... Sou a mãe e as mães vêem sempre coisas fantásticas nos seus filhos.
Para que não haja dúvidas...
Difícil não foi correr uma maratona. Difícil é saber como educar (bem) um filho e ajudá-lo a crescer da melhor forma. Nem sempre sabemos a melhor forma.
Não são os 40 km, os 50 km ou o que aí vem a correr que me tornam corajosa. Coragem é precisa sim para se decidir ser mãe. Para se saber estar à altura de todos os desafios que nos coloca o crescimento dos filhos.
E, tal como na corrida, por ser tão difícil, mais compensador é no final. E no início. E nos entretantos, claro.
Ontem fui dar um beijo de boas noites ao Diogo. Dormia com o seu primeiro animal de estimação. A caixa dos bichos da seda repousava ao lado da cabeceira da cama. Pode uma mãe desejar mais do que isto? Não.
Diogo, Côco e agora Diogovic, gosto de ti caramba, e "grito" para todo o mundo ouvir!
PS - Pediste e eu prometi. Tudo farei para trazer a medalha de cortiça de São Mamede.
terça-feira, 30 de abril de 2013
Diz-me a primeira letra do teu nome, dir-te-ei como corres!
Depois do Horóscopo da Corrida (lembram-se?) e da astrologia aplicada à corrida, eis a ciência das letras!
Ninguém se entende quanto à origem do alfabeto. Há quem diga que quem primeiro simbolizou as ideias foram os egípcios, utilizando figuras de animais. Mais tarde, os mesmos reivindicaram a invenção do alfabeto que os fenícios já haviam introduzido na Grécia. Uma confusão, portanto. Mas deixemos os povos antigos nas suas zangas e concentremo-nos no essencial.
Todos aqueles que já tiveram a felicidade de ser mães ou pais terão seguramente perdido algumas horas a folhear livrinhos com o significado dos nomes ou das letras porque queriam o melhor para os seus bebés, certo? Ou, mesmo não sendo mães nem pais, quem não foi já vasculhar o significado do seu nome, ficando inchado de orgulho quando a descrição vem recheada de qualidades notáveis? Não é tontice, acreditem. Cada letra tem um som e cada som transmite uma energia que influencia a personalidade da pessoa.
A primeira letra do nome é conhecida como “pedra fundamental” ou “alicerce”. Se fôssemos um edifício, a nossa primeira letra seria o nosso primeiro tijolo. Os entendidos nesta matéria dizem que a pedra fundamental diz respeito às aptidões e às reações de cada um de nós perante diferentes experiências.
O princípio aqui adotado é o mesmo do Horóscopo da Corrida. Se a primeira letra tem um significado, então ele será extensível a tudo o que fazemos na nossa vida e dirá muito da forma como encaramos o solo sob os pés e sobre o nosso destino na corrida! Misturei os ingredientes no caldeirão, juntei uns pozinhos de pirlimpimpim e… Puff!
De A a Z, aqui vamos nós… a correr!
Corredores “A” de Ana, Anabela, Analice, Andreia, Alexandra, Albísio, António, Alberto, Álvaro e tantos outros!
Sempre prontos para a aventura, os corredores “A” têm muita energia e são dotados de uma personalidade ativa e decidida. Para estes papa-quilómetros, corrida sem desafios não tem qualquer graça. São líderes por natureza, pelo que atraem outros corredores (e não-corredores) com o seu entusiasmo, seduzindo-os com ânimo. Os “A” são também teimosos e birrentos, pelo que insistirão em correr à sua maneira.
Corredores “B” de Bárbara, Beatriz, Bruno, Bernardo e tantos outros!
Com a determinação que lhes é característica, os “B” chegam sempre lá, onde quer que o “lá” seja. Tanto podem ser os primeiros 5 km, como o ponto mais alto do Mont Blanc. Gostam de partilhar as suas experiências com os outros, especialmente com aqueles de quem gostam, pelo que raramente correrão sozinhos. São estudiosos por natureza. Devoram artigos sobre a técnica de corrida, a nutrição adequada, o equipamento recomendado e tudo o que esteja relacionado com a prática e melhoria de performance.
Corredores “C” de Carla, Célia, Catarina, Cristina, Carlos e tantos outros!
A expressividade e amabilidade característica dos corredores “C” transborda da vida para a corrida. Por serem curiosos, adoram meter o nariz em novos desafios. Gostam de partilhar os seus objetivos com os outros e a corrida não é exceção. Sempre de bom astral, são os corredores para quem correr é uma festa. Cada chegada à meta é celebrada com um sorriso do tamanho dos quilómetros palmilhados!
Corredores “D” de Daniela, Doroteia, Dulce, Dinis, Diogo, Daniel e tantos outros!
Muito atenciosos, os corredores “D” possuem um sentido maternal/paternal muito forte, gostando de se sentir úteis e necessários. Por esse motivo, serão ótimos parceiros de corrida e adorarão assumir a figura de lebre. Mas atenção. Correm o risco de viver e correr muito em função dos que os outros querem, pelo que deverão encontrar um ponto de equilíbrio. Muito ocupados, aproveitam todos os minutinhos livres para correr.
Corredores “E” de Eugénia, Elisa, Esmeralda, Edgar, Ernesto e tantos outros!
Com muita inteligência e poder de comunicação, os corredores “E” não dispensam uma boa conversa durante a corrida. São muito ponderados em tudo o que fazem e a corrida não é exceção. Devagar se vai ao longe é o seu lema de eleição. Dificilmente os veremos abraçar aventuras loucas sem antes terem testado o seu corpo em distâncias ou velocidades mais ligeiras. Têm ótimo perfil para professores, pelo que escutar o que o corredor “E” tem para dizer sobre a corrida é sempre uma boa opção!
Corredores “F” de Fátima, Fernanda, Filipa, Francisco, Franco, Fernando, Filipe e tantos outros!
Românticos e com muito amor para dar, os corredores “F” são pessoas divertidas que espalham simpatia em cada quilómetro que correm. Gostam de se sentir apoiados nas suas decisões – seja a primeira corrida fora de estrada ou a distância mais longa – procurando sempre o melhor para as suas vidas. Por vezes são um pouquinho egocêntricos, pelo que se aconselha a que atentem um pouco mais aos outros e os apoiem na corrida da mesma forma que o esperam para si próprios.
Corredores “G” de Gilda, Gabriela, Gonçalo, Gabriel, Guilherme e tantos outros!
Muito sérios e com grande honestidade, os corredores “G” buscam a perfeição em tudo o que fazem, corrida incluída. Aborrecem-se quando as coisas não saem conforme planeado, pelo que lidam muito mal com lesões ou quaisquer maleitas que os impeçam de correr. Os corredores “G” refletem muito antes de agir, mas quando tomam uma decisão, mergulham de cabeça no que se propõem fazer (ou melhor, correr) e esquecem tudo o resto. Gostam de assuntos ligados à saúde, pelo que estudam a fundo todos os aspetos que possam melhorar a sua performance na corrida.
Corredores “H” de Helena, Henriqueta, Heitor, Hugo, Hélio e tantos outros!
A personalidade dos corredores “H” sobressai perante grandes desafios. São otimistas por natureza e serão os mais entusiastas a apoiar grandes aventuras que outros corredores se proponham abraçar. Dificilmente passam os dias preocupados com problemas, pois são do tipo que encontra soluções para os mesmos em segundos. A corrida não é exceção, pelo que não há nada que os assuste ou demova de prosseguir em busca das suas conquistas e do desejo de palmilhar quilómetros.
Corredores “I” de Inês, Isilda, Iosif e tantos outros!
Fiel e carinhoso, o corredor “I” é também um pinga-amor. Muito protetor e prático, está sempre
pronto a ajudar um parceiro de corrida. E que bons parceiros são! Tem também uma forte tendência para se irritar quando não aceitam a sua ajuda ou recomendações. Um conselho para os corredores “I”: não deixem de ser protetores, mas não se esqueçam de deixar margem para que os outros corredores batam com a cabeça na parede (sentido figurativo, claro!) e aprendam com os seus erros!
Corredores “J” de Joana, Jéssica, João, José, Joaquim e tantos outros!
Os corredores “J” são pessoas apaixonadas pela vida. Não procuram ser melhor nem pior que ninguém – correr basta. Detestam ficar parados, possuindo grande agilidade. De mente muito aberta, não deixam passar uma oportunidade para viajar, levando a corrida sempre atrás. Não têm muita diplomacia na hora de dizer certas verdades, julgar ou criticar, pelo que estejam preparados para os ouvir porque têm sempre algo construtivo a dizer-vos sobre a forma como correm ou encaram a corrida.
Corredores “L” de Lígia, Luísa, Lara, Luís e tantos outros!
Os corredores “L” são os corredores de “cada coisa a seu tempo”. Se estão a correr, estão a correr e não vale a pena incomodá-los com o que quer que seja. Gostam de apreciar profundamente cada momento e cada quilómetro palmilhado. Ficam algo nervosos quando têm que tomar uma decisão, mas depois de definido o objetivo, nada os demove e viram uns verdadeiros teimosos. Se o corredor “L” decidir correr a maratona daqui a 3 semanas, é garantido que a fará!
Corredores “M” de Marta, Mariana, Mónica, Margarida, Miguel, Mário, Manuel e tantos outros!
Os “M” têm energia para dar e vender, procurando manter-se sempre ocupados com alguma coisa. A corrida é por isso um escape maravilhoso para estes corredores. São muito emotivos, pelo que viverão com muita intensidade todas as vitórias na corrida, mas também tenderão a deixar-se ir abaixo quando algo correr menos bem. Muito dinâmicos, serão ótimos anfitriões e adorarão promover encontros de pessoas que partilham o gosto pela corrida.
Corredores “N” de Natália, Nélia, Nelson, Nuno e tantos outros!
Os corredores “N” são incansáveis, dinâmicos, inteligentes e criativos, possuindo muita disciplina
e estando sempre dispostos a colaborar sem outra intenção que não seja a de ajudar os outros. Não gostam de ser interrompidos em qualquer tarefa e a corrida não é exceção. Quando estão a correr o melhor será não os interromper. Tendem a ser muito críticos consigo próprios e com os outros. Relaxem. Corram e usufruam do momento!
Corredores “O” de Otília, Otávia, Óscar e tantos outros!
Os “O” sentem-se em pleno reinado numa de duas situações: ou quando rodeados pela família ou quando estão a correr. Gostam de puxar para si responsabilidades e resolver todos os problemas, pelo que assumirão sem medo a organização de uma prova ou treino. Cada quilómetro palmilhado é sempre vivido com grande emoção, gostando de partilhar a alegria na corrida junto dos que mais gostam.
Corredores “P” de Patrícia, Paula, Pedro, Paulo e tantos outros!
“P” de paz é a melhor palavra que define as pessoas “P”. Para eles não é possível viver em ambientes hostis, carregados de encontrões e gritarias. Tenderão por isso a fugir da correria das cidades e procurar o sossego em ambientes mais serranos, não dispensando os seus ténis de corrida. Os corredores “P” raramente correrão sós já que adoram sentir-se acompanhados. Quando definirem algum objetivo importante na corrida não tentem demovê-los ou criticá-los. Levarão “tudo à frente”!
Corredores “Q”, de Quitéria, Querubim, ui… Não está fácil!
Os “Q” são acima de tudo do tipo ”bom-coração”, dispostos a ajudar quem necessite de cuidados, pelo que serão ótimos companheiros de corrida. Quando desejam algo correm atrás do que querem e a estrada não é exceção. Os corredores ”Q” movem-se pela intuição, correndo de forma destemida por caminhos desconhecidos. Têm dificuldade em manter os pés no chão e de fazer uma coisa de cada vez, sendo provável vê-los a correr no sábado à tarde na montanha e na manhã seguinte encontrá-los a palmilhar dez rápidos quilómetros numa prova de estrada.
Corredores “R” de Raquel, Rita, Rosa, Ricardo, Rui, Raúl, e tantos outros!
Sempre prontos a ajudar e aconselhar, os corredores “R” são ótimos a resolver os problemas dos outros, agindo com muito profissionalismo e sabedoria. Se correrem com um “R” estarão seguramente bem entregues. Porém, os “R” ficam desnorteados quando o problema lhes diz respeito ou quando o imprevisto surge nas suas corridas. A razão e a emoção fundem-se, dificultando a tomada de uma decisão. Tentem controlar a ansiedade nestas horas e não tenham medo de continuar, estrada fora. Se correr mal, funcionará como uma aprendizagem!
Corredores “S” de Sara, Salete, Sofia, Sílvia, Susana, Sandra, Sérgio, Serafim e tantos outros!
Os “S” sabem perfeitamente o que querem da vida e a forma como lá chegar. Têm grande habilidade para envolver as pessoas que podem ajudá-los a realizar os seus sonhos e objetivos e a corrida não foge à regra. Por vezes armam um “teatrinho” para conseguirem o que querem, correndo o risco de se tornarem dominadores. Quando um corredor “S” se atravessar no vosso caminho, ponham-no na linha. A letra é demasiado sinuosa!
Ui… eu sou isto tudo?!
Corredores “T” de Tatiana, Tânia, Tiago e tantos outros!
Com muito amor para dar, os “T” poderão passar a vida a fazer o bem pelos outros, esquecendo-se um pouco de si próprios. Adoram correr, melhorar a sua performance e chegar à meta, mas não hesitarão parar se virem um outro corredor em apuros. Têm uma certa aura de “santidade”, pelo que nem se atrevam a meter com os “S”, que se aproveitarão de toda essa vossa generosidade!
Corredores “U” de Úrsula e… Não conheço mais nenhum nome!
Os “U” são pessoas muito respeitadas, amigáveis, generosas e fáceis de lidar. São ótimos parceiros de corrida, usando exemplarmente a sua diplomacia quando perante algum conflito – seja um tropeção ou cotovelada despropositada numa corrida.
Corredores “V” de Verónica, Vanda, Vânia, Vera, Vasco, Vítor e tantos outros!
Os “V” possuem uma lucidez incomum. Cada vez que dizem algo, dizem algo certo. Mas, se são ótimos a julgar, tendem, por outro lado, a viver com os pés fora do chão e, no que à corrida diz respeito, conviria assentá-los! Dão muita importância à sua liberdade e a corrida é o caminho ideal para lá chegar. Quando correm desligam a sua atenção com uma rapidez incrível. São um pouco teimosos, pelo que na corrida, tal como na vida, tenderão a fazer as coisas à sua maneira.
Corredores “X” de Xavier e… Conhecem mais algum?!
Cheios de talento, os “X” têm muita energia e são capazes de levar o entusiasmo pela corrida ao extremo, deixando os parceiros de corrida com dificuldade em acompanhar o seu ritmo. Gostam de se envolver em muitas aventuras em simultâneo, mesmo que não terminem nenhuma, conseguindo arrastar os outros corredores a embarcar, tal é a agitação inicial. Um conselho: concentrem-se, não se dispersem e aprendam a escolher uma coisa de cada vez.
Corredores “Z” de Zélia, Zaida, Zacarias, Zulmira e outras esquisitices por aí!
A letra do destino, que confere uma personalidade mutável a quem a tem como primeira letra no seu nome. Por esse motivo são geralmente incompreendidos pela maior parte das pessoas, sendo frequente vê-los a disfrutar dos quilómetros sob os pés consigo próprios. Nada que os assuste, pois são dotados de grande vitalidade. Um conselho para os corredores “Z”: sejam mais positivos, acreditem e tudo correrá melhor. Corridas e não só!
Ninguém se entende quanto à origem do alfabeto. Há quem diga que quem primeiro simbolizou as ideias foram os egípcios, utilizando figuras de animais. Mais tarde, os mesmos reivindicaram a invenção do alfabeto que os fenícios já haviam introduzido na Grécia. Uma confusão, portanto. Mas deixemos os povos antigos nas suas zangas e concentremo-nos no essencial.
Todos aqueles que já tiveram a felicidade de ser mães ou pais terão seguramente perdido algumas horas a folhear livrinhos com o significado dos nomes ou das letras porque queriam o melhor para os seus bebés, certo? Ou, mesmo não sendo mães nem pais, quem não foi já vasculhar o significado do seu nome, ficando inchado de orgulho quando a descrição vem recheada de qualidades notáveis? Não é tontice, acreditem. Cada letra tem um som e cada som transmite uma energia que influencia a personalidade da pessoa.
A primeira letra do nome é conhecida como “pedra fundamental” ou “alicerce”. Se fôssemos um edifício, a nossa primeira letra seria o nosso primeiro tijolo. Os entendidos nesta matéria dizem que a pedra fundamental diz respeito às aptidões e às reações de cada um de nós perante diferentes experiências.
O princípio aqui adotado é o mesmo do Horóscopo da Corrida. Se a primeira letra tem um significado, então ele será extensível a tudo o que fazemos na nossa vida e dirá muito da forma como encaramos o solo sob os pés e sobre o nosso destino na corrida! Misturei os ingredientes no caldeirão, juntei uns pozinhos de pirlimpimpim e… Puff!
De A a Z, aqui vamos nós… a correr!
Corredores “A” de Ana, Anabela, Analice, Andreia, Alexandra, Albísio, António, Alberto, Álvaro e tantos outros!
Sempre prontos para a aventura, os corredores “A” têm muita energia e são dotados de uma personalidade ativa e decidida. Para estes papa-quilómetros, corrida sem desafios não tem qualquer graça. São líderes por natureza, pelo que atraem outros corredores (e não-corredores) com o seu entusiasmo, seduzindo-os com ânimo. Os “A” são também teimosos e birrentos, pelo que insistirão em correr à sua maneira.
Corredores “B” de Bárbara, Beatriz, Bruno, Bernardo e tantos outros!
Com a determinação que lhes é característica, os “B” chegam sempre lá, onde quer que o “lá” seja. Tanto podem ser os primeiros 5 km, como o ponto mais alto do Mont Blanc. Gostam de partilhar as suas experiências com os outros, especialmente com aqueles de quem gostam, pelo que raramente correrão sozinhos. São estudiosos por natureza. Devoram artigos sobre a técnica de corrida, a nutrição adequada, o equipamento recomendado e tudo o que esteja relacionado com a prática e melhoria de performance.
Corredores “C” de Carla, Célia, Catarina, Cristina, Carlos e tantos outros!
A expressividade e amabilidade característica dos corredores “C” transborda da vida para a corrida. Por serem curiosos, adoram meter o nariz em novos desafios. Gostam de partilhar os seus objetivos com os outros e a corrida não é exceção. Sempre de bom astral, são os corredores para quem correr é uma festa. Cada chegada à meta é celebrada com um sorriso do tamanho dos quilómetros palmilhados!
Corredores “D” de Daniela, Doroteia, Dulce, Dinis, Diogo, Daniel e tantos outros!
Muito atenciosos, os corredores “D” possuem um sentido maternal/paternal muito forte, gostando de se sentir úteis e necessários. Por esse motivo, serão ótimos parceiros de corrida e adorarão assumir a figura de lebre. Mas atenção. Correm o risco de viver e correr muito em função dos que os outros querem, pelo que deverão encontrar um ponto de equilíbrio. Muito ocupados, aproveitam todos os minutinhos livres para correr.
Corredores “E” de Eugénia, Elisa, Esmeralda, Edgar, Ernesto e tantos outros!
Com muita inteligência e poder de comunicação, os corredores “E” não dispensam uma boa conversa durante a corrida. São muito ponderados em tudo o que fazem e a corrida não é exceção. Devagar se vai ao longe é o seu lema de eleição. Dificilmente os veremos abraçar aventuras loucas sem antes terem testado o seu corpo em distâncias ou velocidades mais ligeiras. Têm ótimo perfil para professores, pelo que escutar o que o corredor “E” tem para dizer sobre a corrida é sempre uma boa opção!
Corredores “F” de Fátima, Fernanda, Filipa, Francisco, Franco, Fernando, Filipe e tantos outros!
Românticos e com muito amor para dar, os corredores “F” são pessoas divertidas que espalham simpatia em cada quilómetro que correm. Gostam de se sentir apoiados nas suas decisões – seja a primeira corrida fora de estrada ou a distância mais longa – procurando sempre o melhor para as suas vidas. Por vezes são um pouquinho egocêntricos, pelo que se aconselha a que atentem um pouco mais aos outros e os apoiem na corrida da mesma forma que o esperam para si próprios.
Corredores “G” de Gilda, Gabriela, Gonçalo, Gabriel, Guilherme e tantos outros!
Muito sérios e com grande honestidade, os corredores “G” buscam a perfeição em tudo o que fazem, corrida incluída. Aborrecem-se quando as coisas não saem conforme planeado, pelo que lidam muito mal com lesões ou quaisquer maleitas que os impeçam de correr. Os corredores “G” refletem muito antes de agir, mas quando tomam uma decisão, mergulham de cabeça no que se propõem fazer (ou melhor, correr) e esquecem tudo o resto. Gostam de assuntos ligados à saúde, pelo que estudam a fundo todos os aspetos que possam melhorar a sua performance na corrida.
Corredores “H” de Helena, Henriqueta, Heitor, Hugo, Hélio e tantos outros!
A personalidade dos corredores “H” sobressai perante grandes desafios. São otimistas por natureza e serão os mais entusiastas a apoiar grandes aventuras que outros corredores se proponham abraçar. Dificilmente passam os dias preocupados com problemas, pois são do tipo que encontra soluções para os mesmos em segundos. A corrida não é exceção, pelo que não há nada que os assuste ou demova de prosseguir em busca das suas conquistas e do desejo de palmilhar quilómetros.
Corredores “I” de Inês, Isilda, Iosif e tantos outros!
Fiel e carinhoso, o corredor “I” é também um pinga-amor. Muito protetor e prático, está sempre
pronto a ajudar um parceiro de corrida. E que bons parceiros são! Tem também uma forte tendência para se irritar quando não aceitam a sua ajuda ou recomendações. Um conselho para os corredores “I”: não deixem de ser protetores, mas não se esqueçam de deixar margem para que os outros corredores batam com a cabeça na parede (sentido figurativo, claro!) e aprendam com os seus erros!
Corredores “J” de Joana, Jéssica, João, José, Joaquim e tantos outros!
Os corredores “J” são pessoas apaixonadas pela vida. Não procuram ser melhor nem pior que ninguém – correr basta. Detestam ficar parados, possuindo grande agilidade. De mente muito aberta, não deixam passar uma oportunidade para viajar, levando a corrida sempre atrás. Não têm muita diplomacia na hora de dizer certas verdades, julgar ou criticar, pelo que estejam preparados para os ouvir porque têm sempre algo construtivo a dizer-vos sobre a forma como correm ou encaram a corrida.
Corredores “L” de Lígia, Luísa, Lara, Luís e tantos outros!
Os corredores “L” são os corredores de “cada coisa a seu tempo”. Se estão a correr, estão a correr e não vale a pena incomodá-los com o que quer que seja. Gostam de apreciar profundamente cada momento e cada quilómetro palmilhado. Ficam algo nervosos quando têm que tomar uma decisão, mas depois de definido o objetivo, nada os demove e viram uns verdadeiros teimosos. Se o corredor “L” decidir correr a maratona daqui a 3 semanas, é garantido que a fará!
Corredores “M” de Marta, Mariana, Mónica, Margarida, Miguel, Mário, Manuel e tantos outros!
Os “M” têm energia para dar e vender, procurando manter-se sempre ocupados com alguma coisa. A corrida é por isso um escape maravilhoso para estes corredores. São muito emotivos, pelo que viverão com muita intensidade todas as vitórias na corrida, mas também tenderão a deixar-se ir abaixo quando algo correr menos bem. Muito dinâmicos, serão ótimos anfitriões e adorarão promover encontros de pessoas que partilham o gosto pela corrida.
Corredores “N” de Natália, Nélia, Nelson, Nuno e tantos outros!
Os corredores “N” são incansáveis, dinâmicos, inteligentes e criativos, possuindo muita disciplina
e estando sempre dispostos a colaborar sem outra intenção que não seja a de ajudar os outros. Não gostam de ser interrompidos em qualquer tarefa e a corrida não é exceção. Quando estão a correr o melhor será não os interromper. Tendem a ser muito críticos consigo próprios e com os outros. Relaxem. Corram e usufruam do momento!
Corredores “O” de Otília, Otávia, Óscar e tantos outros!
Os “O” sentem-se em pleno reinado numa de duas situações: ou quando rodeados pela família ou quando estão a correr. Gostam de puxar para si responsabilidades e resolver todos os problemas, pelo que assumirão sem medo a organização de uma prova ou treino. Cada quilómetro palmilhado é sempre vivido com grande emoção, gostando de partilhar a alegria na corrida junto dos que mais gostam.
Corredores “P” de Patrícia, Paula, Pedro, Paulo e tantos outros!
“P” de paz é a melhor palavra que define as pessoas “P”. Para eles não é possível viver em ambientes hostis, carregados de encontrões e gritarias. Tenderão por isso a fugir da correria das cidades e procurar o sossego em ambientes mais serranos, não dispensando os seus ténis de corrida. Os corredores “P” raramente correrão sós já que adoram sentir-se acompanhados. Quando definirem algum objetivo importante na corrida não tentem demovê-los ou criticá-los. Levarão “tudo à frente”!
Corredores “Q”, de Quitéria, Querubim, ui… Não está fácil!
Os “Q” são acima de tudo do tipo ”bom-coração”, dispostos a ajudar quem necessite de cuidados, pelo que serão ótimos companheiros de corrida. Quando desejam algo correm atrás do que querem e a estrada não é exceção. Os corredores ”Q” movem-se pela intuição, correndo de forma destemida por caminhos desconhecidos. Têm dificuldade em manter os pés no chão e de fazer uma coisa de cada vez, sendo provável vê-los a correr no sábado à tarde na montanha e na manhã seguinte encontrá-los a palmilhar dez rápidos quilómetros numa prova de estrada.
Corredores “R” de Raquel, Rita, Rosa, Ricardo, Rui, Raúl, e tantos outros!
Sempre prontos a ajudar e aconselhar, os corredores “R” são ótimos a resolver os problemas dos outros, agindo com muito profissionalismo e sabedoria. Se correrem com um “R” estarão seguramente bem entregues. Porém, os “R” ficam desnorteados quando o problema lhes diz respeito ou quando o imprevisto surge nas suas corridas. A razão e a emoção fundem-se, dificultando a tomada de uma decisão. Tentem controlar a ansiedade nestas horas e não tenham medo de continuar, estrada fora. Se correr mal, funcionará como uma aprendizagem!
Corredores “S” de Sara, Salete, Sofia, Sílvia, Susana, Sandra, Sérgio, Serafim e tantos outros!
Os “S” sabem perfeitamente o que querem da vida e a forma como lá chegar. Têm grande habilidade para envolver as pessoas que podem ajudá-los a realizar os seus sonhos e objetivos e a corrida não foge à regra. Por vezes armam um “teatrinho” para conseguirem o que querem, correndo o risco de se tornarem dominadores. Quando um corredor “S” se atravessar no vosso caminho, ponham-no na linha. A letra é demasiado sinuosa!
Ui… eu sou isto tudo?!
Corredores “T” de Tatiana, Tânia, Tiago e tantos outros!
Com muito amor para dar, os “T” poderão passar a vida a fazer o bem pelos outros, esquecendo-se um pouco de si próprios. Adoram correr, melhorar a sua performance e chegar à meta, mas não hesitarão parar se virem um outro corredor em apuros. Têm uma certa aura de “santidade”, pelo que nem se atrevam a meter com os “S”, que se aproveitarão de toda essa vossa generosidade!
Corredores “U” de Úrsula e… Não conheço mais nenhum nome!
Os “U” são pessoas muito respeitadas, amigáveis, generosas e fáceis de lidar. São ótimos parceiros de corrida, usando exemplarmente a sua diplomacia quando perante algum conflito – seja um tropeção ou cotovelada despropositada numa corrida.
Corredores “V” de Verónica, Vanda, Vânia, Vera, Vasco, Vítor e tantos outros!
Os “V” possuem uma lucidez incomum. Cada vez que dizem algo, dizem algo certo. Mas, se são ótimos a julgar, tendem, por outro lado, a viver com os pés fora do chão e, no que à corrida diz respeito, conviria assentá-los! Dão muita importância à sua liberdade e a corrida é o caminho ideal para lá chegar. Quando correm desligam a sua atenção com uma rapidez incrível. São um pouco teimosos, pelo que na corrida, tal como na vida, tenderão a fazer as coisas à sua maneira.
Corredores “X” de Xavier e… Conhecem mais algum?!
Cheios de talento, os “X” têm muita energia e são capazes de levar o entusiasmo pela corrida ao extremo, deixando os parceiros de corrida com dificuldade em acompanhar o seu ritmo. Gostam de se envolver em muitas aventuras em simultâneo, mesmo que não terminem nenhuma, conseguindo arrastar os outros corredores a embarcar, tal é a agitação inicial. Um conselho: concentrem-se, não se dispersem e aprendam a escolher uma coisa de cada vez.
Corredores “Z” de Zélia, Zaida, Zacarias, Zulmira e outras esquisitices por aí!
A letra do destino, que confere uma personalidade mutável a quem a tem como primeira letra no seu nome. Por esse motivo são geralmente incompreendidos pela maior parte das pessoas, sendo frequente vê-los a disfrutar dos quilómetros sob os pés consigo próprios. Nada que os assuste, pois são dotados de grande vitalidade. Um conselho para os corredores “Z”: sejam mais positivos, acreditem e tudo correrá melhor. Corridas e não só!
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Na corrida não há distâncias
Paradoxo? Talvez. Na semana passada alguém me disse que no trail running não havia distâncias. O contexto era claro. Esse “alguém” sugeriu-me que abandonasse o tratamento na terceira pessoa. Nada que me cause urticária. Nesta comunidade que é a dos corredores, sou a primeira a dizer “posso tratar-te por tu, certo?”. Mas, neste caso específico, a iniciativa do tratamento na terceira pessoa havia sido minha, já que se tratava de alguém muito respeitável que faz provas de 50 km com 3.000 metros de desnível acumulado em 5h35. Tinha mesmo que fazer uma abordagem com muito respeitinho.
Adiante. Agarrei nestas palavras e converti-as no título deste texto. E já irão perceber porquê.
O meu último texto publicado neste blogue relatava a magnífica experiência dos meus primeiros 50 km em Sesimbra e foi redigido e publicado a 15 de abril pela manhã. Muito longe de imaginar o que viria a acontecer umas horas mais tarde em Boston.
No dia seguinte uma citação que poderia ser interpretada de mil e uma variadas formas remeteu-me para a imprevisibilidade dos acontecimentos do dia anterior: “life is too short and unpredictable not to live it exactly as you please”. Decidi várias dezenas de coisas depois de a ler. Mais tarde cruzei-me com um texto da autoria de alguém que se auto-intitula “Dimity”, que traduzia tudo aquilo que sentia e estava incapaz de concretizar em palavras.
Não sendo adepta de calcar e recalcar tragédias humanas, tinha mesmo que escrever duas palavrinhas sobre o assunto.
Assumindo que quem me lê são pessoas mais ou menos apaixonadas pela corrida e que conhecem as maravilhosas sensações ao cruzar-se uma meta – seja de 5 km, 10 km ou 42 km – escuso de me perder em palavras para descrever o que senti, já que presumo que tenham sentido exatamente o mesmo. Adicionalmente, mesmo recorrendo a uma extensa lista de cerca de 435.00 verbetes (verbetes são as palavras que possuem significado no dicionário da língua portuguesa), dificilmente se exprime o turbilhão imenso que corre por dentro quando confrontados com este tipo de notícias.
Tal como escrevia a “Dimity”, autora do belíssimo texto “Boston Marathon: Undone”, somos bombardeados diariamente com notícias tristes, trágicas, devastadoras. Todas elas nos tocam de alguma forma. Mas esta… esta, nós, os corredores, estando ou não em Boston, sentimo-nos lá dentro. Naquele cenário. Ou porque já terminámos uma maratona e conhecemos o ambiente de festa que se vive. Ou porque já tivemos a nossa família a aplaudir-nos nos últimos metros. Ou porque corremos maratonas em 4h00. Ou porque… porque simplesmente já nos aconteceu tudo isto em simultâneo, como é o meu caso.
Questionamo-nos sobre como é possível atacar uma comunidade tão pacífica quanto esta. Uma comunidade onde de facto não há distâncias. Não há raças, não há credos, não há tratamentos na terceira pessoa. Não há idades, senão nos escalões previstos nos regulamentos. Não há distinção entre homens ou mulheres, senão nas tabelas classificativas. Há corredores. Que correm. Que adoram correr. Que se deslocam sós ou em grupo, com um sorriso nos lábios ou com a expressão de sofrimento, com a certeza de que, no final, o sentimento de satisfação e “dever” cumprido compensará todas as cãibras, tendinites e outras dores em geral. Mesmo aquelas que não têm registo de existência nos manuais médicos.
Voltando a Boston. Não adianta tentar encontrar respostas para um ato desta natureza. Não pode haver um racional por detrás de uma atrocidade destas. São monstros, não é gente. Para os que ficaram e perderam os seus familiares ou amigos queridos, inicia agora o processo de cura. Não sei como nos curamos de algo assim, mas desisti de tentar “walk on their shoes”. Duvido que conseguisse lidar com tanto sofrimento assim. Os que ficaram e foram física e psicologicamente afetados terão que provar que tudo é possível. Terão que o fazer para continuar a viver.
Entretanto ontem em Londres já decorreu a mítica prova 42 K daquela cidade. E, com as devidas homenagens, foi uma festa da corrida, dos corredores e de todos os que os apoiam. Outros corredores por esse Portugal e mundo fora dedicaram os quilómetros palmilhados a quem perdeu a vida a 15 de abril. A página oficial da Maratona de Boston já anuncia, e bem, a realização da prova em 2014 e nós… nós continuaremos a correr. Porque somos corredores.
Termino como comecei. Com palavras que não são minhas, mas nas quais acredito tanto quanto todos os metros que já corri: “if you’re losing faith in human nature go out and watch a marathon“. Quem o disse foi Kathrine Switzer. Dispensa apresentações.
Adiante. Agarrei nestas palavras e converti-as no título deste texto. E já irão perceber porquê.
O meu último texto publicado neste blogue relatava a magnífica experiência dos meus primeiros 50 km em Sesimbra e foi redigido e publicado a 15 de abril pela manhã. Muito longe de imaginar o que viria a acontecer umas horas mais tarde em Boston.
No dia seguinte uma citação que poderia ser interpretada de mil e uma variadas formas remeteu-me para a imprevisibilidade dos acontecimentos do dia anterior: “life is too short and unpredictable not to live it exactly as you please”. Decidi várias dezenas de coisas depois de a ler. Mais tarde cruzei-me com um texto da autoria de alguém que se auto-intitula “Dimity”, que traduzia tudo aquilo que sentia e estava incapaz de concretizar em palavras.
Não sendo adepta de calcar e recalcar tragédias humanas, tinha mesmo que escrever duas palavrinhas sobre o assunto.
Assumindo que quem me lê são pessoas mais ou menos apaixonadas pela corrida e que conhecem as maravilhosas sensações ao cruzar-se uma meta – seja de 5 km, 10 km ou 42 km – escuso de me perder em palavras para descrever o que senti, já que presumo que tenham sentido exatamente o mesmo. Adicionalmente, mesmo recorrendo a uma extensa lista de cerca de 435.00 verbetes (verbetes são as palavras que possuem significado no dicionário da língua portuguesa), dificilmente se exprime o turbilhão imenso que corre por dentro quando confrontados com este tipo de notícias.
Tal como escrevia a “Dimity”, autora do belíssimo texto “Boston Marathon: Undone”, somos bombardeados diariamente com notícias tristes, trágicas, devastadoras. Todas elas nos tocam de alguma forma. Mas esta… esta, nós, os corredores, estando ou não em Boston, sentimo-nos lá dentro. Naquele cenário. Ou porque já terminámos uma maratona e conhecemos o ambiente de festa que se vive. Ou porque já tivemos a nossa família a aplaudir-nos nos últimos metros. Ou porque corremos maratonas em 4h00. Ou porque… porque simplesmente já nos aconteceu tudo isto em simultâneo, como é o meu caso.
Questionamo-nos sobre como é possível atacar uma comunidade tão pacífica quanto esta. Uma comunidade onde de facto não há distâncias. Não há raças, não há credos, não há tratamentos na terceira pessoa. Não há idades, senão nos escalões previstos nos regulamentos. Não há distinção entre homens ou mulheres, senão nas tabelas classificativas. Há corredores. Que correm. Que adoram correr. Que se deslocam sós ou em grupo, com um sorriso nos lábios ou com a expressão de sofrimento, com a certeza de que, no final, o sentimento de satisfação e “dever” cumprido compensará todas as cãibras, tendinites e outras dores em geral. Mesmo aquelas que não têm registo de existência nos manuais médicos.
Voltando a Boston. Não adianta tentar encontrar respostas para um ato desta natureza. Não pode haver um racional por detrás de uma atrocidade destas. São monstros, não é gente. Para os que ficaram e perderam os seus familiares ou amigos queridos, inicia agora o processo de cura. Não sei como nos curamos de algo assim, mas desisti de tentar “walk on their shoes”. Duvido que conseguisse lidar com tanto sofrimento assim. Os que ficaram e foram física e psicologicamente afetados terão que provar que tudo é possível. Terão que o fazer para continuar a viver.
Entretanto ontem em Londres já decorreu a mítica prova 42 K daquela cidade. E, com as devidas homenagens, foi uma festa da corrida, dos corredores e de todos os que os apoiam. Outros corredores por esse Portugal e mundo fora dedicaram os quilómetros palmilhados a quem perdeu a vida a 15 de abril. A página oficial da Maratona de Boston já anuncia, e bem, a realização da prova em 2014 e nós… nós continuaremos a correr. Porque somos corredores.
Termino como comecei. Com palavras que não são minhas, mas nas quais acredito tanto quanto todos os metros que já corri: “if you’re losing faith in human nature go out and watch a marathon“. Quem o disse foi Kathrine Switzer. Dispensa apresentações.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Trilhos em Sesimbra cheiram a maresia e alfazema
Ontem a Susana obteve o melhor tempo no III Ultra Trail de Sesimbra! Afinal, afinal… afinal não era eu.
Começo este texto por felicitar a Susana Simões, a primeira senhora a passar a meta do Ultra Trail de Sesimbra, em 5h36m! 50 km de verdadeira montanha russa neste tempo recorde não é para todos. E houve mais gente do tipo “supersónico” - dezenas de atletas masculinos e femininos cujos tempos afixados na lista de classificações me deixaram de queixo caído. Mas deixemos as vedetas ultra-planetárias do trail running e regressemos ao mundo dos modestos terráqueos como eu.
Um ano depois tinha que lá voltar
Foi há precisamente um ano que fiz a minha primeira prova fora de estrada, em Sesimbra. Na altura, aventurei-me na distância mais curta, que totalizava 23 km. Esta experiência foi de tal forma inspiradora que foi aqui que decidi que correria a minha primeira maratona. E assim aconteceu. Em outubro lá rumei eu a Amesterdão para cumprir a minha primeira missão 42.
Se há um ano Sesimbra foi palco para tomada de uma importante resolução, ontem foi resultado da tomada de uma ainda mais importante decisão, assumida no início de março – iria correr a minha distância mais longa.
Porquê? Porque sim. Porque simplesmente queria saber como é.
Confesso que foi uma semana particularmente turbulenta. Emocionalmente falando. Desconhecia o mundo para lá dos 42.195 metros. Adicionalmente, esta ultra-distância tinha a particularidade de somar cerca de 3.000 de desnível acumulado, pelo que seria também a minha experiência mais ondulada na corrida.
O despertador tocou às 4h30. O corpo desta vez não resistiu. Depois da ansiedade ao rubro no dia anterior, tinha mesmo que ir correr e fazê-lo tão depressa e bem quanto possível.
7 da manhã, aqui vamos nós!
A partida aconteceu às 7 da manhã em ponto, ainda o sol se espreguiçava. Já familiarizada com a primeira parte do percurso, segui calmamente com o habitual grupo de amigos das corridas e mais uns quantos atletas. Corremos em passada verdadeiramente calma, pois, quando demos conta, éramos efetivamente os “carros-vassoura”. Preocupados com isso? Nem um minuto. Corrijo, nem um metro.
Começa a subida em estradão de areia que já conhecia e depois… A descida paradisíaca até à Praia do Cavalo. Trilhos em single track, carregadinhos de pedras e arbustos que acarinhavam as minhas pernas, ontem livres de meias de compressão. Vivo melhor com arranhões nas pernas do que com calor, confesso.
Entre descidas e subidas, alguns participantes vão perguntando “isto é que é uma prova rolante?” e sorrio. Acreditem ou não, é mesmo rolante. Naquele momento foi a prova das Rolling Stones, ou como dizem os nossos hermanos espanhóis, piedras rolantes. Melhor que a designação “piedras rolantes” só mesmo a de um atleta que seguia uns metros atrás de mim, que exclamou “parecem berlindes!”. Aquela descida merecia ser filmada. Estou certa que encheria as salas de cinema com a melhor comédia do ano.
The wall
E, como tudo o que desce, sobe, diante de nós surge o primeiro muro da prova. Ainda não descarreguei a corrida do meu garmin, pelo que não sei precisar o declive da subida. Só não se torna assustador porque é extraordinariamente bonito. Sobe, sobe, sobe. Inspira e expira. Continua a subir. E sobe, sobe. Chegados ao topo, suspiramos e, voltando-nos para trás, deparamo-nos com um daqueles cenários idílicos, que vemos apenas naquelas fotografias perfeitas carregadinhas de retoques de Photoshop, que julgamos ser algures na Nova Zelândia. É lindo e é nosso!
Novo fôlego, agora para correr em terra salpicada de pedras, mas que permite ganhar alguma velocidade. Cerca do km 7, desvio para a esquerda e, aí sim, conheço o novo percurso. O dos 50. A partir de agora teremos cerca de 30 km praticamente sempre junto à linha de costa. Entretanto o Pedro e Ricardo já se haviam distanciado e fico para trás com outros atletas e com o Luís a marcar o ritmo. Já sei que não vale a pena insistir para seguir caminho. Decidiu que me ajudaria a completar os 50. Eu que detesto ser “empata” e protesto sempre mandando seguir os amigos, desta vez nem refilo. Tenho ainda 43 km pela frente e o Luís garantirá que me mantenho acordada e não esmoreço. Se não conhecem o Luís, digo-vos. Tem histórias para contar durante 8 horas!
O mar à esquerda e… Alfazemas. Ui, que cheirinho! Alfazemas aos molhos! Da próxima vez ficarei por lá uma tarde inteira a encher saquinhos de cheiro.
Isto é tudo nosso?
Já ontem escrevi e hoje mais sentido ganham as palavras depois de uma noite de descanso. Se houvesse uma lista “best of” dos percursos de trilhos em Portugal, o percurso Sesimbra-Praia do Meco ocuparia seguramente os lugares cimeiros. Falésias, arribas e um mar como não há igual. Um cheiro como não há igual. Maravilhosa a chegada ao Cabo Espichel. Descidas abruptas para as subir de seguida no lado oposto. Algumas são impróprias para quem sofre de vertigens. Felizmente, estou imune. Deve ser genético. O meu pai andou a dar piruetas no ar nos Asas de Portugal, pelo que devo achar que tenho asas que me acudirão se algo correr menos bem.
Faltam-me as palavras certas para descrever com a devida justiça e exatidão aquilo que os meus olhos viram. Uns estiveram lá. Outros decerto já terão visto algumas fotos de amigos do percurso de ontem. Ou até talvez já por lá tenham caminhado ou pedalado. É de cortar a respiração.
O sol entretanto já vai alto e o calor aperta. À esquerda o mar continua a acompanhar-me, oferecendo-me a maresia e umas ondas gigantes onde só apetece mergulhar. “Este ano o percurso alterou e já não desce às areias da Praia do Meco”, disseram-me na partida. “Hummmmm, então se não tem areia, o que é isto?”, penso eu. Pela frente temos cerca de 5 km de areia. Fofa e fresca! Os sapatos enterram-se e lutam para sair. As pernas já vão cansadas. Não desistimos. Alguns atletas sentam-se a contemplar o mar. Outros andam. E quem pode, corre. Os quilómetros acumulados e o calor já não permitem grandes raciocínios, mas sei que chegámos à Praia do Meco porque avisto um nudista a tocar guitarra!
Com 1 kg de areia em cada pé, descemos até à praia. E que descida esta. Estou certa que conhecerão as célebres mega-dunas do Meco. Descer as mesmas de ténis e a correr é das experiências mais divertidas que experimentei nos últimos tempos. Da próxima vez que for à praia, acompanho a Inês e o Diogo nas suas brincadeiras.
Passamos à frente do Bar do Peixe e já muitos almoçam na esplanada. Sonho com sangria e amêijoas à Bulhão Pato. Peixe grelhado escalado e uma salada de tomate carregadinha de orégãos. O Luís exclama “vá, vamos embora, tenho aqui uma sandwiche de presunto”. Encolho os ombros e sigo caminho. Certo é que essa sandwiche viria a reverlar-se vital uns quilómetros adiante e a ter o gosto de robalo de mar grelhado, regado com sumo de limão.
Mais à frente a sombra de uma centenária oliveira serve de abrigo. Sento-me para tirar a areia dos pés. “Será que me conseguirei levantar depois?”, penso. Arrisco. Faço-o tão rápido quanto possível, para que o corpo não cole ao chão. “Depois disto, dou por terminados os meus treinos em areia para a UMA em julho”, digo em tom de brincadeira. E, uma vez mais, seguimos caminho.
Depois das falésias e da areia, o resto!
A partir de agora, o percurso segue rumo ao interior. Umas vezes mais arenoso, outras mais compacto, vai-nos oferecendo a sombra dos pinheiros e algumas subidinhas ligeiras, que 32 km depois parecem rampas a 45%. Vejo azedas, mas desta vez nem me agacho para as apanhar. Os joelhos cederiam!
Os meus olhos já só veem as fitas de marcação. O Luís fala para que não esmoreça. Fala de triliões de pessoas que não conheço, diz os nomes de todos e fala, fala, fala. Se me perguntarem hoje sobre o que falou, não sei responder. Acho que já não estava ali.
43 km e chegamos à pedreira. A pedreira que, por algum motivo que desconheço, mexe comigo sobremaneira. Aquele cenário árido e branco transporta-me até um planeta distante. Este ano não foi palco para tomada de nenhuma decisão importante. No que a corridas diz respeito, o calendário desportivo está definido há muito!
Está quase, mas ainda falta a subida ao Castelo de Sesimbra! E essa já eu conheço do percurso dos 23 km em 2012. Subimos, subimos e subimos mais um pouco. Ao topo, os elementos da organização fazem a festa! Bebo um copo carregadinho de coca-cola e inicio a descida. Quero chegar à meta!
A correria para a meta
A descida é feita com rapidez. Não sei de onde saiu a energia para o fazer, mas deveria estar de reserva num qualquer cantinho do meu corpo. Ultrapassamos alguns atletas e, chegados à estrada que nos conduzirá à meta, os pés ganham vida própria. Em velocidade (5’20’’ para o último km depois de 49 km a correr), ziguezagueamos por entre as centenas de pessoas que passeiam pelo passadiço. Vejo o amigo Rui Pedro a passear e solto um grito estridente de alegria. Ouviu-se 20 km lá atrás, na Praia do Meco, estou certa.
8h29m52s, 52,14 km e 2.806 metros de sobe e desce depois… A meta!
O sorriso que me acompanha ao chegar à meta é do tipo “desmesurado”. Telefono à família para os tranquilizar. Descalço-me e… atiro-me ao mar, para o primeiro banho do ano e aquele que julgo ter sido dos mais saborosos nos últimos 37 anos.
Ultra?! Ultra-caracoleta, isso sim!
Foi duro, delicioso e repetirei. Não gosto muito dessa história da ultra. Se insistirem na ultra, então ultra-caracoleta estará perfeito. E sinto-me bem assim.
É este o meu ritmo. Corro como sei, como posso e como gosto. No meu íntimo subi ao pódio. Cheguei ao fim!
Começo este texto por felicitar a Susana Simões, a primeira senhora a passar a meta do Ultra Trail de Sesimbra, em 5h36m! 50 km de verdadeira montanha russa neste tempo recorde não é para todos. E houve mais gente do tipo “supersónico” - dezenas de atletas masculinos e femininos cujos tempos afixados na lista de classificações me deixaram de queixo caído. Mas deixemos as vedetas ultra-planetárias do trail running e regressemos ao mundo dos modestos terráqueos como eu.
Um ano depois tinha que lá voltar
Foi há precisamente um ano que fiz a minha primeira prova fora de estrada, em Sesimbra. Na altura, aventurei-me na distância mais curta, que totalizava 23 km. Esta experiência foi de tal forma inspiradora que foi aqui que decidi que correria a minha primeira maratona. E assim aconteceu. Em outubro lá rumei eu a Amesterdão para cumprir a minha primeira missão 42.
Se há um ano Sesimbra foi palco para tomada de uma importante resolução, ontem foi resultado da tomada de uma ainda mais importante decisão, assumida no início de março – iria correr a minha distância mais longa.
Porquê? Porque sim. Porque simplesmente queria saber como é.
Confesso que foi uma semana particularmente turbulenta. Emocionalmente falando. Desconhecia o mundo para lá dos 42.195 metros. Adicionalmente, esta ultra-distância tinha a particularidade de somar cerca de 3.000 de desnível acumulado, pelo que seria também a minha experiência mais ondulada na corrida.
O despertador tocou às 4h30. O corpo desta vez não resistiu. Depois da ansiedade ao rubro no dia anterior, tinha mesmo que ir correr e fazê-lo tão depressa e bem quanto possível.
7 da manhã, aqui vamos nós!
A partida aconteceu às 7 da manhã em ponto, ainda o sol se espreguiçava. Já familiarizada com a primeira parte do percurso, segui calmamente com o habitual grupo de amigos das corridas e mais uns quantos atletas. Corremos em passada verdadeiramente calma, pois, quando demos conta, éramos efetivamente os “carros-vassoura”. Preocupados com isso? Nem um minuto. Corrijo, nem um metro.
Começa a subida em estradão de areia que já conhecia e depois… A descida paradisíaca até à Praia do Cavalo. Trilhos em single track, carregadinhos de pedras e arbustos que acarinhavam as minhas pernas, ontem livres de meias de compressão. Vivo melhor com arranhões nas pernas do que com calor, confesso.
Entre descidas e subidas, alguns participantes vão perguntando “isto é que é uma prova rolante?” e sorrio. Acreditem ou não, é mesmo rolante. Naquele momento foi a prova das Rolling Stones, ou como dizem os nossos hermanos espanhóis, piedras rolantes. Melhor que a designação “piedras rolantes” só mesmo a de um atleta que seguia uns metros atrás de mim, que exclamou “parecem berlindes!”. Aquela descida merecia ser filmada. Estou certa que encheria as salas de cinema com a melhor comédia do ano.
The wall
E, como tudo o que desce, sobe, diante de nós surge o primeiro muro da prova. Ainda não descarreguei a corrida do meu garmin, pelo que não sei precisar o declive da subida. Só não se torna assustador porque é extraordinariamente bonito. Sobe, sobe, sobe. Inspira e expira. Continua a subir. E sobe, sobe. Chegados ao topo, suspiramos e, voltando-nos para trás, deparamo-nos com um daqueles cenários idílicos, que vemos apenas naquelas fotografias perfeitas carregadinhas de retoques de Photoshop, que julgamos ser algures na Nova Zelândia. É lindo e é nosso!
Novo fôlego, agora para correr em terra salpicada de pedras, mas que permite ganhar alguma velocidade. Cerca do km 7, desvio para a esquerda e, aí sim, conheço o novo percurso. O dos 50. A partir de agora teremos cerca de 30 km praticamente sempre junto à linha de costa. Entretanto o Pedro e Ricardo já se haviam distanciado e fico para trás com outros atletas e com o Luís a marcar o ritmo. Já sei que não vale a pena insistir para seguir caminho. Decidiu que me ajudaria a completar os 50. Eu que detesto ser “empata” e protesto sempre mandando seguir os amigos, desta vez nem refilo. Tenho ainda 43 km pela frente e o Luís garantirá que me mantenho acordada e não esmoreço. Se não conhecem o Luís, digo-vos. Tem histórias para contar durante 8 horas!
O mar à esquerda e… Alfazemas. Ui, que cheirinho! Alfazemas aos molhos! Da próxima vez ficarei por lá uma tarde inteira a encher saquinhos de cheiro.
Isto é tudo nosso?
Já ontem escrevi e hoje mais sentido ganham as palavras depois de uma noite de descanso. Se houvesse uma lista “best of” dos percursos de trilhos em Portugal, o percurso Sesimbra-Praia do Meco ocuparia seguramente os lugares cimeiros. Falésias, arribas e um mar como não há igual. Um cheiro como não há igual. Maravilhosa a chegada ao Cabo Espichel. Descidas abruptas para as subir de seguida no lado oposto. Algumas são impróprias para quem sofre de vertigens. Felizmente, estou imune. Deve ser genético. O meu pai andou a dar piruetas no ar nos Asas de Portugal, pelo que devo achar que tenho asas que me acudirão se algo correr menos bem.
Faltam-me as palavras certas para descrever com a devida justiça e exatidão aquilo que os meus olhos viram. Uns estiveram lá. Outros decerto já terão visto algumas fotos de amigos do percurso de ontem. Ou até talvez já por lá tenham caminhado ou pedalado. É de cortar a respiração.
O sol entretanto já vai alto e o calor aperta. À esquerda o mar continua a acompanhar-me, oferecendo-me a maresia e umas ondas gigantes onde só apetece mergulhar. “Este ano o percurso alterou e já não desce às areias da Praia do Meco”, disseram-me na partida. “Hummmmm, então se não tem areia, o que é isto?”, penso eu. Pela frente temos cerca de 5 km de areia. Fofa e fresca! Os sapatos enterram-se e lutam para sair. As pernas já vão cansadas. Não desistimos. Alguns atletas sentam-se a contemplar o mar. Outros andam. E quem pode, corre. Os quilómetros acumulados e o calor já não permitem grandes raciocínios, mas sei que chegámos à Praia do Meco porque avisto um nudista a tocar guitarra!
Com 1 kg de areia em cada pé, descemos até à praia. E que descida esta. Estou certa que conhecerão as célebres mega-dunas do Meco. Descer as mesmas de ténis e a correr é das experiências mais divertidas que experimentei nos últimos tempos. Da próxima vez que for à praia, acompanho a Inês e o Diogo nas suas brincadeiras.
Passamos à frente do Bar do Peixe e já muitos almoçam na esplanada. Sonho com sangria e amêijoas à Bulhão Pato. Peixe grelhado escalado e uma salada de tomate carregadinha de orégãos. O Luís exclama “vá, vamos embora, tenho aqui uma sandwiche de presunto”. Encolho os ombros e sigo caminho. Certo é que essa sandwiche viria a reverlar-se vital uns quilómetros adiante e a ter o gosto de robalo de mar grelhado, regado com sumo de limão.
Mais à frente a sombra de uma centenária oliveira serve de abrigo. Sento-me para tirar a areia dos pés. “Será que me conseguirei levantar depois?”, penso. Arrisco. Faço-o tão rápido quanto possível, para que o corpo não cole ao chão. “Depois disto, dou por terminados os meus treinos em areia para a UMA em julho”, digo em tom de brincadeira. E, uma vez mais, seguimos caminho.
Depois das falésias e da areia, o resto!
A partir de agora, o percurso segue rumo ao interior. Umas vezes mais arenoso, outras mais compacto, vai-nos oferecendo a sombra dos pinheiros e algumas subidinhas ligeiras, que 32 km depois parecem rampas a 45%. Vejo azedas, mas desta vez nem me agacho para as apanhar. Os joelhos cederiam!
Os meus olhos já só veem as fitas de marcação. O Luís fala para que não esmoreça. Fala de triliões de pessoas que não conheço, diz os nomes de todos e fala, fala, fala. Se me perguntarem hoje sobre o que falou, não sei responder. Acho que já não estava ali.
43 km e chegamos à pedreira. A pedreira que, por algum motivo que desconheço, mexe comigo sobremaneira. Aquele cenário árido e branco transporta-me até um planeta distante. Este ano não foi palco para tomada de nenhuma decisão importante. No que a corridas diz respeito, o calendário desportivo está definido há muito!
Está quase, mas ainda falta a subida ao Castelo de Sesimbra! E essa já eu conheço do percurso dos 23 km em 2012. Subimos, subimos e subimos mais um pouco. Ao topo, os elementos da organização fazem a festa! Bebo um copo carregadinho de coca-cola e inicio a descida. Quero chegar à meta!
A correria para a meta
A descida é feita com rapidez. Não sei de onde saiu a energia para o fazer, mas deveria estar de reserva num qualquer cantinho do meu corpo. Ultrapassamos alguns atletas e, chegados à estrada que nos conduzirá à meta, os pés ganham vida própria. Em velocidade (5’20’’ para o último km depois de 49 km a correr), ziguezagueamos por entre as centenas de pessoas que passeiam pelo passadiço. Vejo o amigo Rui Pedro a passear e solto um grito estridente de alegria. Ouviu-se 20 km lá atrás, na Praia do Meco, estou certa.
8h29m52s, 52,14 km e 2.806 metros de sobe e desce depois… A meta!
O sorriso que me acompanha ao chegar à meta é do tipo “desmesurado”. Telefono à família para os tranquilizar. Descalço-me e… atiro-me ao mar, para o primeiro banho do ano e aquele que julgo ter sido dos mais saborosos nos últimos 37 anos.
Ultra?! Ultra-caracoleta, isso sim!
Foi duro, delicioso e repetirei. Não gosto muito dessa história da ultra. Se insistirem na ultra, então ultra-caracoleta estará perfeito. E sinto-me bem assim.
É este o meu ritmo. Corro como sei, como posso e como gosto. No meu íntimo subi ao pódio. Cheguei ao fim!
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