segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Trail do Zêzere em factos

Facto 1. TUDO O QUE SOBE, DESCE. Mentira. Ontem encontrei a confirmação da exceção à regra. Tudo o que sobe, sobe mais, e mais, e mais.

Facto 2. NENHUMA PROVA TEM A DISTÂNCIA QUE ANUNCIAM. Voltei a confirmar isso em Ferreira do Zêzere. O meu relógio diz-me que estou a 750 metros da meta, mas a placa de identificação anuncia que faltam “só” 3 km para chegar ao tão desej...
ado local.

Facto 3. A DUAS É MUITO MELHOR. Estreia absoluta da Sofia nos trilhos. Estreou-se em setembro na Meia-Maratona em São João das Lampas. Dois meses mais tarde estreia-se nos trilhos, numa prova não aconselhável a principiantes, nem tão pouco reincidentes. De resto, um dos membros da organização teve a delicadeza de anunciar na partida que quem tinha vindo para se estrear, tinha feito uma escolha bem ousada!

Facto 4. OS 38 NÃO ME TORNARAM MAIS RÁPIDA. Não foi a Sofia que me atrasou, mas sim o contrário! Quem sabe o problema tenha residido no esquecimento do amuleto das corridas – as asas. Ou quem sabe esteja mesmo condenada a ser lentinha para viver tudo mais devagar.

Facto 5. SÓ CONHECERÁS O TEU PAÍS SE SAIRES DO CARRO. Eu já sabia disso. Já havia escrito isso. E fartei-me de rir quando, a meio de uma potente subida, a Sofia me perguntou “nunca chegaríamos aqui de carro, pois não!?”.

Facto 6. OS ESCORPIÕES ADORAM VALES E MONTES. Quem sabe, sabe, e os escorpiões é que sabem. Qual o melhor “spot” para comemorar aniversários? A montanha, claro está. Estava lá eu, a
Maria e o João Carlos. Três escorpiõezinhos adoráveis!

Parabéns a todos os estreantes nos 23 K e nos 48 K. Parabéns aos que invariavelmente subiram ao pódio e voaram pela montanha. Parabéns aos que, não contentes com os 48 K, decidiram palmilhar umas dezenas de kms mais, passando pela meta duas vezes. E parabéns a todos os que escolheram Ferreira do Zêzere para desfrutar de uma belíssima manhã solarenga e fria de domingo!

domingo, 3 de novembro de 2013

Maratona à Moda do Porto

Dificuldade
*** (média)


Tempo de preparação
4h11 ou, numa abordagem que prefiro, 3h71.


Ingredientes
- Brincos formato "asinhas"
- Ténis padrão pantera
- Sol brilhante
- Temperatura amena
- Mar revolto, na Foz
- Rio Douro, na Ribeira e do lado de Gaia também
- 2 colheres de chá de mimos dos tios na partida e na meta
- Várias colheres de chá de sorrisos de atletas amigos, em todo o "tempo de preparação"
- Força q.b.


Modo de Preparação

Posicione-se na meta. Simule que faz um aquecimento, rodando os tornozelos. Exiba um ar concentrado. Ligue a música. Quanto mais alto, melhor. Localize o balão (pacer) das 4h00. Se não o encontrar, não se preocupe. Eventualmente terá a sorte de se cruzar com ele nos próximos kms. Ligue o relógio.

Quando ouvir o sinal da partida, comece a correr. Suba. Suba mais um pouco. Pergunte-se a si mesmo quando termina a subida. Sorria. A subida terminou mais rápido do que previa. Comece a descer. Sempre a descer. Está a descer a Avenida da Boavista. Não chore porque não pode ter o porsche que avista no stand. Há coisas mais importantes na vida. Siga para direita, seguindo o desvio. Em breve voltará à luxuosa avenida. Sorria. Chegou à Foz. Não vai voltar à esquerda. Ao invés, irá dar uma voltinha a Matosinhos. É um passeio simpático.

Entretanto, começam os sorrisos. Alguns amigos já vêm em sentido contrário. Grite por eles. Sorria quando gritam por si. Sorria para os fotógrafos também! Chegará o momento em que também dará meia-volta e voltará a cruzar-se com caras conhecidas. Sorria. Mostre-se confiante e diga palavras de incentivo!

Chegará de novo ao Castelo do Queijo e, desta vez, seguirá mesmo no sentido da Ribeira. Tente fugir do empedrado escorregadio e não nivelado, se conseguir. Siga em frente e depois siga para a direita. Se for menina, está tudo estragado. Vai perder a cabeça nas tendinhas que exibem lindas peças de artesanato e "tarecos" que adoramos. Serão uma boas centenas de metros de tendinhas. A solução passa por não levar a carteira consigo. Se assim for, está safa!

Vire à direita e atravesse o rio Douro na linda Ponte de São Luís até Gaia. Sorria. Alguém chamou pelo seu nome! Está de novo numa parte do percurso onde os atletas se cruzam e vai desejar ser rápido como os que já vêm no sentido contrário. Um, e outro e mais outro. Alegre-se! Fique feliz por eles. São mais rápidos porque treinam seguramente mais do que você. Siga sempre em frente. Já não falta tudo. Está na Afurada e portanto no km 27. Dê a volta! Agora vai cruzar-se novamente com atletas que vão um pedacinho mais lentos do que você próprio. Sorria e grite palavras de encorajamento!

De novo em direção à Ponte de São Luís. Atravesse o Douro. Vire à direita. Mais um pedacinho, mais uns sorrisos, mais uma voltinha no km 31,5, no Freixo. Tantas voltinhas! Mas acabaram-se. Agora é sempre a direito. Sempre, sempre, sempre até ao fim. Menos um bocadinho. Coma as passas, os gomos de laranja e as bebidas isotónicas que a organização lhe oferecer. Vai precisar disso tudo, lhe garanto!

Chegou de novo ao Castelo do Queijo e agora vai voltar a subir a Avenida da Boavista. Mas só um pedacinho. Prometo. Aviste a meta. Sorria. Ponha Iggy Pop a tocar. "Wild One" é o tema perfeito. Vai sentir-se... Wild! Mais amigos a gritarem pelo seu nome. Desconhecidos também, apenas porque transbordam simpatia e o seu nome é exibido no dorsal.

Chegou. Sorria de novo. Receba a medalha e fique feliz porque acaba de terminar mais 42.195 metros!

(receita redigida a bordo do autocarro mais barulhento em que alguma vez estive, a caminho de Lisboa)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Correndo por terras Andaluzas

Quando nos propomos fazer 1500 km de carro para correr 83 km é expectável que, no mínimo, nos esforcemos para que sejam as “duas maratonas seguidas” mais memoráveis da nossa vida. Assim aconteceu.
A “Ultima Frontera” é uma prova circular, que se desenvolve em duas distâncias à escolha – uma volta de 83 km ou duas voltas de 83 km, totalizando assim os 166 km, vulgarmente designados de 100 milhas.
Há alguns meses havia decidido que tentaria completar as minhas primeiras 100 milhas mas, a 2 semanas do dia “UF”, resultado de inúmeros fatores com maior ou menor relevância, recuei na minha decisão. Alinharia na partida dos 83 km.
Dos 27 atletas que partiram às 9h15 de dia 19 de outubro em busca das 100 milhas, apenas 11 conseguiram fazê-lo com sucesso. Preciso dizer algo mais?
Destes 27, apenas uma era menina. Chama-se Carla e já falarei dela mais adiante.

Começando pelo fim…

Enquanto me arrastava, encosta abaixo, rumo a Loja, localidade onde se encontrava a meta dos 83 km e o ponto de partida para a segunda volta (para os valentes que seguiam para os 166 km), gritei para as estrelas e para quem me quisesse ouvir – pobre Zé! Zangada comigo, muito mesmo, exclamei como poderia ter tido a ousadia de, há uns meses atrás, ter pensado que teria condições para completar as duas voltas e, como tal, aquelas que seriam as minhas primeiras 100 milhas. Tenho tanto para aprender ainda. Tanto mesmo!
Estão de parabéns o Miguel e o Ricardo que, não só completaram com sucesso as primeiras 100 milhas, como o fizeram numa prova a que a gíria designaria de “pica-miolos”. Não se iludam. O que ambos fizeram não está ao alcance de muitos. Desde os primeiros passos, os primeiros metros, cada um daqueles atletas sabe que daí a umas horas estará a repetir exatamente o mesmo percurso. Acontece no entanto que, nessa altura, levará consigo o cansaço acumulado de muitas dezenas de kms e já conhecerá todos os desafios que o esperam pela frente.

Voltando ao início…

Na véspera da prova, falava com os meus filhotes. O Diogo, que já não se recordava bem do que a mãe ia fazer, perguntou-me quantos quilómetros tencionava correr. “83″ – disse-lhe. “Mas… já correste 100!”, respondeu indignado. Ainda assim, sabendo que não conseguiria deixar o meu filhote deslumbrado, lá alinhei animada na partida.
Andaluzia recebeu um grupo de seis divertidos portugueses. Numa prova organizada por um casal americano estabelecido em Espanha – os simpáticos Michelle e Eric -, verifiquei que eram poucos os espanhóis que por lá andavam. Ingleses, americanos, japoneses, dinamarqueses, belgas, alemães e até uma portuguesa que vive no Dubai… enfim… uma miscelânea de nacionalidades numa prova que reuniu 99 participantes. Os seis portugueses eram seguramente os mais animados. E também os mais barulhentos. Michelle, sempre atenta, não precisou de muito tempo para o perceber. Na primeira noite já exclamava “finally quiet“, nos raros momentos de silêncio que o Pedro lhe proporcionava.

O outono Andaluz, corrijo, o verão Andaluz!

Há várias semanas que brincava com estas palavras. Ultima Frontera seria a minha oportunidade para conhecer o outono Andaluz.
Quis o destino (ou São Pedro) que o dia fosse de verão. Terei que voltar de novo para conhecer as temperaturas amenas, desfrutar dos pingos de chuva no nariz, ouvir o vento soprando fresco e sentir os estalinhos das folhas que piso no chão.
Várias vezes olhei para as marcas desenhadas no alcatrão e na terra batida. Às vezes setas apenas, outras setas com as iniciais “UF”. Respondia-lhes “à letra”… Uffffff!

Partida, largada, fugida!

Partimos juntos, mas o Miguel, Pedro e Ricardo logo se distanciaram. O Zé corria com uma fascite plantar, pelo que teve que se proteger. Só desta forma o conseguiria acompanhar. Não sei se se protegeu efetivamente ou se fez estragos maiores correndo ao meu ritmo. Ele lá saberá. Creio que perto do km 81 desisti de insistir para que seguisse caminho, mais rápido. Era por demais evidente que não o ia fazer.
O trio Carla, Zé e Susana manteve-se coeso até cerca dos 70 km. Depois disso, a Carla acelerou e rumou em busca do seu sonho, ao som da sua música.
70 km e qualquer coisa como 12 horas a três. São estas partilhas que tornam estas experiências verdadeiramente únicas. Todos nós gostamos de correr sozinhos. No entanto, quando nos aventuramos nas longas distâncias, a companhia é um estímulo fundamental. Ora avança um, ora avança outro. “Mas será que viemos aqui para alguma caminhada?”, brinca um dos três. Daí a umas horas os papéis inverter-se-ão. Uns servem de lebre no alcatrão, outros são mais rápidos nos trilhos. Uns cantam, outros calam-se. Uns dizem disparates, outros riem-se. E todos, sem exceção, se interrogam “quem é que teve esta brilhante ideia de nos trazer para aqui?!”.

Adónis não vive no Olimpo, mas sim em Andaluzia!

Chegámos ao PC 2, correspondente aos 35 km, debaixo de um calor intenso. Sonho com coca-cola mas têm apenas água para me oferecer. Um dos elementos da organização convida-me a sentar e faço-o sem hesitar. Baixo a cabeça e, quando a levanto, convenço-me que estou a ter alucinações. Vejo chegar um jovem de corpo atlético, cabelo loiro, pela altura do queixo, correndo em tronco nu. Abri bem os olhos. Olhei para o meu copo para me certificar do que tinha dentro. Volto a olhar para o deslumbrante atleta. Vejo-o falar com os elementos da organização. Pergunto ao Zé e à Carla o que se está a passar. Interrogo-me se já vai na segunda volta. Estou verdadeiramente atordoada. Antes de partir, com a frescura de quem corre algures no Pólo Norte, deseja-nos “good luck“. Bem sabe que vamos precisar dela. De sorte! Vejo-o partir e finalmente entendo que leva 32 km de avanço, sendo que acaba de passar o ponto marcado no mapa como o cruzamento do “8″, que eu virei a cruzar mais tarde… muitas horas mais tarde.
Seguimos caminho e, em vários momentos, aquela imagem me atormentou. Não sei se o Adónis “himself” ou o facto de perceber quão pequenina sou. Quão veloz ele era. Quão lenta eu sou. Quão resistente ele era. Quão destreinada eu sou. Mas, uma coisa é certa. Eu vi Adónis. Em carne e osso. Esse Deus existe!

O paradoxo da subida a Montefrio, debaixo de um calor abrasador…

Começa depois uma das subidas mais desafiadoras do percurso. Vários kms a subir, pisando o alcatrão. O calor aperta e o asfalto aquece os pés. O Zé explica-nos que o Carlos Sá corria sobre a linha branca do asfalto quando fez a Badwater. Aí o pavimento aquecia um pouco menos.
Na subida avistamos romãzeiras. Do que me recordo, só no início de novembro as romãs estarão boas para comer, mas quem sabe em Espanha amadureçam mais cedo. O Zé colhe uma romã e parte-a ao meio. De repente senti-me como uma criança com um punhado de Smarties na minha mão. Todos da mesma cor, claro. A romã estava incrivelmente verde e ácida, mas soube-me tão, mas tão bem! Certo é que foi aquela meia romã que me conduziu estrada acima, até Montefrio.
O calor não nos dava tréguas e a estrada parecia não ter fim. “Não tarda tenho pipocas a saltar da cabeça”, disse eu, admitindo que, naquela fase, apenas poderia ter milho dentro dela. O discurso era efetivamente pouco coerente.
Avistamos finalmente Montefrio. Vemos atletas a subir na direção em que descemos e questionamo-nos se vamos no caminho certo. O GPS da Carla diz que sim e continuamos a descida até à simpática localidade onde atingiremos a marca dos 48 km e onde nos espera o repasto que preparámos horas antes. À chegada liberto-me das meias de compressão, das caneleiras de compressão e de tudo o que me possa comprimir. Confesso que não sei fazer uso deste tipo de equipamento em dias de calor.

As oliveiras

Oliveiras à direita. Oliveiras à esquerda. O que tenho à frente? Oliveiras. Oliveiras por toda a parte. E assim penso nas “oliveirinhas” da minha vida – Inês e Diogo Oliveira -, que aquela hora deverão estar a brincar no eirado da casa dos avós. Rodeados de oliveiras, por sinal.

A luz do luar Andaluz

Estamos algures perto do km 70. Chegámos ao último PC antes da meta. A Carla deixou-nos há cerca de 2 kms. Arrancou depressa, para agarrar a segunda volta. Confesso que já não me restam grandes forças. O calor derrubou-me. Talvez ande exausta e precise de descansar um pouco. Adicionalmente, erro de principiante seguramente, sei que escolhi o calçado errado para este tipo de prova. Da próxima vez estudarei melhor a lição. “Correndo e aprendendo”, concluo rapidamente.
Bebo o quadragésimo terceiro copo de coca-cola do dia e prometo ao Zé que tentarei correr mais depressa. “Depois daquele poste, de acordo?”, dizia eu. E, sistematicamente, o poste avançava até ao seguinte, até à próxima ponte, até à árvore do lado esquerdo, até ao local onde se avistavam dois “faróis” pequeninos, anunciando um gato que nos observava.
Entramos numa zona de planície carregada de oliveiras e apercebemo-nos do luar a iluminar o caminho. Em simultâneo, extraordinariamente em simultâneo, apagamos os frontais e seguimos caminho com a Lua como companheira. Vale bem sair de casa por isto, caramba!
O meu telemóvel, em modo silêncio desde o início da prova, ilumina-se. Espreito e vejo que acabo de receber uma mensagem da minha amiga Sofia. Não resisto e ligo-lhe. E, por breves minutos, acompanha-nos estradão acima, debaixo do luar.

A meta

Os joelhos já não respondem quando lhes peço que avancem. Imploram-me que calce pantufas. Que sossegue. Que me sente num qualquer pouf a ver um programa tonto de TV. “Sim, já trato disso, mas ponham-me por favor ali em baixo. Estão a ver as luzes? É ali”, respondo-lhes.
Chegamos e encontramos o Pedro e a Carla. O Miguel e o Ricardo já estão na segunda volta. A Carla prepara-se para iniciar os “segundos 83″. Está entusiasmada. Abraços, beijos, mil “forças à Carla” e lá a vemos partir, noite escura fora. Questiono-me se é uma questão de loucura, de coragem ou de determinação. Talvez seja um pouco de tudo. Há um ano atrás, também o Zé seguia para a segunda volta, na companhia da Teresa Afonso.
Algumas horas mais tarde, já depois do banho e de um sono leve no pavilhão, acordo. Talvez seja a minha intuição de escorpião. Envio uma mensagem à Carla. Fico a saber que acaba de chamar a organização para a recolherem. 115 km depois, a guerreira Carla regressa a Loja, embrulhada não na manta de sobrevivência, mas numa capa dourada, que só as rainhas podem ostentar!
O sol parece querer nascer e aguardamos pelo Miguel e Ricardo. Já tivémos notícias do segundo que, depois de uma soneca de 30 minutos à beira da estrada, lá se decidiu meter a caminho da conclusão das 100 milhas. Em Loja é recebido como nenhum outro atleta. O Zé anuncia a chegada do Ricardo acordando toda a povoação. O Pedro corre atrás do Ricardo, filmando-o, num derradeiro sprint que não deve ter andado longe dos 3 min/km. Valente!
O Miguel, que esperávamos muito depois, tendo presente algumas informações da organização, surpreende-nos 30 minutos mais tarde. Não teve o acolhimento merecido, pois andávamos distraídos a descobrir os escorregas no parque infantil. Redimimo-nos como pudémos e oferecemos-lhe todo o banco traseiro do carro na viagem de regresso, para que pudesse dormir… como um bebé!

O regresso a casa…

Estamos cansados. Uns mais que outros. Queremos chegar a casa. Queremos chegar a casa rápido, de preferência.
Alguém que assume o papel de co-piloto (não referirei nomes) coloca-nos no meio de Sevilha. Não experimentem entrar em Sevilha sem o propósito efetivo de visitar a cidade. Dificilmente se consegue encontrar o caminho de saída. Fizemos um lindo tour e aproveitei para indicar partes do percurso da maratona que os restantes passageiros vão encontrar no próximo mês de fevereiro.
Quando conseguimos finalmente sair de Sevilha, rumando a Portugal, o co-piloto, cujo nome continuarei a não revelar, decide que qualquer coisa que se chama N433 e indica “PORTUGAL” em tamanho de fonte 456, deverá ser a melhor opção.
Não duvidem… Há muito que não percorria uma estrada tão bonita. “Que linda estrada para uma corrida”, exclamei! O Pedro discorda e diz que preferia fazê~la de bicicleta. Talvez tenha razão.
Como disse o Miguel, quase garantimos a entrada em Portugal na fronteira com a Guarda, mas que percorremos um lindo percurso para chegar a casa, lá isso percorremos!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Amesterdão, um ano depois

Não, ainda não são as palavrinhas sobre La Ultima Frontera.
Impossível acordar hoje e não sorrir.
Há precisamente um ano, a esta hora, corria a minha primeira maratona em Amesterdão.
Os meus primeiros 42 km, na companhia do grande amigo Al.
A primeira a que chamam "Prova Rainha"....

Como diz o João Campos, a vida não é só corrida. Mas acredito genuinamente que a corrida me permitiu estar melhor em tudo o resto que faço. Os cientistas explicarão melhor do que eu porquê. Eu apenas posso dizer o que sinto. E o que sinto deve ser semelhante ao que sente o milho quando é aquecido e explode "virando" pipoca (vou usar esta analogia, numa ótica diferente, quando vos contar o que aconteceu em Andaluzia).
Correndo o risco de me tornar repetitiva, arrisco mesmo e volto a escrever o que disse há um ano.
Plantem uma árvore. Tenham um filho. Escrevam um livro. Sim, tudo isso. Mas corram também uma maratona. Vivam a ansiedade das semanas que antecedem a prova, os momentos de confiança e os de dúvida. Treinem. Olhem para o relógio. Não olhem para o relógio. Vivam com alegria o registo de um tempo melhor que o anterior. Protestem quando o treino não corre bem. Vivam a véspera, o dia da prova, a passagem da meta aos 42. Corram uma maratona. Aqui, ali ou em qualquer lugar.
Desejos de uma ótima semana!

domingo, 29 de setembro de 2013

Serra d'Arga contada às crianças

"Meninos, vamos para a caminha!", exclamo, exausta, ansiando também pelo meu momento de descanso, no final de mais um dia bem preenchido.
"Queremos uma história, mamã! Já não nos contas uma história há tanto, tanto tempo!", reclamam a Inês e o Diogo.
"Têm razão", respondo. "Há quanto tempo não me sento a ler-lhes uma história aos pés da cama", penso para comigo.
"Ora então vamos lá", começo eu.
"Vou contar-vos uma história de uma menina que conheço. Era menina como tu, querida Inês, mas depois cresceu e hoje já é uma mulherzinha". "A menina também tinha um mano, sabes Diogo?", acrescentei.
"Coincidência ou não, esta história aconteceu no dia 28 de setembro. É um dia muito especial para a mamã. O que quer que seja que venha a acontecer, nunca deixará de ser especial", expliquei à Inês e ao Diogo.

Era uma vez...

Certo dia de setembro, numa linda serra chamada Serra d'Arga, muitas centenas de meninos e meninas, uns mais crescidos, outros menos, uns com pernas maiores, outros com pernas mais curtas, partiram de manhã bem cedo, estrada de pedra acima, em busca de um lindo tesouro na Serra d'Arga.

Eram realmente muitos e, por vezes, os caminhos eram tão estreitos, que tinham que esperar à vez a sua passagem. Cada um esperou pelo seu momento, sem tropeções, encontrões ou palavrões!
A menina lá seguia no seu caminho, umas vezes correndo, outras andando, apoiada em duas poderosas muletas, que tornavam a escalada das paredes de pedra um pouco mais ligeira.

Foi subindo, subindo e a chuva não tardou a cair. E choveu mesmo muito. Choveu quase o tempo todo!
À medida que subia, o vento soprava mais forte. Vruummmmmm! E soprava cheio de força, de todos os lados. Umas vezes era vruummmmmm, outras vroommmmmm, adivinhando-se um daqueles grandes moinhos de vento, escondido atrás do nevoeiro. O "vrooooommmm" era mesmo tão assustador, que a menina concluiu que o moinho de vento deveria estar a produzir energia para Portugal inteiro!

Entretanto, avista uma descida e começa a correr, destemida, sobre as pedras. Tem mesmo muita pedra a Serra d'Arga. A menina não corria muito rápido, mas devia fazê-lo de forma engraçada, pois um outro corredor disse-lhe que parecia que estava a dançar ballet sobre as pedras!

E lá seguia a menina correndo quando... Catrapum! Escorrega numa pedra e puf! Grande queda. Ficou sentada por uns momentos e logo chegaram outros meninos perguntando se estava bem. Ninguém seguiu caminho sem que a menina se levantasse e confirmasse que tudo estava no mesmo sítio.

Recomeça assim a corrida, um pouquinho dorida e com uns arranhões na perna, que as simpáticas urzes - uns arbustos muito bonitos mas que picam muito - iam acariciando ao longo de todo o percurso. Havia urzes mesmo por todo o lado! Era impossível escapar!

E, por falar na impossibilidade de escapar... "Tantas ovelhinhas que por aqui andam", pensava a menina enquanto subia e descia a montanha. Na realidade, não avistou nem uma. Mas as pedras estavam cheias de vestígios de ovelha! Se calhar haviam-se escondido dos lobos que por lá andam. Mas a menina não teve medo, porque na véspera tinha lido que os lobos não atacam os homens, fogem deles!

A Serra d'Arga está salpicada de vegetação rasteira. É comum que assim aconteça quando estamos a maiores altitudes. Mas, de quando em vez, lá aparecia uma árvore com uma grande copa, mesmo grande, e a menina perguntava-se como teria ido ali parar uma árvore. Uma única árvore, nascida no meio do nada, com muitos ramos e folhas, que nem a chuva, nem o vento, haviam destruído ao longo de todos estes anos.

A chuva continuou a cair. A terra, que há poucos dias estava seca, depressa se transformou em lama. Chlop, chlop, lá seguia a menina com os sapatos, as pernas, as mãos dentro da lama. Sentia comichão, coçava o nariz e ganhava um nariz com cor de carvão. Felizmente lá aparecia um riacho com água cristalina, onde aproveitava para limpar o que conseguia. Temos que lavar sempre as mãozinhas! Mas a lama era tanta, que receava mesmo levar um ralhete quando chegasse a casa. Bem vistas as coisas, a menina já era crescida para levar ralhetes, mas seriam bem merecidos!

Ao perto ouvem-se os sinos da igreja. A menina corre e conta as badaladas. Quatro badaladas! São quatro da tarde, portanto. Mas, como sempre na montanha, o perto torna-se longe, e dá umas voltinhas mais por entre as pedras, cascalho e folhinhas.

Mais de 8 horas depois, a menina chega à meta. Encontra os tios queridos, alguns amigos e gente que não conhece, mas que a felicitam como se tivesse ganho o primeiro lugar.

"E o tesouro, mamã, alguém o encontrou?", perguntou o Diogo.
"Acho que todos os meninos e meninas que por lá andaram encontraram um tesouro, Diogo. Para uns o tesouro estava na chegada à meta, o fim da corrida. Para outros, o tesouro foi sentir a chuva no rosto. Para outros ainda, ouvir o vento forte. Todos encontraram qualquer coisa valiosa", respondi.

"Como se chamava a menina desta história?", pergunta a Inês.
"Chamava-se Susana. Mas esta é também a história de muitas outras meninas que por lá andaram, naquela serra. É a história da Maria, da Ana, da Carla, da Gília, da Cláudia, da Aida, da Anabela, da Mariana, da Sónia, da Otília, da Cristina, da Júlia e de tantas outras meninas", respondi cheia de certezas.

"Inês e Diogo, não me interessa que sejam os melhores. Quero que sejam únicos no que fizerem! Como a única árvore que avistei lá em cima na montanha. Não será a maior do mundo, mas ali era especial no meio das urzes! Prometem?", pergunto.
"Sim, mamã!", respondem em uníssono.
"Então... vitória, vitória, acabou-se a história!", remato.